
As tensões entre Estados Unidos e Japão por causa da guerra contra o Irã ficaram evidentes mesmo enquanto o presidente Donald Trump recebia a primeira-ministra Sanae Takaichi, ainda que ele tenha dito que Tóquio está respondendo ao seu chamado por apoio no esforço de guerra.
A visita já era considerada delicada, diante da incerteza sobre quais medidas o Japão estaria disposto a tomar imediatamente para ajudar a aliviar as consequências econômicas e de segurança do conflito, que é profundamente impopular no país. Entrar em uma guerra é juridicamente questionável à luz da Constituição japonesa.
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“Eles estão realmente entrando em campo”, ao contrário dos aliados da Otan, disse Trump na quinta-feira, na Casa Branca, ao lado de Takaichi. “Temos tido um apoio e um relacionamento extraordinários com o Japão em tudo.”
Ainda assim, o clima desconfortável ficou evidente quando um repórter perguntou por que os EUA não haviam informado Japão e aliados europeus com antecedência sobre o ataque de Trump ao Irã.
“Quem entende mais de surpresa do que o Japão?”, respondeu Trump, virando-se para Takaichi com uma risada. “Por que vocês não me contaram sobre Pearl Harbor?”
Takaichi não tratou a frase como piada: contraiu os lábios e lançou olhares a assessores sentados ao lado, no Salão Oval. A fala chamou atenção tanto por evocar o ataque japonês da Segunda Guerra Mundial contra os EUA quanto por reforçar a postura displicente de Trump em relação a informar aliados sobre grandes operações militares.
O episódio foi o mais recente caso em que um líder estrangeiro é colocado em posição constrangedora em uma reunião na Casa Branca com Trump, que tem usado essas ocasiões para extrair concessões ou criticar políticas consideradas contrárias aos interesses dos EUA.
“Não precisamos de nada do Japão ou de qualquer outro, mas acho apropriado que eles façam a sua parte”, disse Trump.
“Eu espero que o Japão faça a sua parte porque temos esse tipo de relacionamento”, acrescentou, lembrando que cerca de 45 mil soldados americanos estão baseados no país. “Gastamos muito dinheiro com o Japão.”
Importações de petróleo
Em coletiva após o encontro com Trump, Takaichi disse a jornalistas que explicou ao presidente americano os limites legais da participação do Japão na segurança do Estreito de Ormuz. Ao mesmo tempo, destacou pontos de convergência, incluindo uma promessa de importar mais petróleo dos EUA e cooperar no desenvolvimento de mísseis.
O Japão vem tentando usar seus laços diplomáticos com o Irã para influenciar os acontecimentos. Na terça-feira, o chanceler japonês telefonou ao ministro das Relações Exteriores iraniano e condenou os ataques da República Islâmica na região do Golfo, segundo o ministério.
Durante o evento público com Trump, Takaichi manteve-se majoritariamente séria e reiterou o apoio à relação com os EUA, agradecendo o “compromisso inabalável” com a aliança entre os dois países.
Ela afirmou ter levado aos EUA propostas concretas para ajudar a acalmar o mercado de energia, mesmo prevendo mais pressão sobre a economia global. Condenou os ataques do Irã em países vizinhos e o fechamento de fato do Estreito de Ormuz.
Takaichi acrescentou ainda que o Irã jamais poderá ter armas nucleares — ecoando o principal argumento usado por Trump para iniciar a guerra, em 28 de fevereiro.
Aliada próxima de Trump, Takaichi é uma defensora vocal da aliança entre EUA e Japão. Mas precisa equilibrar a forte rejeição à guerra na opinião pública doméstica e as rígidas restrições legais internas ao uso das Forças de Autodefesa no exterior.
Trump voltou a criticar aliados na terça-feira, atacando especialmente a Otan e citando Japão, Austrália e Coreia do Sul, ao dizer que os EUA já não precisam de ajuda deles no conflito com o Irã, que, segundo ele, tem mostrado “tanto Sucesso Militar”.
“NÃO PRECISAMOS DA AJUDA DE NINGUÉM!”, escreveu em uma rede social.
Depois dessa mensagem, Takaichi disse esperar uma reunião “extremamente difícil” com Trump. Ela já havia sinalizado que o Japão poderia ajudar após um cessar-fogo, enviando navios caça-minas ou adotando outras medidas.
O Japão é particularmente vulnerável à disparada dos preços de energia, que ameaça elevar o custo de vida da população. O país importa mais de 90% do petróleo bruto que consome do Oriente Médio.
O encontro entre Trump e Takaichi é visto pelos japoneses como uma oportunidade para reafirmar a força da relação bilateral. Trump tem elogiado repetidamente a primeira-ministra, que venceu as eleições de fevereiro com ampla margem, e disse na quinta-feira que ela vem fazendo um “ótimo trabalho”. Os EUA apoiam seus planos de reforçar o poder militar japonês para contrabalançar a crescente influência da China.
Acordos de energia
A visita à Casa Branca também é uma chance de aprofundar laços econômicos. Um dos principais temas são projetos a serem financiados por um fundo de investimentos de US$ 550 bilhões criado no ano passado como parte de uma trégua tarifária entre EUA e Japão.
Os dois países fecharam um acordo para que a GE Vernova Inc. e a Hitachi Ltd. construam pequenos reatores nucleares modulares no Tennessee e no Alabama, ao custo de até US$ 40 bilhões, segundo documentos do ministério das Relações Exteriores do Japão. EUA e Japão também concordaram em um projeto de usinas de geração a gás natural na Pensilvânia, avaliado em até US$ 17 bilhões, e em instalações semelhantes no Texas, de cerca de US$ 16 bilhões.
No mês passado, o Japão anunciou um pacote de US$ 36 bilhões em investimentos em um terminal de exportação de petróleo dos EUA, uma usina termelétrica a gás e uma fábrica de diamantes sintéticos. Os dois líderes também devem tratar de energia, cadeias de suprimento, segurança regional e cooperação em ciência, tecnologia e defesa.
A China também é um fator de peso na visita de Takaichi. Trump afirmou na quinta-feira que sua viagem a Pequim, prevista inicialmente para o fim do mês, foi adiada por “cerca de um mês e meio” para que ele permaneça em Washington focado na guerra.
Trump disse que pretende elogiar o Japão nas conversas com o presidente chinês, Xi Jinping. Tóquio depende do poder militar americano, sob um tratado de segurança mútua, para dissuadir China e Coreia do Norte.
As tensões entre Japão e China aumentaram nas últimas semanas depois que Takaichi sugeriu que Tóquio poderia vir em auxílio de Taiwan — democracia autogovernada que Pequim reivindica como parte de seu território — em caso de conflito. A resposta chinesa incluiu alertas de viagem e restrições de exportação direcionadas ao Japão.
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