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Tudo sobre o Caso Marielle em 15 pontos; julgamento dos mandantes começa nesta terça

por SampaNews 23 de fevereiro de 2026
23 de fevereiro de 2026
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Marielle Franco foi assassinada em março de 2018, no Rio de Janeiro (Agência Brasil)

Marielle Franco, de 38 anos, e Anderson Gomes, de 39, foram assassinados na noite de 14 de março de 2018, no Estácio, região central do Rio. Em seu primeiro ano legislativo como vereadora do PSOL, Marielle — mulher preta, cria da favela e bissexual — foi o alvo dos criminosos. O crime repercutiu no Brasil e no mundo. Conheça os 15 principais pontos desse caso, que terá, na terça-feira, o julgamento dos réus apontados como os mandantes:

  • 1 – Como foi o crime contra Marielle e Anderson
  • 2 – Investigação tenta pôr a culpa em vereador e miliciano pelo crime
  • 3 – Investigações sobre grilagem de terras pela milícia da Zona Sudoeste
  • 4 – Descoberta do Escritório do Crime
  • 5- Prisão dos executores de Marielle e Anderson
  • 6 – Em busca dos mandantes do crime
  • 7 – Armas de Lessa jogadas no Quebra-Mar
  • 8 – Tentativa de federalização do Caso Marielle e Anderson
  • 9 – Quebra de dados telemáticos
  • 10 – Lessa deixa um rastro crucial para vinculá-lo ao crime
  • 11- Polícia Federal entra no caso para investigar mandantes
  • 12 – Delação premiada de Élcio e Lessa
  • 13 – Prisão dos irmãos Brazão
  • 14- Condenação pelo Tribunal do Júri de Lessa e Élcio
  • 15 – STF torna os cinco réus pelo mando e homicídio de Marielle e Anderson

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1 – Como foi o crime contra Marielle e Anderson

A vereadora havia acabado de sair de uma reunião na Casa das Pretas, no Centro, onde participou de um debate sobre o empoderamento de mulheres negras, uma de suas principais pautas, quando sofreu uma emboscada. Um Cobalt prata emparelhou com o Ágile dirigido por Anderson, em que estavam Marielle e sua assessora, Fernanda Chaves. O atirador, armado com uma submetralhadora MP5 equipada com supressor de ruído, disparou e matou a vereadora e o motorista. Marielle foi atingida por quatro tiros, sendo três na cabeça e um no pescoço. Anderson levou três tiros nas costas. Fernanda sobreviveu, sendo atingida por estilhaços.

Naquele momento, o Rio de Janeiro vivia sob intervenção federal, com mudanças na cúpula da segurança pública. A Delegacia de Homicídios da Capital não conseguiu localizar as principais testemunhas. A arma usada no crime e o carro da emboscada jamais foram encontrados, e nem mesmo a rota de fuga foi descoberta inicialmente.

2 – Investigação tenta pôr a culpa em vereador e miliciano pelo crime

A investigação enfrentou tentativas explícitas de obstrução. Três delegados da Polícia Federal levaram uma falsa testemunha até a Delegacia de Homicídios da Capital, onde foi elaborado um relato que atribuía o homicídio da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes ao miliciano Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando da Curicica — que já estava preso antes do crime —, e ao vereador Marcello Siciliano. Ambos negaram veementemente qualquer participação.

A farsa foi descoberta pela própria Polícia Federal e ficou conhecida como a “investigação da investigação”. O suposto delator era o então policial militar Rodrigo Ferreira, o Ferreirinha. Apresentando-se como testemunha-chave, ele inventou toda a história: dizia que Orlando estaria por trás do atentado e que Siciliano seria o mandante. Mais tarde, ficou comprovado que o objetivo de Ferreirinha era tomar os pontos da milícia de Orlando, manipulando o caso em benefício próprio.

3 – Investigações sobre grilagem de terras pela milícia da Zona Sudoeste

Foi a partir de reportagens do GLOBO que surgiu a linha de investigação sobre a possibilidade de o crime ter sido motivado por disputas de grilagem de terras controladas por milícias na região das Vargens Pequena e Grande, na Zona Sudoeste do Rio. Embora a regularização fundiária não fosse a principal bandeira de Marielle, o mandato — ou mandata, como a vereadora preferia chamar — mantinha assessores na área para orientar moradores em reuniões com a Defensoria Pública, o Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro (Iterj) e lideranças comunitárias. Essa presença constante acabou incomodando milicianos que atuavam na região.

4 – Descoberta do Escritório do Crime

Outra revelação feita pelo GLOBO foi a existência do grupo de matadores de aluguel conhecido como Escritório do Crime. O chefe dos sicários era o ex-capitão do Bope Adriano Mendonça da Nóbrega, acionado para executar mortes encomendadas por políticos e bicheiros.

O Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MPRJ) passou a investigar a quadrilha e reuniu provas de que Adriano continuava sendo o chefe da milícia de Rio das Pedras e da Muzema. Em 22 de janeiro de 2019, o Gaeco deflagrou a primeira grande ofensiva contra o ex-militar e seus cúmplices: a Operação Intocáveis. O nome fazia jus à fama de Adriano, que, mesmo sob suspeitas reiteradas, conseguia escapar da Justiça enquanto seguia comandando crimes na Zona Oeste.

5- Prisão dos executores de Marielle e Anderson

Parecia um crime perfeito, sem deixar rastros. A investigação só avançou em setembro, com a entrada das promotoras Simone Sibilio e Letícia Emile, do Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MP-RJ). Foi a partir daí que os investigadores chegaram ao então policial militar Ronnie Lessa, apontado como o executor, e ao ex-PM Élcio de Queiroz, identificado como motorista do Cobalt usado no atentado.

Quase um ano após o assassinato, em 12 de março de 2019, a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) e o Gaeco prenderam os dois acusados, rompendo o silêncio que cercava o crime.

6 – Em busca dos mandantes do crime

Com a mudança de governo do estado, em 2019, houve também troca no comando da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC): saiu o delegado Giniton Lages, entrou Daniel Rosa. Com os executores já presos, a pressão pela identificação dos mandantes diminuiu.

Nesse contexto, ganhou repercussão o depoimento de um porteiro do condomínio Vivendas da Barra, que afirmou que Élcio de Queiroz teria pedido para ir até a casa do então presidente Jair Bolsonaro. Após análise técnica da gravação da portaria, peritos da Polícia Civil concluíram que, na verdade, Élcio procurava o imóvel de Ronnie Lessa, que também morava no condomínio. A DHC informou que houve um equívoco no registro.

A partir daí, as investigações perderam ritmo e passaram a caminhar de forma mais lenta.

7 – Armas de Lessa jogadas no Quebra-Mar

Logo após a prisão de Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) concentrou esforços em localizar a submetralhadora HK MP5, usada na execução de Marielle Franco e Anderson Gomes. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão em imóveis ligados ao atirador, que também passou a responder por tráfico de armas.

Em um apartamento em Jacarepaguá, utilizado por Lessa, nada foi encontrado. Porém, câmeras de segurança do condomínio revelaram que o armamento havia sido retirado do local por Márcio Mantovano, o Márcio Gordo, amigo do ex-PM. Segundo as investigações, a ordem partiu de Elaine Lessa, mulher do atirador, para eliminar os rastros. Além de Márcio e Elaine, participaram do descarte o irmão dela, Bruno Figueiredo; Josinaldo Lucas Freitas, o Djaca; e o bombeiro Maxwell Simões, melhor amigo de Lessa. Márcio teria providenciado um barco para lançar as armas no mar, na região do Quebra-Mar, na Barra da Tijuca. A operação ganhou o nome de Submersus.

O Gaeco chegou a acionar a Marinha, que utilizou sonar para tentar localizar o material. Embora as imagens tenham identificado estruturas compatíveis com metais no fundo do mar, a retirada não foi possível devido à turbidez da água.

8 – Tentativa de federalização do Caso Marielle e Anderson

Em maio de 2020, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou o pedido de federalização das investigações do Caso Marielle e Anderson, apresentado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e voltado à apuração da autoria intelectual do duplo homicídio. A decisão foi unânime na Terceira Seção do STJ.

À época, a relatora do incidente de deslocamento de competência (IDC), ministra Laurita Vaz, reconheceu a complexidade do caso e destacou o alto grau de profissionalismo na execução do crime. Em seu voto, ressaltou: “não há sombra de descaso, desinteresse, desídia ou falta de condições pessoais ou materiais das instituições estaduais encarregadas de investigar, processar e punir os eventuais responsáveis pela grave violação a direitos humanos”.

Com a decisão, as investigações permaneceram sob responsabilidade da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) e da Força-Tarefa Marielle e Anderson, criada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, com o apoio dos familiares das vítimas.

9 – Quebra de dados telemáticos

O Caso Marielle e Anderson representou um marco na forma de investigar crimes no Brasil. Criminosos como Ronnie Lessa, que já havia atuado como adido — emprestado da PM para delegacias da Polícia Civil —, conheciam de perto os métodos policiais e, por isso, tomavam cuidados minuciosos para não deixar rastros.

Mesmo assim, pela primeira vez no país, a Justiça autorizou a quebra de sigilo para identificar usuários que realizaram buscas por palavras-chave na internet, em ferramentas como o Google, a pedido do Gaeco. A empresa recorreu, alegando violação da privacidade dos usuários. Mas prevaleceu a decisão final do Supremo Tribunal Federal (STF), que considerou a medida legítima diante da gravidade do crime — um duplo homicídio com repercussão internacional.

10 – Lessa deixa um rastro crucial para vinculá-lo ao crime

O maior erro de Ronnie Lessa estava bem diante dele, sobre a própria escrivaninha, em casa, ao lado da carteirinha da Scuderie Le Cocq: uma anotação com o e-mail de um ex-PM já morto e a senha de acesso ao CCFácil, um site de buscas.

A descoberta feita pela Força-Tarefa Marielle e Anderson, do Ministério Público do Rio (MPRJ), foi decisiva. A partir do ofício enviado ao site, os investigadores confirmaram que Lessa havia utilizado aquelas credenciais para pesquisar informações sobre Marielle Franco e sua filha, Luyara.

Embora a prova tenha sido obtida em 2023 com o objetivo de ser usada no júri de Lessa no ano seguinte, ela acabou tendo um efeito imediato: serviu como peça-chave para convencer Élcio de Queiroz a delatar o parceiro e detalhar o papel de cada um no crime.

11- Polícia Federal entra no caso para investigar mandantes

Para ampliar a colaboração federal, em fevereiro de 2023, o então ministro da Justiça Flávio Dino determinou a abertura de um inquérito da Polícia Federal, em acordo com o governo do estado. Já haviam se passado cinco anos de investigações conduzidas por cinco delegados da Polícia Civil, sem que fosse possível reunir provas consistentes contra a organização criminosa responsável pelo assassinato da vereadora do PSOL Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Não se tratava de uma federalização, mas de uma cooperação federal. No entanto, o caso ficou com a PF, MPRJ e PGR.

A nova frente ficou a cargo do delegado federal Guilhermo Catramby, que mergulhou em mais de 30 volumes do processo em busca de pontas soltas. O avanço veio com a prova obtida por meio do CCFácil, ferramenta de rastreamento de comunicações, que permitiu convencer Élcio de Queiroz a firmar acordo de delação.

Ele não apenas confessou que dirigia o carro usado por Ronnie Lessa na emboscada, como também esclareceu pontos obscuros: a rota da fuga, o desmanche do Cobalt e outros detalhes cruciais da execução. Sem margem para negar, Lessa acabou forçado a contar tudo o que sabia.

12 – Delação premiada de Élcio e Lessa

Élcio de Queiroz e Ronnie Lessa firmaram acordos de colaboração premiada com a Polícia Federal, o Ministério Público do Rio e a Procuradoria-Geral da República (PGR). O motorista da emboscada iniciou as tratativas em julho de 2023. Já Lessa, diante das evidências e sem espaço para negar sua participação na execução de Marielle Franco e Anderson Gomes, assinou a delação em março do ano seguinte.

No acordo, Lessa acusou como mandantes os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão — conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ) e o então deputado federal, respectivamente —, além do ex-chefe da Polícia Civil, Rivaldo Barbosa. Segundo ele, Rivaldo teria sido o mentor intelectual, responsável por arquitetar o crime e, depois, interferir para embaralhar as investigações. Lessa conta que receberia como pagamento pelo assassinato de Marielle, uma área da Zona Oeste, que seria loteada, para exploração de serviços oferecidos pela milícia, como gatonet, TV a cabo, gás e outros.

O ex-PM também citou o major Ronald Paulo Alves Pereira, encarregado de monitorar Marielle, e Robson Calixto da Fonseca, o Peixe, como fornecedor da submetralhadora HK MP5 usada no atentado. Mas é justamente nesse ponto que as versões entram em choque: enquanto a delação afirma que a arma foi entregue por Peixe, a Operação Submersus, conduzida anos antes, havia reunido indícios de que o armamento — inclusive a submetralhadora do crime — teria sido lançado ao mar na tentativa de eliminar provas.

13 – Prisão dos irmãos Brazão

Em 24 de abril de 2023, a Polícia Federal deflagrou a Operação Murder Inc., que marcou a virada nas investigações do Caso Marielle e Anderson. Naquele domingo — uma data incomum para a realização de prisões — foram detidos Domingos Brazão, Chiquinho Brazão e o ex-chefe da Polícia Civil, Rivaldo Barbosa. Os nomes dos irmãos Brazão já circulavam na imprensa, mas a prisão de Rivaldo caiu como uma bomba: o delegado que havia conduzido os primeiros passos da apuração agora aparecia como um dos acusados de planejar o crime e de atrapalhar seu esclarecimento.

Quase duas semanas depois, vieram novas prisões: o major Ronald Paulo Alves Pereira e Robson Calixto da Fonseca, o Peixe, ex-assessor de Domingos na Assembleia Legislativa. Com isso, a investigação rompeu um ciclo de incertezas e expôs, pela primeira vez, a rede de poder e de proteção que teria sustentado a execução da vereadora e de seu motorista.

14- Condenação pelo Tribunal do Júri de Lessa e Élcio

O Conselho de Sentença do 4º Tribunal do Júri do Rio de Janeiro pôs fim a mais de seis anos de espera no dia 31 de outubro do ano passado. Os ex-policiais militares Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz foram condenados pelos assassinatos de Marielle e Anderson. O primeiro, assassino confesso, recebeu a pena de 78 anos e 9 meses de prisão, enquanto Élcio foi sentenciado a 59 anos e 8 meses.

A leitura da sentença foi marcada pela emoção: familiares e amigos das vítimas, muitos em lágrimas, aplaudiram a decisão. Mais do que um veredito, o julgamento simbolizou um marco contra a impunidade e a favor da memória de Marielle e Anderson.

15 – STF torna os cinco réus pelo mando e homicídio de Marielle e Anderson

Como Chiquinho Brazão era deputado federal à época dos fatos, o processo foi remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF), em razão do foro privilegiado. O caso ficou sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, que recebeu a denúncia e tornou Chiquinho, Domingos, Rivaldo, Ronald e Robson réus.

Em meados de 2024, foram ouvidas as testemunhas de acusação e defesa, além dos interrogatórios dos réus. Atualmente, todos permanecem custodiados em presídios federais espalhados pelo país.

Com a entrega das alegações finais pela Procuradoria-Geral da República e pelas defesas, o processo entrou em sua fase derradeira. A responsabilidade pelo crime será julgada pela 1ª Turma do STF, composta pelos ministros Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Cármen Lúcia e Flávio Dino.

O julgamento está marcado para esta terça-feira — um desfecho aguardado não apenas pelas famílias de Marielle e Anderson, mas por toda a sociedade, que acompanha o caso desde 2018 como símbolo da luta por justiça e contra a impunidade.

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