
O ciclo de corte de juros no Brasil começou na semana passada, com a redução em 0,25 ponto percentual na taxa Selic, que foi a 14,75%, e deve seguir ao longo deste ano ditado pelo ritmo da cotação dos barris de petróleo, de acordo com a ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta terça-feira (24).
Na leitura de economistas, a ata do Copom reconhece que os dados domésticos estão sob controle, mas coloca toda a incerteza de curto prazo no cenário externo. Caso o conflito no Oriente Médio se prolongue e continue elevando a cotação do Brent, o próximo corte da Selic deverá ser menor do que as condições internas permitiriam.
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O peso do petróleo e a tensão no Oriente Médio
A atenção do mercado se volta para o petróleo porque a alta do barril encarece os combustíveis nas refinarias. Esse repasse chega às bombas e aumenta o custo do frete, gerando um efeito cascata que pressiona a inflação de toda a cadeia produtiva no Brasil. Por isso, a cotação da commodity estará na lupa dos analistas até a próxima reunião do Copom.
Caio Megale, economista-chefe da XP, avalia que, caso a cotação permaneça próxima a US$ 100 até o fim de abril, o Copom poderá optar por um corte de apenas 0,25 p.p., sinalizando um ciclo menor devido aos riscos de contaminação da inflação no médio prazo. “Se chegar ao fim de abril e o petróleo continuar acima de US$ 100, eles vão ter que alterar o balanço de riscos, colocando para cima [o risco de inflação]”, afirma.
Para Claudio Ferraz, economista-chefe da Galapagos, o conflito no Oriente Médio traz uma camada adicional de riscos, mas o que ditará o ritmo do Banco Central é a persistência desse choque. “O que devemos observar nas próximas semanas é como vai se dar o fluxo no Estreito de Ormuz, até que ponto as cadeias de produção e infraestrutura energética serão afetadas. Pode ser que tenhamos uma redução nos preços de energia, mas ela pode ser mais lenta”, avalia.
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Serenidade e balanço de riscos
Apesar da volatilidade externa, o relatório do banco JPMorgan destaca que a ata do Copom reiterou um tom de “serenidade em meio à incerteza contínua”. Na avaliação do banco, isso mantém a direção para novos cortes, embora a magnitude e o ritmo dependam do cenário geopolítico. “A expectativa continua sendo de cortes de 50 pontos-base à frente, mas os efeitos do conflito no Oriente Médio continuam sendo o principal risco para essa visão”, avalia o banco.
Na leitura do Banco Central, o balanço de riscos para a inflação ainda permanece equilibrado. Para o Copom, o risco de alta está na resiliência da inflação de serviços e no cenário externo. Já o risco de baixa, que geraria um efeito desinflacionário, se refere a uma desaceleração da atividade doméstica maior que o esperado e à queda nos preços das commodities, aponta o relatório do Itaú BBA, assinado pelo economista-chefe Mario Mesquita.
A leitura do BC, no entanto, gera ressalvas. “Esse é um ponto de discordância que temos na leitura da ata. Nós achamos que a guerra aumenta o risco para cima da inflação, e não para baixo, mas na visão deles, o conflito intensifica os riscos para os dois lados”, contrapõe Megale, da XP.
‘Barra alta’ para não continuar corte de juro
Ainda assim, a percepção geral é de que a “barra é alta” para o Copom não continuar cortando os juros. Ferraz, da Galapagos, nota que o comitê focou o debate no tamanho do corte, e não na possibilidade de pausá-lo, atribuindo peso às evidências de que a atual política monetária já está sendo transmitida para a atividade e a inflação.
“Se, daqui para a próxima reunião, tiver uma melhora do quadro internacional com redução dos preços de energia, deve entrar na mesa uma aceleração no ritmo de corte”, diz Ferraz.
Melhoria na economia doméstica
Ao olhar para os dados domésticos, o Copom reconhece que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) foi fraco no final do quarto trimestre — um reflexo dos juros altos. Em relação à inflação, a leitura do comitê foi de que ela está desacelerando.
Há, porém, uma perspectiva de maior atividade no primeiro trimestre. Segundo o JPMorgan, isso já era esperado, mas o foco agora será observar como o Copom verá e interpretará esses dados mistos da economia brasileira.
Projeções para a próxima reunião
Com as cartas na mesa, os bancos divergem sobre a velocidade dos próximos passos. A XP projeta cortes de 0,50 p.p. nas próximas reuniões, levando a Selic a 12,75% por volta de setembro, seguido de uma pausa para avaliar o cenário eleitoral e a política fiscal à frente.
O Itaú BBA avalia que a ata é consistente com um corte rápido de 0,50 p.p. já na reunião de abril, o que levaria a taxa básica a 14,25%. A projeção do banco é de uma Selic em 12,25% até o fim do ano.
A Galapagos mantém uma visão mais conservadora. A projeção é de corte de apenas 0,25 p.p. na reunião de abril, chegando a 13% até o fim de 2026.
Calendário para as reuniões do Copom:
- 28 e 29 de abril
- 4 e 5 de maio
- 16 e 17 de junho
- 15 e 16 de setembro
- 3 e 4 de novembro
- 8 e 9 de dezembro
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