
A SpaceX fechou nesta semana um acordo para adquirir a Cursor, startup americana de programação assistida por inteligência artificial, por uma avaliação de US$ 60 bilhões. Para a maior parte do mercado, o negócio é mais um sinal da corrida das grandes empresas de tecnologia para dominar o mercado de ferramentas de IA para desenvolvedores. Para os credores da FTX, é um lembrete amargo.
Em abril de 2022, a Alameda Research, trading desk fundada por Sam Bankman-Fried e operada em paralelo com a exchange FTX, investiu US$ 200 mil na Anysphere, empresa que desenvolve o Cursor. O aporte comprou cerca de 5% do negócio, que naquele momento era avaliado em apenas US$ 4 milhões. Era uma aposta de semente, quase uma linha no orçamento de uma das maiores casas de negociação de criptoativos do mundo.
Um ano depois, a situação era outra. A FTX havia entrado com pedido de recuperação judicial em novembro de 2022, em meio a revelações de que bilhões em depósitos de clientes haviam sido desviados para a Alameda e usados em investimentos de alto risco sem o conhecimento ou consentimento dos usuários. O escândalo derrubou o mercado de criptoativos, levou Bankman-Fried a ser preso e deu início a um dos processos de falência mais complexos da história do setor.
A equipe de reestruturação, liderada pelo veterano John J. Ray III, herdou uma carteira de ativos voláteis e ilíquidos com a missão de convertê-los em caixa o mais rápido possível para pagar os credores. Em abril de 2023, a participação na Anysphere foi vendida por US$ 200 mil (cerca de R$ 1 milhão), exatamente o valor original do investimento.
O crescimento que ficou para trás
O Cursor lançou seu produto de programação com IA no início de 2023, poucos meses antes da venda da participação pela massa falida. Nos três anos seguintes, a startup percorreu uma das trajetórias mais rápidas da história recente do setor de software. Ao anunciar o acordo com a SpaceX, a empresa saiu de uma avaliação de US$ 4 milhões para US$ 60 bilhões, um crescimento de cerca de 15.000 vezes em relação ao preço pago pela Alameda.
Os 5% que a FTX tinha na empresa valeriam hoje aproximadamente US$ 3 bilhões (R$ aproximadamente R$ 15 bilhões). O que a massa falida efetivamente recebeu foi US$ 200 mil. A diferença é de cerca de US$ 2,99 bilhões que foram para o bolso de quem comprou a participação na falência, e não para os credores que a administração judicial deveria maximizar.
Bankman-Fried, que cumpre uma pena de 25 anos em prisão federal, tem usado esse tipo de argumento para criticar a gestão da falência. Em fevereiro deste ano, ele publicou uma projeção sugerindo que o patrimônio líquido da FTX teria chegado a US$ 78 bilhões se os ativos tivessem sido mantidos em carteira até a recuperação do mercado, em vez de vendidos entre 2023 e 2024. Com os números do Cursor agora disponíveis, o valor total, segundo ele, alcançaria US$ 114 bilhões.
A lógica da liquidação
A defesa da equipe de reestruturação tem fundamento. Em 2023, os mercados de criptoativos ainda estavam em queda, a confiança no setor era baixa e manter ativos ilíquidos e concentrados em startups de estágio inicial representava risco real de perdas adicionais. A lei de falências não premia especulação e o padrão da prática é preservar valor, não persegui-lo.
No final, os credores da FTX foram ressarcidos em valores nominais, com correção por juros, sob o plano de distribuição da falência. O que não receberam foi a valorização que esses ativos acumularam entre o pedido de proteção judicial e o presente, e o caso da Cursor é o exemplo mais nítido disso: US$ 200 mil realizados contra US$ 3 bilhões de potencial.
Os pais de Bankman-Fried apareceram na CNN em março defendendo um perdão presidencial, com o argumento de que os clientes da exchange foram, no fim, reembolsados. O negócio da SpaceX com a Cursor tende a ser incorporado a essa narrativa, tornando-se o caso de maior repercussão entre os exemplos que a família usa para questionar as decisões da administração judicial.
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