
Enquanto caças dos Estados Unidos e de Israel bombardeavam Teerã e outras cidades iranianas neste sábado (28), em pleno dia útil no país, muitos moradores relatam que o governo quase não deu orientação sobre o que fazer ou para onde correr em busca de segurança.
Pessoas que tentavam deixar suas casas tinham poucos abrigos como opção. Pais que ligaram e correram para as escolas para buscar os filhos disseram que nem diretores nem professores haviam recebido instruções de emergência. Em entrevistas por telefone e mensagem nas horas seguintes ao ataque coordenado de EUA e Israel, diversos iranianos afirmaram que foram deixados à própria sorte. Levou horas até que o governo divulgasse um comunicado, focado em condenar os inimigos e com pouca informação prática para a população.
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A TV estatal também deu pouca orientação de segurança. Em vez disso, exibiu canções revolucionárias e músicas de guerra dos tempos do conflito Irã-Iraque, nos anos 1980, além de mensagens de ataque aos Estados Unidos e a Israel. O Conselho Supremo de Segurança Nacional informou que escolas e universidades ficariam fechadas até novo aviso, que os bancos seguiriam abertos e que órgãos públicos passariam a operar com 50% da capacidade. No comunicado, o conselho afirmou ainda que o Irã “já havia preparado antecipadamente todas as necessidades da sociedade e não há motivo para preocupação”.
Na prática, o clima nas ruas foi bem diferente. Por volta do meio-dia, muitos moradores de Teerã, cidade com cerca de 15 milhões de habitantes, tentavam sair de carro. As principais vias de saída estavam completamente congestionadas, segundo relatos. Quem ficou formou longas filas em padarias e postos de gasolina. Gelareh, de 36 anos, conta que tentava fugir com o marido e a família para o norte, em direção ao Mar Cáspio. “Arrumamos as coisas às pressas quando os ataques começaram e saímos correndo de casa, mas pegamos um trânsito sufocante”, disse, pedindo para não ter o sobrenome divulgado por medo de retaliação.
As comunicações também foram duramente afetadas, com linhas fixas fora do ar em boa parte da cidade e a maior parte dos serviços de celular sem funcionar. A NetBlocks, organização que monitora conexões de internet no mundo, informou que o acesso foi severamente prejudicado em todo o país. Muitos iranianos dizem que a sensação de abandono começou ainda antes dos ataques. Nos dias anteriores, a população lotou postos para consumir toda a cota de gasolina subsidiada, fez filas em bancos para sacar dinheiro — muitas vezes sem sucesso — e passou a compartilhar, por conta própria, infográficos caseiros sobre como agir em bombardeios e o que juntar em kits de emergência.
“Estamos vivendo hora a hora, sem desgrudar da TV e do celular”, relatou Roya, tradutora de 62 anos. “O povo iraniano está completamente sozinho. Somos nós ajudando uns aos outros. O governo não aparece.” A apreensão aumentou na sexta-feira, quando alguns países europeus e asiáticos, incluindo a China, pediram que seus cidadãos e iranianos com dupla nacionalidade deixassem o país, e companhias aéreas começaram a cancelar voos para Teerã. O prefeito da capital, Alireza Zakani, chegou a dizer que estações de metrô e estacionamentos subterrâneos poderiam servir de abrigo, mas não houve preparo de estrutura mínima, como banheiros químicos, ventilação ou aquecimento. Depois da guerra de 12 dias em junho, quando forças dos EUA e de Israel atacaram instalações nucleares iranianas, a prefeitura instalou alto-falantes pela cidade para sirenes de emergência.
Por enquanto, não há relatos de falta de comida, mas a inflação perto de 60% já tinha tornado itens básicos, como carne, frango, ovos e laticínios, inacessíveis para grande parte da classe média e dos trabalhadores. Em uma postagem nas redes sociais, um supermercado anunciou que passaria a aceitar pagamento parcelado até para a compra de legumes e fraldas. Nas redes, listas com dicas de “o que estocar” e “como sobreviver a cortes de luz e água” se espalharam rapidamente à medida que a ameaça de ataque crescia — de sugestões sobre o que pôr na “mochila de emergência” deixada ao lado da porta a orientações sobre higiene em condições precárias.
Esse novo clima de urgência se soma a um trauma recente. Em janeiro, o governo promoveu uma repressão violenta a protestos contra as autoridades e a crise econômica. Grupos de direitos humanos estimam que ao menos 7.000 pessoas foram mortas em três dias, número que poderia ser bem maior. Mesmo assim, novas manifestações começaram em 21 de fevereiro, com estudantes universitários em várias cidades pedindo a queda do governo. Os protestos se espalharam para uma dúzia de grandes centros urbanos, com palavras de ordem diretamente contra o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, como “Khamenei é assassino”.
c.2026 The New York Times Company
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