Um levantamento com base em dados da Central 156 da Prefeitura de Campinas aponta que a convivência com pessoas em situação de rua na metrópole gerou um aumento nas queixas da população no último ano. As ocorrências registradas pelo serviço cresceram 20% em relação a 2024, alcançando o maior patamar dos últimos cinco anos, segundo informações obtidas via LAI (Lei de Acesso à Informação).
Foram 522 reclamações em 2025, contra 435 em 2024. Em 2026, até abril, foram 68 queixas. A série histórica mostra crescimento contínuo:
- 2021: 225 reclamações
- 2022: 282
- 2023: 402
- 2024: 435
- 2025: 522
- 2026: 68 (até o momento)
Os principais motivos das queixas envolvem sensação de insegurança e aumento de furtos.
Em nota, a Prefeitura ressaltou que os registros da Central 156 representam solicitações e reclamações da população e não correspondem ao número de pessoas em situação de rua nem ao volume de atendimentos realizados pelo poder público.
Percepção nas ruas
Em março, a reportagem do acidade on Campinas esteve na região central e ouviu comerciantes, que relataram incômodo com a presença constante de pessoas em situação de rua. Segundo eles, há casos de permanência em frente a estabelecimentos, com acúmulo de restos de alimentos e uso de papelões como abrigo – leia a reportagem aqui.
Na Vila Industrial, moradores também percebem mudanças. A costureira Roserci Boletini afirma que a presença aumentou nos últimos anos.
“Tem uns quatro anos que tem mais moradores em situação de rua. Eles ficam na praça. Eu acho um absurdo, roubaram todas as lixeiras da rua.”
Uma das lixeiras citadas ficava em frente à casa do manobrista Carlos Cabral.
“Pusemos uma lixeira de ferro, não demorou muito tempo para roubarem. Aí tivemos que fazer de madeira para não roubarem.”
Roserci também critica a falta de solução definitiva: “Eles só jogam essas pessoas de um lado para o outro, mas esse problema acaba não sendo resolvido”.
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Centro lidera ranking de reclamações
O último censo da população em situação de rua, realizado em 2024 pela Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social, identificou mais de mil pessoas vivendo nessa condição em Campinas. O número representa aumento de 39,4% em relação ao levantamento anterior, de 2021.
Apesar de não haver o número absoluto de registros por bairro, os dados mostram a ordem das regiões com maior concentração de reclamações:
- Centro
- Cambuí
- Jardim Londres
- Bonfim
- Cidade Jardim
- Vila Industrial
A região leste, onde está a área central, concentra 42,6% dessa população. O perfil predominante é de homens, pessoas pardas e jovens entre 25 e 36 anos.
Fenômeno é multifatorial, aponta especialista
Para o sociólogo Everton Silveira, professor e pesquisador da PUC-Campinas, o aumento percebido nas ruas envolve uma combinação de fatores.
“Se a gente caminhar pelas ruas, há uma percepção de que a quantidade de pessoas em situação de rua aumentou. Mas elas não estão ali por um único motivo”,
afirma.
Segundo ele, a situação não pode ser explicada apenas pela falta de moradia, pelo uso de substâncias, pela ruptura familiar ou pelo desemprego, mas pela soma desses fatores.
“É tudo isso ao mesmo tempo. Há um conjunto complexo de elementos que leva a essa condição”,
explica.
O pesquisador destaca ainda que ninguém escolhe inicialmente viver nas ruas, embora, em alguns casos, essa condição possa ser percebida como menos difícil do que vivências anteriores. Ele também pondera que Campinas conta com serviços e organizações atuantes, mas ainda enfrenta desafios.
“Temos serviços competentes e muitas organizações sérias, mas existem insuficiências. E elas estão mais ligadas à complexidade do problema do que à quantidade. Hoje, precisamos de serviços mais complexos e articulados entre Estado, organizações sociais e sociedade civil”,
completa.
Faça uma denúncia ou sugira uma reportagem sobre Campinas e região por meio do WhatsApp do acidade on Campinas: (19) 97159-8294.
O que diz a Prefeitura
A secretária de Desenvolvimento e Assistência Social de Campinas, Vandecleya Moro, afirma que o município mantém uma rede de atendimento voltada tanto à garantia de direitos quanto à superação da situação de rua.
“Nós temos serviços que garantem direitos básicos dessa população, como locais para tomar banho, fazer higiene, ter alimentação, documentação, atendimento com assistente social e psicólogo, além de espaços para dormir”,
afirma.
Segundo ela, a atuação também inclui estratégias de reinserção social.
“Há uma outra frente que busca superar a situação de rua, com encaminhamento para o mercado de trabalho, entrevistas de emprego, formação e capacitação profissional, além de parcerias com a educação”,
diz.
A secretária ressalta ainda que grande parte dessa população em situação de rua vem de fora de Campinas.
“A maioria das pessoas que estão em situação de rua hoje em Campinas é de fora da cidade, e seus familiares também são de fora”,
completa.
Rede de atendimento
A secretaria detalha que a rede municipal inclui diferentes frentes de atuação:
Abordagem de rua: O Serviço de Abordagem Social (SOS Rua) abordagens com presença em todas as regiões da cidade, com escuta ativa, encaminhamentos a órgãos públicos, acesso a documentação civil e articulação com saúde e assistência social.
Guarda de pertences no Bagageiro Municipal na Vila Industrial.
Atendimento diurno: Os Centros POP (SARES Unidades 1 e 2) oferecem atendimento especializado com alimentação, higiene e orientação.
Acolhimento noturno: A capacidade instalada é de 235 vagas, distribuídas em:
- Albergue Municipal Samim: 100 vagas (76 masculinas, 10 femininas, 10 para mães com crianças, 4 para pessoas trans)
- Casas de Passagem Nossa Casa e Casa Efraim: 25 vagas cada (50 no total)
- Abrigos fixos: 85 vagas em quatro unidades (Casa Antônio Fernando dos Santos, Casa Juninho, Casa Amigos de São Francisco de Assis e Casa de Apoio Santa Clara)
Alimentação: O município oferta 20 mil refeições mensais, com distribuição noturna nos polos Bom Prato e Casa da Cidadania.
Saúde: O Consultório na Rua realiza atendimento ambulatorial itinerante na região Central, por meio da Secretaria Municipal de Saúde. A Casa da Gestante acolhe mulheres grávidas em situação de rua, igualmente por meio da Secretaria Municipal de Saúde.
Dependência química: O Programa Recomeço atende pessoas em situação de rua em recuperação voluntária do uso de substâncias psicoativas
*Com informações de Bianca Rosa/EPTV Campinas
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