
Desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, em 2025, é correto afirmar que poucas vezes na história Estados Unidos e Cuba estiveram tão distantes na política. O bloqueio do envio de petróleo para a ilha caribenha tem cobrado um alto preço à população local e, mais de uma vez, tanto o presidente americano como o secretário de Estado, Marco Rubio, colocaram o governo socialista como próximo alvo para uma intervenção. Mas a realidade da relação bilateral é outra quando avaliados dados econômicos.
Segundo a consultoria AUGE, o setor privado cubano e as empresas em Miami — especialmente as da comunidade cubano-americana — já estão tão profundamente interconectados que os dados de comércio exterior acabam contando uma história diferente. Entre 2021 e 2025, as exportações dos Estados Unidos para Cuba cresceram 148%, passando de US$ 327 milhões para US$ 810,8 milhões, diz estudo da empresa.
A “ponte invisível” entre as nações, portanto, não se dá por meio de grandes acordos bilaterais, mas por outros caminhos, como remessas convertidas em capital e cadeias de suprimento que operam nos espaços entre dois sistemas legais. Enquanto isso, talentos cruzam o Estreito da Flórida sem sair de casa e plataformas digitais conectam oferta e demanda em ambos os lados.
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Esse crescimento , segundo a consultoria, não ocorreu por acaso. Coincide diretamente com a expansão do setor privado cubano, que requer insumos, equipamentos e mercadorias que a produção nacional não consegue suprir.
A AUGE diz que vem captando esse movimento há anos. Em 2022, por exemplo, o relatório “Las 100 MIPYMES” documentou que 16% das micro, pequenas e médias empresas constituídas em tinham entre seus sócios cubanos residentes no exterior, principalmente nos Estados Unidos. “A participação da diáspora no setor privado cubano não é nova: tem pelo menos quatro anos de história documentada, e a reforma de março de 2026 que legaliza o investimento dos cubano-americanos vem formalizar uma realidade que já existia, explica a consultoria em seu blog.
E a nova gestão Trump não bloqueou esse avanço. Em 2025, as exportações destinadas especificamente ao setor privado cubano (MIPYMES) alcançaram US$ 173,6 milhões. Só em veículos, o item de maior dinamismo, foram exportados US$ 149,4 milhões, um crescimento de 122% em relação ao ano anterior.
“Enquanto as exportações norte-americanas cresciam, as importações totais de Cuba se contraíam drasticamente. Entre 2022 e 2025, as compras externas da ilha caíram 37%, afetadas pela crise de divisas e pela redução do comércio com parceiros tradicionais como a Venezuela. Nesse contexto de contração geral, a participação dos Estados Unidos nas importações cubanas se multiplicou. Passou de 3,9% em 2021 para 13,1% estimados em 2025. Ou seja, enquanto o tamanho total do ‘bolo’ diminuiu, o pedaço correspondente aos EUA cresceu significativamente.”
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Um dado surpreendente: em 2024, os Estados Unidos reportaram exportações para Cuba de US$ 585,2 milhões. Cuba, por sua vez, reportou importações dos Estados Unidos de apenas US$ 51,7 milhões, uma diferença de US$ 533,5 milhões.
Essa discrepância, destaca a AUGE, não é um erro estatístico. É a evidência mais contundente da interconexão invisível. Os produtos norte-americanos chegam a Cuba por três vias que a estatística comercial tradicional não captura: reexportações através de terceiros países (Panamá, México, Espanha); doações e envios familiares, que não se classificam como importações comerciais; e abastecimento direto ao setor privado, que opera por canais não formais.
A análise da relação entre ambas as variáveis revela um padrão contraintuitivo: quando as importações totais de Cuba caem, as exportações dos EUA sobem. Entre 2021 e 2025, enquanto Cuba reduziu suas importações totais em 37%, as exportações dos EUA cresceram 148%.
“O comércio bilateral tem operado como um canal anticíclico, resistente à crise de divisas que afetou outros fornecedores. A explicação mais plausível é o ‘efeito MIPYME’: o setor privado cubano, financiado em grande medida por remessas vindas dos EUA, tem demandado produtos específicos — veículos, equipamentos, insumos — que o Estado cubano não importa em quantidades significativas. Isso criou um canal paralelo de importação que não depende das divisas públicas”, explica a consultoria.
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Remessas: a interconexão invisível
As remessas provenientes dos Estados Unidos são um combustível importante da economia cubana: sustentam o consumo familiar e se converteram em um grande motor de investimento do setor privado. Funcionam assim como semente para a criação de novas MIPYMES, como financiamento de capital de giro para negócios em operação e como empréstimos entre familiares e amigos que impulsionam os empreendimentos.
“Além disso, as remessas alimentam o poder de compra dos cubanos residentes na ilha, que, de forma crescente, adquirem seus produtos básicos no setor privado — seja na rede de comércio varejista, seja por meio de plataformas de comércio online — gerando um ciclo que sustenta o ecossistema empresarial cubano.”
Também são citadas como fator-chave nesse ecossistema as agências de remessas e encomendas que operam na Flórida e em outras partes dos Estados Unidos. Muitas dessas empresas são fundadas por cubano-americanos e evoluíram significativamente nos últimos anos.
Elas começaram como simples serviços de envio de dinheiro e pacotes por meio de “mulas”, mas acabaram por se transformar em operações logísticas complexas, que utilizam transporte aéreo e marítimo, oferecendo uma gama cada vez mais ampla de produtos.
As agências mais bem-sucedidas passaram a comercializar desde alimentos até baterias, geradores elétricos, motos e bicicletas elétricas, e são as que reagem mais rápido às mudanças na demanda da ilha. “Além disso, muitas montaram sistemas para realizar compras em plataformas como Amazon, Shein e Temu com entregas garantidas em Cuba. Essas agências se aliaram a MIPYMES locais ou criaram suas próprias empresas na ilha para os serviços de última milha, garantindo que os produtos cheguem ao destinatário final sem contratempos”, destaca a o estudo da AUGE.
O sul da Flórida é considerado o epicentro logístico do comércio entre Estados Unidos e Cuba. Em 2023, a Crowley Maritime, a única empresa de navegação que transporta mercadorias para Cuba a partir dos Estados Unidos, revelou em um encontro com empresários privados em Havana que estava enviando mais de 300 contêineres semanais para Mariel a partir de três portos: Fort Lauderdale, Carolina do Norte e Jacksonville, tanto de 20 quanto de 40 pés.
A consultoria lembra que atrás de cada contêiner há uma cadeia que começa com um fornecedor em Miami ou no sudeste dos EUA, um consolidador que agrupa produtos de múltiplos exportadores, um agente de carga que gerencia a documentação sob licenças da OFAC e um receptor em Cuba — cada vez mais, uma MIPYME — que distribui os produtos na ilha.
Assim, um desenvolvedor de software em Havana pode trabalhar para uma startup de tecnologia em Miami sem pisar em solo norte-americano. Um designer gráfico cubano pode criar branding para uma empresa imobiliária em Orlando. “Todos eles operam por meio de plataformas globais, faturam através de terceiros países ou recebem pagamentos por intermediários. A tecnologia desmaterializou a fronteira”, define a consultoria.
“Starcafé” e “Burger Queen”
Uma curiosidade citada pela AUGE é que, na ausência de presença oficial de grandes cadeias norte-americanas, empreendedores cubanos criaram negócios privados inspirados em marcas icônicas. Starcafé (inspirado no Starbucks), Burger Queen (inspirado no Burger King) e estabelecimentos ao estilo KFC surgiram em Havana desde 2023, evidenciando a demanda latente por marcas globais e a capacidade do empreendedorismo cubano de adaptá-las.
Mas, além dessas adaptações, há marcas norte-americanas com presença real no mercado cubano por meio dos canais de importação. Ecoflow (baterias e geradores portáteis), Colgate (produtos de higiene), Ford, Dodge e General Motors (veículos e autopeças), Coca Cola e Pepsi Cola (bebidas), Pilgrims Pride e Koch Foods (carne de frango), Kellogg’s (cereais e snacks), Goya (alimentos enlatados e processados), Café La Llave (café) e Hershey’s (confeitaria) são apenas algumas das empresas cujos produtos se encontram com regularidade em lojas, restaurantes e lares cubanos, abastecendo tanto o setor privado quanto o consumo familiar.
Para chegar aos consumidores cubanos — dentro e fora da ilha — as empresas com sede na Flórida têm desenvolvido uma sofisticada estratégia de marketing digital que poucos percebem, mas que está presente no dia a dia de milhões de cubanos. As redes sociais de maior presença entre os cubanos — Facebook, Instagram, WhatsApp — se tornaram a principal vitrine dessas empresas.
Essa interconexão econômica foi reforçada por um anúncio histórico do governo cubano fez em março de 2026. O vice-primeiro-ministro Oscar Pérez-Oliva Fraga confirmou que os cubanos residentes no exterior poderão investir diretamente no setor privado da ilha, abrindo três vias concretas: ser sócio de uma micro ou pequena empresa de nova criação, incorporar-se como sócio a uma MIPYME já existente ou participar de modalidades de investimento estrangeiro junto a empresas privadas cubanas.
“Essa mudança não chega no vazio. Chega em meio à pior crise energética que Cuba enfrentou em décadas, com apagões que paralisam a economia. Abrir a porta ao investimento dos cubano-americanos é um reconhecimento de que o país precisa mobilizar todos os recursos disponíveis para enfrentar a tempestade. A diáspora tem capital, experiência internacional, redes e, em muitos casos, o desejo de contribuir”, diz a AUGE
Esse anúncio, embora histórico, enfrenta obstáculos: a lentidão na aprovação de MIPYMES; a desorganização bancária e cambial — agravada pela crise energética; a falta de confiança no marco regulatório; e, sobretudo, o peso das sanções dos EUA, que afetam especialmente os cubano-americanos com cidadania norte-americana. “Para esse perfil de investidor, qualquer operação deve ser analisada com lupa para não violar as regulações da OFAC”, alerta a consultoria.
Expectativas
A consultoria diz que, se as tendências atuais se mantiverem, as exportações norte-americanas para Cuba podem alcançar entre US$ 1,2 bilhão e 1,3 bilhão em 2028, consolidando os EUA como um dos principais fornecedores da ilha. Um cenário otimista, com flexibilização das licenças da OFAC e recuperação econômica cubana, poderia levar essa cifra a US$ 2 bilhões. Um cenário pessimista, com endurecimento das sanções ou retrocessos nas reformas cubanas, poderia contrair o comércio bilateral a níveis de US$ 400–500 milhões anuais.
Os fatores a serem monitorados, segundo a AUGE, são claros: a evolução do marco regulatório em ambos os países, a implementação do investimento da diáspora em Cuba, o fluxo de remessas e a disponibilidade de divisas, além do contexto político bilateral. “Em particular, o impacto da nova lei dependerá de como forem resolvidos os obstáculos estruturais — bancários, regulatórios, de confiança — e de quão rápido se ativarem os mecanismos para conectar oferta e demanda de investimento.”
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