
Conduzida por um vereador do PT, a celebração do primeiro “Dia da Democracia” de Balneário Camboriú, no último dia 3, encheu a Câmara Municipal com discursos críticos à ditadura militar de 1964 — regime elogiado em outras ocasiões pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que angariou quase 75% dos votos na cidade em 2022. Filho de Bolsonaro, o também vereador Jair Renan, recordista de votação no município em 2024, foi o único a se opor à data comemorativa.
O revés pontual do bolsonarismo nesse episódio foi uma espécie de exceção que, até aqui, confirma a regra em Santa Catarina: nos últimos anos, tropeços do PT e de clãs tradicionais pavimentaram a guinada do estado à direita, da qual Bolsonaro busca se manter como principal beneficiário em 2026.
Desde 2018, sobrenomes tradicionais na política catarinense, como os Bornhausen, os Bauer e os Amin, vêm perdendo espaço para nomes como o governador Jorginho Mello (PL) e o senador Jorge Seif (PL), cujas ascensões ocorreram graças ao apoio de Bolsonaro. Em 2022, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) marcou apenas 30% no estado no segundo turno.
Foi um desempenho similar ao de Fernando Haddad quatro anos antes, e muito distante dos 64% que o mesmo Lula teve entre os catarinenses em 2002.
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Lideranças políticas de Santa Catarina enxergam diferentes motivos para a queda do PT ao longo dos últimos 20 anos, mas convergem na conclusão de que esse derretimento contribuiu para gerar um vácuo preenchido por Bolsonaro.
— Santa Catarina é um estado de pequenas comunidades cujos líderes eram fortes, mas sem dependência de programas sociais. Depois da Lava-Jato, veio uma decepção geral com a política, e Lula personificou isso — explica a deputada Paulinha (Podemos-SC), ex-prefeita de Bombinhas, onde o petista não foi o mais votado nem na “onda Lula” de 2002.
O vereador Eduardo Zanatta (PT), da quase vizinha Balneário Camboriú, completa:
— Isso também parte de erros na própria organização do PT aqui no estado. Estamos nos reconstruindo para recolocar o partido no centro da política nos municípios.
Zanatta, que conseguiu apoio até de vereadores do PL para criar o “Dia da Democracia” na cidade, considera que o PT “se isolou” depois do ótimo desempenho de 2002. Na ocasião, o partido de Lula não quis compor a base do então governador Luiz Henrique da Silveira (MDB), que havia apoiado o petista no segundo turno contra José Serra (PSDB). Na eleição seguinte, Luiz Henrique se aliou a partidos de oposição a Lula, como PSDB e DEM (atual União Brasil), e o desempenho do PT despencou.
Naquele ano, em 2006, o governo Lula apostou na expansão de políticas sociais, em especial o Bolsa Família, para reverter a queda de popularidade do petista devido ao mensalão. Pesquisadores avaliam que se deu ali o enraizamento do PT no eleitorado mais pobre, subvertendo a imagem de um partido associado à classe média urbana.
Em Santa Catarina — estado com a menor proporção de beneficiários do Bolsa Família em todo o país, segundo dados do governo federal —, se deu o cenário inverso. Lula, que até então tinha bons desempenhos contra adversários de direita, sofreu ampla derrota já em 2006, contra o ainda tucano Geraldo Alckmin. E o PT, que vinha emplacando prefeitos em colégios eleitorais relevantes, como Chapecó, Joinville e Blumenau, não conseguiu mais governar as principais cidades catarinenses.
— Candidatos ou mandatários que aumentam impostos e não cuidam da inflação obviamente terão resultado negativo. O PT teve muitos anos no governo federal e o catarinense não viu melhorias — opina o prefeito de Joinville, Adriano Silva (Novo), que será candidato a vice-governador na chapa de Jorginho Mello à reeleição.
Onda de renovação
Ex-diretor do grupo Catarinense Pharma, Adriano representa a quarta geração da família Bornschein que atua na indústria farmacêutica em Joinville. Os pais e avós mantiveram boa relação com vários ex-prefeitos, como o emedebista Luiz Henrique da Silveira, que deixou a cidade para se eleger governador em 2002. A chegada inédita dos Bornschein ao Executivo municipal em 2020, porém, foi um sinal da varredura que atingiu a política tradicional catarinense na última década.
Dois anos antes, o então deputado federal Jorginho Mello havia surpreendido até o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, com uma improvável arrancada que o elegeu ao Senado quase com a mesma votação do veterano Esperidião Amin (PP). Jorginho deixou para trás figuras conhecidas naquela eleição, como o ex-governador Raimundo Colombo, o então senador Paulo Bauer e a ex-senadora petista Ideli Salvatti.
Na ocasião, ele havia sido um dos poucos candidatos a declarar apoio a Bolsonaro, ainda visto como azarão no primeiro turno. A mesma estratégia deu a Jorginho uma vitória confortável na eleição ao governo em 2022, já com Bolsonaro na Presidência.
Para políticos de diferentes matizes, o apoio catarinense a Bolsonaro é um desdobramento “natural” da força de valores conservadores no estado. Uma justificativa recorrente é que a migração de alemães e italianos para Santa Catarina, no século XIX, guarda semelhanças com o tipo de ocupação vista nos Estados Unidos, propícia a uma combinação de apelo religioso com defesa da iniciativa privada. Segundo a deputada Paulinha, em Santa Catarina, “até os progressistas se identificam com Deus, pátria e família”, o lema de Bolsonaro.
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Esta força do bolsonarismo, porém, gera cada vez mais incômodo em veteranos do estado. Bauer e o também ex-senador Jorge Bornhausen (PSD), um dos aliados mais próximos de Gilberto Kassab, têm usado reuniões com empresários para demarcar uma trincheira contra a candidatura de Carlos Bolsonaro (PL) ao Senado neste ano. Outro crítico da bolsonarização catarinense é o prefeito de Camboriú, Leonel Pavan (PSD), que já foi governador, vice e senador, e no ano passado ajudou a eleger a filha, Juliana, como prefeita de Balneário Camboriú.
Com dois mandatos de governador e dois de senador, Esperidião Amin é visto como a principal ameaça à eleição de Carlos — que migrou para o estado na expectativa de uma campanha tranquila, hipótese que se tornou remota.
Na última eleição, porém, Amin terminou a corrida ao governo em baixa, na quinta posição. Além disso, falhou nas tentativas de eleger a mulher, Ângela, e o filho, João, para cargos no Legislativo, o que sinalizou um esgotamento do “familismo” que sempre marcou a política catarinense. Por outro lado, opositores de Carlos apostam que o “familismo” dos Bolsonaro pode, por razões similares, se voltar contra ele.
— A meritocracia sempre foi um dos principais valores do catarinense — resume o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, que apoiará as candidaturas do PL neste ano.
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