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Análise: Sem ameaça imediata, Trump aposta em empurrar governo do Irã para o abismo

por SampaNews 28 de fevereiro de 2026
28 de fevereiro de 2026
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WASHINGTON — Com o amplo ataque ao Irã no início da madrugada deste sábado (28) e o apelo para que o povo iraniano derrube seu próprio governo, o presidente Donald Trump embarcou na “guerra de escolha” por excelência.

Ele não foi empurrado por uma ameaça imediata. Não havia corrida para a bomba. O Irã está hoje mais longe da capacidade de construir uma arma nuclear do que esteve nos últimos anos, em grande parte graças ao sucesso do ataque anterior do presidente a instalações de enriquecimento nuclear iranianas, em junho.

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Embora Trump tenha alegado que Teerã, em última instância, pretendia alcançar os Estados Unidos com seu arsenal de mísseis, até a própria Agência de Inteligência de Defesa (DIA, na sigla em inglês) concluiu, no ano passado, que levaria uma década até que o Irã superasse os obstáculos tecnológicos e de produção para montar um arsenal significativo.

Também não havia indícios de um ataque iminente do Irã aos Estados Unidos, a seus aliados ou a bases americanas na região. Em vez disso, Trump atingiu a República Islâmica em grande medida porque aparentemente percebeu um momento raro de fraqueza do governo — e uma oportunidade para que os EUA derrubassem o aiatolá Ali Khamenei e a Guarda Revolucionária após 47 anos de confrontos esporádicos, que ele descreveu longamente em um vídeo de oito minutos.

Mas, ao contrário de presidentes anteriores que colocaram tropas americanas em risco — e, na era do terrorismo e dos ataques cibernéticos, possivelmente civis também —, Trump não passou meses construindo um motivo para a guerra. Ele nunca apresentou evidências de uma ameaça iminente nem explicou por que um programa nuclear que dizia ter “obliterado” oito meses antes estaria agora à beira de ressurgir.

Seu vídeo gravado, divulgado no meio da noite, quando os mísseis começaram a explodir em Teerã, apresentou uma lista de queixas antigas contra o Irã, incluindo o uso brutal do terror. Mas ele não respondeu à pergunta sobre por que, no conjunto de ameaças que os EUA enfrentam — que inclui uma Coreia do Norte já armada com armas nucleares e arsenais em expansão combinados a ambições territoriais de Rússia e China —, um Irã enfraquecido teria se tornado o alvo número um.

Ao escolher este momento e esta forma de ataque, um presidente que chegou ao cargo prometendo pôr fim a intervenções militares temerárias — e guerras voltadas a promover mudança de regime — assume um risco enorme. Há poucos, se é que há, exemplos históricos de derrubar o governo de um grande país — neste caso, com cerca de 90 milhões de habitantes — apenas com poder aéreo.

Se Trump e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu — que desde dezembro o incentivava a iniciar essa guerra e participou dela desde o primeiro momento — têm um plano para atingir esse objetivo, ainda não o revelaram, nem mesmo aos aliados mais próximos.

Altos funcionários de três desses aliados, da Europa ao Golfo Pérsico, disseram, em entrevistas nos últimos dias, que em suas conversas com assessores de alto escalão de Trump ouviram pouco entusiasmo por esses ataques e nenhuma justificativa jurídica plausível para atacar o Irã agora. Os relatos foram feitos sob condição de anonimato para descrever discussões privadas. Mas essa experiência ajuda a explicar por que o Reino Unido, principal aliado de Washington, proibiu o uso de Diego Garcia e de bases de bombardeiros em seu território para lançamento de aviões de combate e bombardeiros americanos.

“Não é como se o Irã representasse uma ameaça aos nossos interesses diferente da que representa há 47 anos”, disse Richard N. Haass, ex-presidente do Council on Foreign Relations e autor do livro de 2009 “War of Necessity, War of Choice” (“Guerra de Necessidade, Guerra de Escolha”), um estudo sobre os dois conflitos no Iraque, em 1991 e 2003. O primeiro, concluiu ele, tinha objetivos limitados e alcançáveis: libertar o Kuwait após a invasão de Saddam Hussein. Uma vez que o Iraque foi expulso do território kuwaitiano, George H.W. Bush decidiu não derrubar Saddam.

A decisão de Trump no sábado se parece mais com a escolha de George W. Bush de livrar o mundo de Saddam e de seu governo, por conta da ameaça de longa data que representava à paz internacional.

“Assim como na segunda guerra do Iraque, não havia necessidade de atacar o Irã; havia uma oportunidade”, disse Haass. “Trata-se de um ataque preventivo clássico, para impedir o Irã de ganhar uma capacidade no futuro. O que falta é o ‘por que agora?’, já que havia outras opções: acordos diplomáticos sob pressão militar, embargos econômicos, interceptação de navios iranianos.”

No direito internacional, a diferença entre uma guerra de necessidade e uma guerra de escolha é enorme. Um ataque preventivo — quando um país vê uma ofensiva em preparação do outro lado do rio ou do mar e ataca primeiro — é considerado legítimo.

Já um ataque “preventivo” no sentido de antecipar uma ameaça distante, em que uma potência atinge um Estado mais fraco antes que ele de fato represente perigo iminente, é visto como ilegal. Um exemplo seria a decisão da Rússia de invadir a Ucrânia, que os Estados Unidos e boa parte do mundo classificaram como grave violação da ordem internacional.

A resposta de Trump é que ele não precisava de um fato detonador. Ele desfiou mais de quatro décadas de ações mortais do Irã — da crise dos reféns de 1979, que durou 444 dias, a ataques contra bases e navios americanos. “Não vamos tolerar isso por mais tempo”, disse Trump em vídeo publicado em sua conta em rede social. Até mesmo o nome dado pelo Pentágono à missão, Operação Fúria Épica, parece refletir o acúmulo de queixas.

As implicações jurídicas internacionais dificilmente vão influenciar a visão de Trump sobre o ataque. “Eu não preciso de direito internacional”, afirmou a quatro repórteres do The New York Times em entrevista em janeiro. “Não estou querendo machucar pessoas.” Ele acrescentou que, embora ache que seu governo deva respeitar princípios do direito internacional, deixou claro que caberia a ele decidir quando esses princípios se aplicam aos Estados Unidos.

“Depende de qual é a sua definição de direito internacional”, disse.

Também pode depender da definição de “guerra”. Em sua declaração, Trump chamou a ação de guerra, alertando o país para a possibilidade de enfrentar baixas. Mas não fez qualquer esforço para pedir ao Congresso uma autorização para uso da força militar, muito menos uma declaração formal de guerra.

Certamente ele não seria o primeiro presidente a iniciar uma grande operação militar sem aprovação formal do Congresso. Mas, no caso de Trump, ele descartou até a necessidade de buscar esse aval.

Quando historiadores olharem para este momento, provavelmente farão duas perguntas: por que Trump agiu agora e por que o alvo foi o Irã?

No fim, a aventura de Trump — seu sétimo ataque a um país estrangeiro desde que assumiu a Presidência — pode ser julgada à luz de uma velha advertência de Churchill.

Muito antes de se tornar primeiro-ministro britânico em tempos de guerra, Winston Churchill escreveu sobre sua juventude, como jornalista e participante ocasional de conflitos. “Nunca, jamais, jamais acredite que qualquer guerra será fácil e tranquila, ou que alguém que embarca nessa estranha viagem consiga medir as marés e os furacões que encontrará”, escreveu em “Minha Mocidade” (“My Early Life”).

“O estadista que cede à febre da guerra precisa entender que, uma vez dado o sinal, ele deixa de ser o senhor da política para se tornar escravo de eventos imprevisíveis e incontroláveis.”

c.2026 The New York Times Company

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