
O setor de serviços começou o ano aquecido e, ainda que possa mostrar alguma desaceleração ao longo do ano, deve continuar a impulsionar a economia brasileira — alimentado pelo aquecimento do mercado de trabalho e por maiores transferências fiscais ao longo do ano. Segundo economistas, não são esperadas mudanças abruptas em 2026.
Segundo os dados do IBGE divulgados nesta sexta-feira, a receita de serviços cresceu 0,3% em janeiro, devolvendo a queda de 0,2% verificada em dezembro, enquanto a alta no trimestre móvel chegou a 0,4%. E na comparação com janeiro de 2025, o volume cresceu 3,3% em janeiro de 2026, o 22° resultado positivo seguido.
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A alta mensal foi acompanhada por três das cinco atividades investigadas pelo IBGE, com destaque para outros serviços (3,7%), , que recuperaram parte da perda de dezembro (-4,2%). Nessa atividade, Rodrigo Lobo, gerente da PMS, destacou a forte contribuição de agentes de seguros, corretoras de títulos e valores mobiliários e administração de cartões de crédito
O segundo maior impacto positivo veio de informação e comunicação, que cresceu 1,0%, liderado pelo aumento das receitas de serviços de tecnologia da informação e de empresas que atuam com edição, integrada à impressão de livros.
No setor de transportes, que teve variação positiva de 0,4% em janeiro, puxado por atividade de correio, transporte aéreo de passageiros e navegação de cargas.
A única atividade que recuou na passagem de dezembro de 2025 para janeiro de 2026 foram os serviços prestados às famílias (-1,2%), pressionada pela menor receita vinda de restaurantes e de serviços de buffet.
Os serviços profissionais e administrativos ficara estáveis no mês.
Inflação, emprego e renda
De modo geral, Rodolfo Margato, economista da XP, disse acreditar que o setor de serviços permanecerá em trajetória de expansão em 2026, em meio à inflação corrente mais baixa, ao aumento da renda disponível e a um amplo conjunto de medidas de estímulo que devem sustentar a demanda doméstica no curto prazo.
Mesmo no caso dos serviços às famílias, que recuaram em janeiro, o economista espera que aconteça uma retomada nos próximos meses, impulsionados pelo aumento da renda real. “O setor de serviços continuará a impulsionar a economia brasileira. Um mercado de trabalho robusto e medidas de estímulo econômico provavelmente acelerarão a demanda interna em 2026. Projetamos que a receita total do setor de serviços crescerá 3,0% em 2026, após expansão de 2,9% em 2025”, estima Margato.
O XP Tracker para o PIB do 1° trimestre de 2026 aponta para uma alta de 1,0% ante o trimestre anterior e de 1,7% sobre o mesmo período do ano passado. Par o ano cheio, a projeção está mantida em 2,0%. Entre os fatores que sustentam essas projeções, Margato cita que a renda real disponível às famílias deverá aumentar significativamente, sustentada por um mercado de trabalho apertado, maiores transferências fiscais e pelos efeitos da reforma do Imposto de Renda da Pessoa Física.
“Além disso, prevemos forte expansão dos gastos de governos estaduais, aumento do crédito direcionado para empresas — liderado por bancos públicos — e aceleração do crédito consignado para trabalhadores do setor privado. Em nossa avaliação, esses fatores devem mais do que compensar o impacto de taxas de juros ainda restritivas. Como temos argumentado, as medidas de estímulo adicionarão 0,9 p.p. ao crescimento total do PIB este ano”, detalha.
Na opinião de André Valério, economista sênior do Inter, o resultado dos serviços em janeiro apresenta uma compensação do dado negativo de dezembro, de 0,2%. “Ainda assim, vemos a alta concentrada em setores menos cíclicos, como outros serviços e serviços de informação e comunicação. Esse último, altamente influenciado pelos serviços de TI, que avançaram 3,4% em janeiro e tem sido o principal responsável pela robustez do setor de serviços, representando 44% do crescimento observado no acumulado dos últimos 12 meses”, explica.
Por outro lado, ele destaca que os serviços mais cíclicos recuaram no mês, como foi o caso de serviços prestados às famílias, mais sensíveis à demanda, e os serviços profissionais, mais sensíveis às condições de oferta. “Entretanto, o mês de janeiro é tipicamente negativo para os serviços prestados às famílias, uma vez que é um mês que concentra muitos gastos extraordinários que pesam nos orçamentos domiciliares, diminuindo a demanda por consumo discricionário”, pondera.
Dinamismo mantido
Rafael Perez, economista da Suno Research, por sua vez, diz acreditar que o setor de serviços deve permanecer exibindo um forte dinamismo em 2026, mantendo uma desempenho semelhante ao observada ao longo de 2025. “Neste sentido, os principais destaques tendem a vir de segmentos como Informação e Comunicação, Profissional e Administrativo e Transportes, refletindo transformações estruturais importantes da economia”, aposta.
Perez explica que o avanço da digitalização da economia segue ampliando a demanda por serviços empresariais. Já o setor de transportes deve ser beneficiado tanto pelo desempenho do agronegócio neste ano quanto pelo avanço da renda das famílias, fatores que sustentam a circulação de cargas e passageiros.
“Além disso, algumas medidas recentes, em especial a isenção do Imposto de Renda, devem dar fôlego adicional ao consumo ao longo do ano, favorecendo especialmente os serviços prestados às famílias. Logo, a combinação de um mercado de trabalho ainda robusto, expansão da renda e estímulos do governo tende a trazer impulso adicional ao segmento como um todo”, afirma.
Assim, o economista da Suno avalia que o setor de serviços seguirá como um dos principais pilares do crescimento econômico em 2026. “Em linha com esse cenário, projetamos alta de 0,9% do PIB no primeiro trimestre e expansão de 1,8% da economia brasileira no ano.”
A visão de Claudia Moreno, economista do C6 Bank, é similar. “Assim como no ano passado, acreditamos que o setor de serviços deve continuar sólido em 2026, mantendo-se como um dos principais pilares de sustentação da atividade. No nosso cenário, o segmento deve encerrar o ano com expansão próxima a 2%, apoiado por medidas promovidas pelo governo, como os estímulos à concessão de crédito e o aumento de gastos”, prevê.
Ela reforça que os dados da PMS não mudam a visão para a decisão de política monetária da semana que vem. “Seguimos esperando um início gradual do ciclo de cortes nos juros, com uma redução de 0,25 ponto percentual na Selic, para 14,75%. Nossa projeção é de que a taxa chegue a 12,5% ao fim do ano.”
Riscos à frente?
Mas há alguns riscos a serem considerados, diz Matheus Pizzani, economista do PicPay. “Embora os grandes números transmitam uma sensação de estabilidade e resiliência da atividade do setor terciário, a composição qualitativa do dado trouxe alguns indícios que podem gerar preocupações no futuro”, pondera. Ele destaca alguns sinais como as retrações simultâneas dos subgrupos de alojamento e alimentação (-1,1% mensal e, principalmente, Outros serviços prestados às famílias (-6,6%), que surpreenderam negativamente.
“Além de serem setores de grande relevância para o mercado de trabalho, tanto em termos de capacidade de incorporação de mão de obra quanto em função da correlação que possuem com o nível de atividade corrente, o resultado observado hoje, que ocorreu em um período marcado pela sazonalidade positiva em termos de crescimento dos serviços, sugere que o crescimento registrado em janeiro tenha fôlego curto em termos de capacidade de sustentação”, explica.
Mas, apesar dos pontos de preocupação destacados, ele diz que a PMS de janeiro ainda sinaliza uma economia capaz de operar no terreno positivo em termos de crescimento, fator que pode ser atribuído a vetores que vêm sustentando a trajetória de crescimento da economia do país nos últimos trimestres, especialmente o mercado de trabalho.
Para Pizzani, a expectativa é que, passado o período de maior impulso dinâmico por conta dos fatores sazonais, que devem se fazer sentir especialmente na medição de fevereiro, o setor entre em uma trajetória de estabilidade e, no limite, sofra algum declínio a partir do segundo trimestre.
Para Leonardo Costa, economista do ASA, de forma geral, os dados de atividade doméstica até aqui disponíveis surpreenderam marginalmente para cima no início de 2026, sugerindo um ritmo um pouco mais forte que o esperado. Ainda assim, ele diz que o resultado não altera o diagnóstico de desaceleração bastante gradual da economia, em um ambiente de juros elevados. “O setor de serviços continua operando em ritmo moderado, com alguma volatilidade, mas sem mudanças abruptas de tendência, defende
Para o curto prazo, o ASA projeta um PIB mais forte no 1° trimestre, em grande parte por fatores sazonais, sem alterar a leitura de desaceleração ao longo do ano.
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