
Operadores correm para entender os detalhes do cessar-fogo entre EUA e Irã, que pode desbloquear temporariamente o Estreito de Ormuz e, ao menos em teoria, abrir uma janela de saída para mais de 800 embarcações presas no Golfo Pérsico.
A passagem estratégica está praticamente fechada desde que os ataques americanos e israelenses no fim de fevereiro levaram o Irã a intensificar o controle sobre o estreito, desencadeando uma crise de abastecimento de energia sem precedentes. Na noite de terça-feira, poucas horas antes de vencer o prazo estabelecido pelo presidente Donald Trump, as duas partes firmaram uma trégua em troca da reabertura da passagem.
Os detalhes centrais do acordo, porém, permanecem indefinidos. O Irã afirma ter concordado com duas semanas de passagem segura em coordenação com suas Forças Armadas e dentro de “limitações técnicas”. Trump, por sua vez, anunciou uma “ABERTURA COMPLETA, IMEDIATA E SEGURA”. Em outra publicação nas redes sociais, o presidente disse que os EUA “ajudarão com o congestionamento do tráfego” e ficarão “por perto” para garantir a fluidez da navegação, opções com baixa probabilidade de aceitação por Teerã.
Irã celebra “derrota histórica” dos EUA, e Trump cita “grande dia para paz mundial”
Ambos os lados reivindicaram vitória após cessar-fogo de duas semanas; negociações prosseguem ainda nesta semana
Europa, Ásia e futuros de NY sobem forte e petróleo tomba após cessar-fogo EUA-Irã
Trégua de duas semanas reduz tensões no Oriente Médio e abre caminho para reabertura do Estreito de Ormuz
Armadores na Ásia, no Oriente Médio e na Europa receberam a perspectiva de reabertura com alívio e cautela. Houve poucas mudanças imediatas no tráfego ao redor do estreito na manhã desta quarta-feira. Segundo fontes do setor que preferiram não se identificar, dada a sensibilidade do assunto, empresas acionaram seguradoras e assessores de segurança e colocaram embarcações em estado de alerta.
“O cessar-fogo pode criar oportunidades de trânsito, mas ainda não oferece plena segurança marítima e precisamos entender todas as condições potencialmente associadas ao acordo”, afirmou um porta-voz da A.P. Moller-Maersk, segunda maior operadora de contêineres do mundo, acrescentando que as informações disponíveis ainda são limitadas.
A japonesa Nippon Yusen Kabushiki Kaisha, também uma das maiores empresas de navegação do mundo, informou que acompanha a situação de perto.
Nas últimas seis semanas, o tráfego pela uma das mais movimentadas rotas energéticas do planeta caiu a um fio, em contraste com as cerca de 135 embarcações que transitam diariamente pelo estreito em tempos de paz.
“Não se religam os fluxos globais de navegação em 24 horas”, disse Jennifer Parker, professora adjunta do Instituto de Defesa e Segurança da Universidade da Austrália Ocidental. “Proprietários de petroleiros, seguradoras e tripulações precisam acreditar que o risco de fato diminuiu, não apenas foi pausado.”
Navios de transporte de energia compõem grande parte da frota presa no Golfo, segundo dados da empresa de inteligência Kpler. São atualmente 426 petroleiros transportando petróleo bruto e combustíveis limpos, além de 34 navios de gás liquefeito de petróleo e 19 embarcações de gás natural liquefeito (GNL). O restante carrega commodities sólidas, como produtos agrícolas e metálicos, ou contêineres.
Planos de cessar-fogo são um passo necessário, mas apenas inicial, avaliou Lewis Hart, chefe de seguros marítimos na Ásia da corretora Willis Towers Watson. “Mesmo dentro de uma janela de duas semanas, esperamos que a retomada da atividade ocorra de forma gradual, e não de uma só vez”, disse.
Traders e armadores vão monitorar de perto quais navios começam a se mover em direção ao estreito nos dois sentidos e como serão recebidos. Na manhã desta quarta, mais de 1.000 embarcações aguardam nos dois lados da passagem, em agrupamentos nas proximidades de Dubai e Khor Fakkan, no Golfo de Omã.
“É bom ver o mercado reagindo dessa forma, mas este é o primeiro dia de um cessar-fogo tentativo”, disse Michael Pregent, ex-assessor de inteligência dos EUA, à Bloomberg Television. “É provável que o regime controle quem passa, quanto cobra e a quem nega a passagem.”
Os dois primeiros navios a tentar saída desde o anúncio do acordo pareciam navegar em dupla em direção às ilhas iranianas de Larak e Qeshm na manhã de quarta, segundo dados de rastreamento marítimo. Um deles é o Tour 2, um petroleiro Suezmax sancionado pelos EUA e com bandeira iraniana.
Ao lado do petroleiro navega o NJ Earth, um graneleiro de propriedade grega cujo histórico de navegação dentro do Golfo Pérsico sugere falsificação de posicionamento ou interferência por guerra eletrônica. Não havia dados de contato registrados na base de dados Equasis para seu proprietário, a NJ Earth Marine Ltd., nem para seu gestor, a NJ Trust Marine Ltd.
Outros navios com vínculos com o Irã pareciam se dirigir a Ormuz a partir do interior do Golfo Pérsico. Nenhum foi observado cruzando no sentido inverso.
O trânsito de navios de GNL também será acompanhado com atenção especial. Nenhum carregado conseguiu atravessar o estreito desde o início da guerra, e uma tentativa recente de dois petroleiros terminou em inversão de rota de última hora. Cerca de 20% do tráfego global de GNL passou por Ormuz no ano passado.
Segundo levantamento da Organização Marítima Internacional referente ao fim de março, cerca de 20.000 marinheiros civis estão a bordo de navios retidos no Golfo e de outras embarcações de apoio. A agência da ONU alertou que esses tripulantes enfrentam escassez de suprimentos, fadiga e estresse psicológico.
© 2026 Bloomberg L.P.
The post Ormuz vai mesmo reabrir? Operadores de 800 navios adotam cautela appeared first on InfoMoney.
