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“Trump arruma um pretexto para fazer o que quer”, diz ex-economista-chefe do FMI

por SampaNews 10 de março de 2026
10 de março de 2026
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Enredada na disputa entre países que priorizam a transição energética e os que procuram manter a centralidade dos combustíveis fósseis, a economia global padece. Para Maurice Obstfeld, da Universidade da Califórnia em Berkeley e economista-chefe do Fundo Monetário Internacional de 2015 a 2018, essa interpretação, proposta por cientistas políticos, ajuda a entender como o mundo tem caminhado e por que a instabilidade se tornou regra, depois de décadas em que foi exceção.

Um documento em particular tem relevância para o Brasil. A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos de Donald Trump envolve o fortalecimento do petróleo, além da contenção da China e do controle da América Latina, considerada pelo republicano como uma zona de influência exclusiva

Nesse cenário, explica ele, embora os países em desenvolvimento devam enfrentar turbulências, a conjuntura macroeconômica, por enquanto, é positiva.

No caso do Brasil, o maior risco, no momento, é o de interferência americana no processo eleitoral, seja em palavras ou pressão econômica, alerta Obstfeld. Na Argentina, porém, ele avalia que o inédito apoio americano pode abrir portas para uma estabilização há muito esperada.

O cenário global anda instável. Como interpreta a conjuntura, de maneira geral?

Cientistas políticos estão propondo uma leitura interessante, que é pensar a geopolítica em termos de “petroestados” e “eletroestados”: países que baseiam seu modelo econômico e sua geopolítica em combustíveis fósseis e países empenhados em promover fontes de energia limpas. Nessa visão de mundo, a China é um eletroestado, embora queime muito carvão, porque desenvolveu uma enorme indústria de energia limpa. E a promove no mundo todo, inclusive com grandes investimentos na América Latina.

A União Europeia é um eletroestado. A Rússia, os países do Golfo (Pérsico) e agora os Estados Unidos estão focados em petróleo. Parte da razão pela qual os EUA estão sancionando o petróleo russo é para vender mais do petróleo venezuelano confiscado. E parte da estratégia para impedir a entrada da China na América Latina é evitar que ela propague energia limpa.

O que muda no jogo com a decisão da Suprema Corte americana de derrubar as “tarifas recíprocas” e, depois, a resposta de Trump, estabelecendo a taxa global de 15%?

Menos do que se pensa. O presidente (americano) tem outras prerrogativas para impor tarifas. Elas geralmente exigem algum tipo de processo deliberativo, como uma investigação, que ele poderia ordenar de modo meramente formal. Se quiser, pode pedir a um funcionário que elabore um relatório da noite para o dia. Com as tarifas de 15%, ele não pode usar o “me dê o que quero ou pague uma tarifa extorsiva”, mas ele ainda terá margem de manobra.

Não devemos nos surpreender se, ao decidir impor uma tarifa alta a algum país, Trump ordenar uma investigação e encontrar um pretexto. É o que ele faz quando quer perseguir um adversário interno. Essa é a única estratégia dele, tanto nacional como internacional: arrumar um pretexto para fazer o que quer. A Suprema Corte tornou isso um pouco mais difícil, mas longe de ser impossível.

Havia apreensão com a escolha do novo presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), temendo um acólito de Trump. A designação de Kevin Warsh parece ter sido um alívio. Justificado?

Foi um alívio, e com alguma razão. O outro Kevin que estava na disputa era Kevin Hassett, que é bem mais partidário. Warsh foi membro do Conselho de Governadores do Fed, conhece a instituição e não aparece na TV todo dia defendendo os argumentos do presidente, como Hassett. Ele é visto como alguém mais estável e menos propenso a apoiar impulsivamente tudo que Trump quer.

Em 2025, em discurso no Banco Internacional de Compensações (BIS), o senhor disse que os EUA tomaram uma “bifurcação” contra a ordem financeira e monetária internacional. Há caminho para restaurar a ordem?

Não fiquei mais otimista desde então. Pelo contrário, a confiança da comunidade internacional foi ainda mais abalada com as ameaças contra a Groenlândia, a intervenção na Venezuela, interferências em eleições de outros países e o ataque irrefletido ao Irã.

Há ainda a percepção de que os EUA abandonaram o papel de patrocinadores da ordem internacional baseada em regras previsíveis e um conjunto de princípios de governança na economia mundial. Estão se tornando um país sem lei.

A América Latina, em particular, parece ser um alvo.

A Estratégia de Segurança Nacional coloca a América Latina como zona de influência, onde as empresas americanas devem ser favorecidas. Não são bem-vistas iniciativas empresariais vindas de fora do hemisfério, principalmente da China, e há a perspectiva de intervenções mais agressivas em países latino-americanos, desde a ameaça de atacar diretamente os cartéis de drogas no México e na Colômbia até as intervenções verbais em Honduras.

Ele tentou intervir no Brasil com tarifas durante o julgamento de (Jair) Bolsonaro. A intervenção financeira na Argentina foi sem precedentes.

E como navegar os novos tempos? O Brasil, por exemplo?

Um bom sinal é que o ambiente internacional tem sido favorável aos emergentes. As condições financeiras estão flexíveis. A taxa de câmbio do dólar está fraca, o que é sempre bom para os emergentes. Esse é um bom cenário para o Brasil.

De modo geral, o crescimento global está vivo. Temíamos que a guerra comercial prejudicasse o crescimento global mais do que aconteceu de fato, pelo visto. Com isso, a questão se volta para a gestão interna. Agora, nunca se sabe o que Trump vai fazer e… Quando é a eleição presidencial (no Brasil)?

Outubro.

Nossa! Certo… Isso é uma incógnita, porque os EUA certamente intervirão de alguma forma. Pode não ser por meio da política comercial, mas certamente haverá intervenções verbais de Trump para tentar garantir a vitória da direita. Não sei até que ponto isso terá efeitos econômicos negativos.

Mas será muito preocupante se essas intervenções forem acompanhadas por medidas econômicas. Felizmente, a decisão da Suprema Corte reduz um pouco seu arsenal, mas Trump não está desarmado. De forma alguma.

O senhor diz que o governo americano está minando a hegemonia do dólar. E também que os países vão encontrar arranjos para reduzir a dependência da moda americana. Que arranjos seriam esses?

É possível reduzir a dependência do dólar em alguns aspectos. Uma das estratégias é direcionar-se para outros parceiros comerciais e realizar mais transações financeiras em moedas bilaterais. Na Europa, os bancos estão sendo incentivados, na verdade pressionados, a reduzir o financiamento em dólares e aumentar em euros, porque temem que a linha de swap do Fed se torne mais condicional e politizada, sendo usada, por exemplo, como punição no caso da regulação do setor de tecnologia.

Bancos centrais de todo o mundo estão se perguntando como podem se proteger de retaliações e coerção de um país poderoso, governado por um Executivo impulsivo e mal-informado.

Outro assunto que voltou à baila é o temor de que a China comece a despejar seus títulos do Tesouro americano. Há materialidade nisso?

Minha impressão é que a China vem tentando reduzir gradualmente os ativos sujeitos a confisco dos Estados Unidos. Isso significa que ela pode ter títulos do Tesouro sob custódia offshore e pode optar por outros ativos em dólar, se quiser manter dólares, ou euros, ou também o ouro; e a China tem sido uma grande compradora de ouro.

Não me parece plausível uma ostensiva venda de títulos do Tesouro, abrindo uma nova frente de conflito com o governo Trump. Ninguém quer atrair muito a atenção de Trump. Uma grande venda de títulos do Tesouro faria o mercado se voltar contra a China e ela perderia dinheiro.

O senhor escreveu dois artigos sobre a Argentina recentemente, o primeiro bem pessimista, o segundo um pouco menos. O presidente Javier Milei passou na prova?

Eu diria que ele passou em uma prova. Agora pode avançar para a próxima etapa, ao fim da qual há outra prova. O forte resultado nas eleições de outubro foi um impulso enorme. Quando escrevi o primeiro artigo, eu estava cético de que a banda cambial, como existia na época, fosse adequada ao propósito. De fato, assim que as eleições passaram, ele mudou a banda.

Mas o sistema atual também é frágil, pois não tem uma âncora nominal real. Em vez disso, eles poderiam adotar uma meta de inflação. Acho que Milei tem uma chance melhor de sucesso do que (o ex-presidente Mauricio) Macri teve, porque foi fortalecido pelo resultado das eleições e tem o apoio dos Estados Unidos.

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