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Rússia aproveita crise em Ormuz e usa acesso a fertilizantes como pressão para apoio

por SampaNews 18 de abril de 2026
18 de abril de 2026
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O bloqueio do Estreito de Ormuz aos navios cargueiros, incialmente praticado pelo Irã e depois pelos Estados Unidos acabou virando um presente para Rússia. Pela estreita rota que liga o Golfo Pérsico ao Mar Arábico passa cerca de um terço dos suprimentos globais de fertilizantes transportados por mar. Com a via praticamente interrompida, o país governado por Vladimir Putin desponta como alternativa natural: é o segundo maior produtor e o maior exportador de fertilizantes do mundo. E esses embarques não passam por Ormuz

Assim, o Kremlin está transformando o acesso a esses suprimentos em arma, na tentativa de angariar apoio — não só no Sul Global, mas também nos EUA e Europa — para garantir a flexibilização das sanções ocidentais.

Leia também: Setor de fertilizantes brasileiro teme impacto da guerra, mas também do PIS/Cofins

O site The Conversation lembra que, entre 2023 e 2025, os países do Golfo, liderados por Irã, Catar e Arábia Saudita, forneceram 36% de todas as exportações globais de ureia, o fertilizante nitrogenado mais utilizado pelo agronegócio global, em gigantes como Brasil, Austrália e Nova Zelândia.

Além do abastecimento dos insumos, os compradores também sofrem com os efeitos do preço mais alto. A ureia é feita a partir de gás natural e, quando os preços do gás sobem – como tem acontecido desde a escalada da guerra – ela também se torna mais cara.

Uma análise do think tank Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR, na sigla em inglês) destaca que as economias em desenvolvimento são particularmente dependentes dos fertilizantes russos. Desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, os países ocidentais vêm impondo restrições às compras de fertilizantes russos, levando Moscou a diversificar suas rotas de exportação em direção ao Sul Global.

Essa estratégia deu resultado, comenta no texto Agathe Demarais, pesquisadora sênior de Políticas Públicas do think tank europeu. Em 2025, destaca o autor, empresas russas forneceram aproximadamente um quarto das importações de fertilizantes de gigantes agrícolas como Brasil e Índia.

Agora, diante do crescente medo de que interrupções em Ormuz possam bloquear embarques de fertilizantes e gerar uma crise alimentar global, o Kremlin percebeu uma nova oportunidade: no fim de março, o vice-secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Alexander Venediktov, declarou que Moscou está pronta para enviar fertilizantes ao Sul Global.

Essa “oferta generosa”, porém, vem com uma condição: Venediktov sugeriu que aqueles que receberem fertilizantes precisariam apoiar o desenvolvimento de agrupamentos liderados pela Rússia, como o BRICS, a Organização de Cooperação de Xangai, de viés defensivo, e a Comunidade de Estados Independentes. “Em outras palavras, Moscou está agora colocando condicionantes em seus embarques de fertilizantes”, alerta Demarais.

Leia também: Como a guerra no Oriente Médio pode semear a fome no mundo

Vacinas de Covid-19

Esse “manual de diplomacia de crise” da Rússia, diz o estudo, não é novidade. Durante a pandemia de covid‑19, Moscou transformou o acesso à sua vacina Sputnik V em “arma”, oferecendo doses a países do Sul Global em troca de acordos econômicos ou alinhamento político. Es

Essa estratégia talvez tenha ficado mais evidente na América Latina. Na Bolívia, por exemplo, Moscou vinculou as entregas de vacinas ao desenvolvimento, pela Gazprom, do campo de gás de Incahuasi e à construção, pela Rosatom, de um centro de pesquisa em tecnologia nuclear.

Poucos meses depois, essa estratégia deu frutos: a Bolívia esteve entre os cinco países latino‑americanos que se abstiveram de condenar a invasão da Ucrânia pela Rússia nas Nações Unidas — os outros quatro foram Cuba, El Salvador, Nicarágua e Venezuela.

O think tank lembra que, na maioria dos países, a diplomacia da vacina da Rússia acabou fracassando. Atrasos nas entregas, falta de transparência sobre os dados clínicos e dúvidas quanto à qualidade de alguns lotes alimentaram uma hesitação generalizada em relação ao imunizante russo, que nunca recebeu aprovação da Organização Mundial da Saúde (OMS).

No entanto, é destacado que as entregas de vacinas nunca foram o fator central. “Para o Kremlin, a diplomacia da vacina foi uma operação de relações públicas. O que importava para Moscou era ser vista como aquela que vinha em socorro do Sul Global em um momento em que as economias ricas eram percebidas como acumulando vacinas. De forma semelhante, o que importa hoje para o Kremlin é afirmar que enviará fertilizantes ao sul global. As entregas efetivas são um detalhe secundário”, compara a autora.

Limitações na política

Um ponto importante é que a Rússia não tem capacidade de aumentar significativamente as exportações de fertilizantes. O oleoduto Togliatti–Odessa, que transporta amônia até terminais de embarque no mar Negro, permanece fora de operação desde 2022 — esse duto atravessa áreas de combate ativo na Ucrânia e sofreu danos extensos.

Além disso, ataques de drones ucranianos frequentemente atingem fábricas de fertilizantes russas, reduzindo ainda mais a capacidade de produção. Apenas uma semana antes de Venediktov fazer sua oferta generosa, o Kremlin impôs limites rígidos às exportações de fertilizantes, na tentativa de evitar escassez interna. Isso evidencia como as ofertas russas de socorrer as economias em desenvolvimento são vazias: na melhor das hipóteses, Moscou pode substituir os suprimentos produzidos no Golfo apenas na margem.

Pressão sobre o Ocidente

A “diplomacia dos fertilizantes” da Rússia não se limita ao Sul Global, diz ainda a análise: ela também mira os Estados Unidos e a Europa. Nesses casos, porém, o objetivo de Moscou é diferente: obter alívio nas sanções econômica. Essa estratégia parece estar dando frutos nos EUA: no fim de março, Washington suspendeu sanções contra três fabricantes bielorrussos de potássio, incluindo a Belaruskali, a segunda maior produtora do mundo. “É difícil imaginar que o timing — em meio ao crescente temor de alta nos preços de fertilizantes e de uma possível crise alimentar — tenha sido mera coincidência”, escreve Demarais.

Mas a União Europeia pode em breve estar sob forte pressão para fazer o mesmo. No fim de março, a agência francesa de segurança alimentar revelou que a população da França absorve altos níveis de cádmio, um metal associado ao câncer e presente em fertilizantes de origem marroquina.

“Esse desenvolvimento serve perfeitamente aos interesses do Kremlin. Sob o pretexto de uma cruzada ambiental, a gigante russa de fertilizantes PhosAgro há muito defende o endurecimento dos limites de cádmio na UE, numa tentativa de incentivar a compra, pelo bloco, de suprimentos com baixo teor de cádmio oriundos da península de Kola, na Rússia.”

Isso deixaria a UE sem uma boa opção, argumenta a autora. Ela comenta que o bloco pode ou flexibilizar as restrições sobre fertilizantes russos — financiando assim a máquina de guerra de Moscou e desmontando o regime de sanções europeu — ou manter a dependência de suprimentos com alto teor de cádmio, alimentando uma crise de saúde pública. “É provável que a Rússia use a França, onde a narrativa de que as sanções prejudicam a Europa é dominante, como ponto de pressão para dividir os europeus”, prevê.

Demarais conclui afirmando que o destino de Ormuz permanece incerto, mas, vista do Kremlin, a diplomacia dos fertilizantes já é um sucesso estrondoso antes mesmo que um único embarque adicional tenha deixado os portos russos.

“Aconteça o que acontecer nas águas iranianas, a ‘diplomacia dos fertilizantes’ da Rússia consolidará a narrativa do Kremlin de que uma guerra liderada pelos EUA está deixando o Sul global faminto e de que a flexibilização das sanções é a única opção viável para as economias ocidentais. Para Moscou, este é um cenário de ouro — quer Ormuz reabra em apenas três dias ou em três anos.”

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