
KIEV, Ucrânia — Por semanas, a Ucrânia ficou em uma espécie de limbo. Uma saída para o fim da guerra parecia cada vez mais distante, à medida que as negociações de paz com a Rússia deixaram de produzir qualquer resultado e acabaram suspensas. Na prática, o país teve de se preparar para lutar por tempo indeterminado, mesmo com um apoio financeiro crucial da União Europeia ainda travado.
Nesta quinta-feira (23), esse impasse começou a se desfazer.
UE libera ajuda à Ucrânia após Hungria retirar veto
O primeiro-ministro nacionalista húngaro em fim de mandato, Viktor Orbán, havia bloqueado o empréstimo como forma de pressão
Depois que a Hungria retirou, na véspera, a objeção a um empréstimo de US$ 106 bilhões da UE para a Ucrânia, os líderes europeus decidiram destravar os recursos.
O dinheiro, que estava bloqueado desde dezembro, vai cobrir boa parte das necessidades financeiras do governo ucraniano nos próximos dois anos. Quando essa verba chegar ao fim, a expectativa é que outros US$ 117 bilhões, vindos do orçamento de longo prazo do bloco, também sejam destinados ao país.
Somados, esses compromissos dão à Ucrânia uma base financeira mais sólida ao menos até 2029, afirma Hlib Vyshlinsky, diretor do Centro de Estratégia Econômica, em Kiev. Segundo ele, a pressão agora se desloca para Moscou, que enfrenta dificuldades crescentes para sustentar o próprio esforço de guerra.
Além do empréstimo, a UE aprovou na quinta-feira o seu 20º pacote de sanções econômicas contra a Rússia.
“Impasse resolvido”, escreveu nas redes sociais Kaja Kallas, chefe da política externa europeia. “A economia de guerra da Rússia está sob pressão cada vez maior, enquanto a Ucrânia ganha um grande reforço.”
O compromisso ampliado da UE com a Ucrânia vem ocupando, em grande medida, o espaço deixado pelos Estados Unidos sob o governo Trump. No ano passado, países europeus responderam por quase todo o apoio militar, financeiro e humanitário a Kiev, enquanto a ajuda americana despencou 99%, segundo o Instituto Kiel para a Economia Mundial, da Alemanha.
Diferentemente de pacotes anteriores de ajuda europeia, o novo empréstimo é fortemente voltado para gastos em defesa. Cerca de US$ 70 bilhões serão destinados às Forças Armadas, dando à Ucrânia uma verba robusta para comprar caros sistemas de defesa antiaérea e ampliar a produção de drones — a principal ferramenta do país hoje para conter avanços por terra das tropas russas.
O empréstimo também dá a Kiev algo que ela quase nunca teve desde o início do conflito: previsibilidade para planejar operações militares de longo prazo. Até aqui, a ajuda internacional chegava em pequenas parcelas e era composta, em grande parte, por doações de equipamentos, e não por dinheiro que pudesse ser direcionado à compra ou à produção das armas consideradas prioritárias.
“É muito importante a Ucrânia garantir esse nível de previsibilidade financeira — depois de mais de quatro anos de guerra em larga escala”, escreveu o presidente Volodymyr Zelensky em uma rede social, nesta quinta-feira.
O foco no financiamento militar traduz o que autoridades europeias e ucranianas já vinham repetindo reservadamente há meses: a Ucrânia precisa se preparar para uma guerra longa, reforçando suas defesas.
A Rússia se recusa a aceitar um cessar-fogo, e o governo Trump, que tem mediado as conversas de paz, não tem pressionado Moscou de forma significativa a fazer concessões.
As negociações estão, por ora, congeladas, enquanto os Estados Unidos se envolvem em mais uma guerra no Oriente Médio. O ministro das Relações Exteriores russo, Sergey Lavrov, já afirmou que retomar o diálogo não é prioridade para Moscou.
Nada disso surpreende os líderes europeus. “A verdade é que, de qualquer forma, a Rússia nunca levou essas conversas a sério”, disse o ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, na semana passada. “Por isso é ainda mais importante apoiar a Ucrânia.”
Zelensky, por sua vez, remodelou o próprio governo com a perspectiva de que o conflito não deve acabar tão cedo. Ele nomeou um novo ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, político ligado ao setor de tecnologia e defensor do uso massivo de drones como peça central da resposta militar ucraniana.
Embora nem Rússia nem Ucrânia tenham hoje um caminho claro para a vitória, Fedorov diz que seu objetivo é tornar a guerra insustentável para Moscou e forçar uma negociação.
“O presidente deu ao Ministério da Defesa uma missão clara: junto com a diplomacia, fortalecer nossa defesa a ponto de obrigarmos o inimigo a aceitar a paz”, afirmou ele, em fevereiro, ao apresentar seu plano.
A estratégia inclui ampliar a capacidade de defesa aérea para proteger o espaço aéreo ucraniano, aumentar ao máximo as perdas russas no campo de batalha e usar armas de longo alcance para atingir a indústria de petróleo do país, uma das principais fontes de receita do Kremlin.
O empréstimo da UE, livre de juros — e que a Ucrânia só precisaria pagar caso a Rússia seja obrigada a pagar reparações de guerra — ajudará a financiar essa estratégia.
Segundo Valdis Dombrovskis, comissário europeu de Economia, o recurso será liberado ao longo dos próximos dois anos, em parcelas iguais. No primeiro ano, cerca de US$ 33 bilhões serão destinados a gastos militares e US$ 20 bilhões a despesas civis. Ele disse ainda que a primeira tranche deve chegar à Ucrânia entre o fim de maio e o início de junho, com parte do dinheiro já prevista para turbinar a produção de drones.
Hoje, segundo Zelensky, a Ucrânia fabrica quase 1.000 drones interceptores por dia — usados para derrubar mísseis e outros armamentos aéreos. Com a nova verba, o país poderia dobrar essa produção e melhorar a proteção do próprio espaço aéreo. “Nós precisamos muito desse dinheiro”, disse o presidente à CNN. “É literalmente uma questão de sobrevivência.”
Apesar do avanço, a Ucrânia continua dependente de sistemas de armas produzidos exclusivamente por países ocidentais, como os mísseis Patriot, fabricados nos EUA — o único sistema de defesa antiaérea capaz de abater mísseis balísticos.
Zelensky afirmou que os recursos europeus serão usados tanto para fortalecer a indústria bélica local quanto para “comprar, junto a parceiros, armas que ainda não produzimos na Ucrânia”.
O país também pretende priorizar o conserto e o reforço de sua infraestrutura de energia antes do próximo inverno, após ter sofrido com ataques russos recorrentes ao setor na última temporada de frio.
No total, a UE estima que o novo empréstimo cubra cerca de dois terços das necessidades de financiamento externo da Ucrânia — tanto militares quanto civis — para os próximos dois anos, calculadas em US$ 135,7 bilhões. O terço restante deve vir de instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI).
c.2026 The New York Times Company
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