
A aplicação prática de inteligência artificial nas áreas financeira e fiscal ainda é exceção na maioria das empresas brasileiras: apenas 33% afirmam usar IA no dia a dia e só 16% destinaram orçamento específico para isso nos últimos 12 meses; 40% não investiram nada nessa frente. Os dados constam do Panorama do Contas a Pagar 2026, levantamento inédito da Qive.
O estudo, realizado pela Opinion Box entre agosto e setembro de 2025, ouviu 406 profissionais de companhias de diferentes portes e setores. Os resultados apontam para uma modernização relativamente lenta, especialmente em finanças, fiscal, contabilidade e TI.
Comparado a edições anteriores, o reconhecimento da importância da tecnologia dentro desses departamentos cresceu. Por outro lado, a infraestrutura tecnológica e a automação ainda não acompanham essa evolução: na edição de 2024, por exemplo, só 27% dos respondentes afirmaram que o backoffice era visto como estratégico dentro da empresa.
Na prática, o resultado não traz uma ruptura, mas reforça um padrão conhecido: as organizações sabem que precisam inovar, mas a transformação digital ainda acontece de forma desigual, com poucos investimentos e muita distância entre o discurso e a execução.
“Os líderes estratégicos sabem que financeiro, fiscal e controladoria são áreas-chave para a tomada de decisão, mas seguem presos a atividades analógicas, dados fragmentados e baixa automação”, analisa Isis Abbud, co-CEO e cofundadora da Qive.
IA no radar, mas não no orçamento
O interesse pela inteligência artificial está aumentando rapidamente entre profissionais das áreas financeira e administrativa. De acordo com o Panorama do Contas a Pagar 2026, 51% dos entrevistados planejam investir em conhecimento sobre IA nos próximos 12 meses, enquanto 39% pretendem aprimorar planejamento e estratégia, o que indica uma migração gradual do backoffice para uma atuação mais analítica.
Apesar do avanço no interesse, o uso efetivo ainda é restrito. Apenas um terço das empresas aplica IA nas rotinas diárias, e a maioria segue em fase de testes. A pesquisa detalha que:
- 16% investiram em soluções de IA com orçamento dedicado no último ano;
- 23% realizaram testes sem verba formal;
- 25% ainda não investiram, mas planejam fazê-lo nos próximos 12 meses;
- 55% não têm investimento nem previsão de aplicar recursos na tecnologia.
Entre as companhias que já adotaram a IA, o uso está concentrado em tarefas de produtividade, com os seguintes ganhos relatados:
- 26% apontam aumento na produtividade das equipes;
- 22% relatam menos tempo gasto com relatórios;
- 22% destacam análises de dados mais precisas.
Mesmo assim, o retrato geral ainda mostra baixa automação no backoffice. Mais de 50% dos profissionais continuam trabalhando com planilhas, usadas isoladamente ou em combinação com softwares de gestão. ERPs e ferramentas automatizadas existem, mas a rotina segue centrada em processos manuais.
Quando se trata de riscos e erros, a falta de automação atinge diretamente o caixa das companhias, segundo o estudo. O levantamento mostra que ao menos 29% das organizações processam entre 201 e 1.000 recebimentos por mês, e 21% lidam com mais de 1.000. Nos pagamentos, 22% realizam de 51 a 100 operações mensais, 19% entre 101 e 500 e 17% ultrapassam 1.000.
Essas rotinas manuais resultam em falhas frequentes:
- 25% tiveram problemas com datas de vencimento;
- 24% registraram pagamentos em duplicidade;
- 17% realizaram operações incorretas por erro de informação.
A maioria confirmou impacto no faturamento, com perdas de até 1% da receita, e 22% afirmam que a situação piorou em relação ao ano anterior.
Na avaliação da Qive, os resultados indicam que o próximo passo é sair do “apenas digital” para o “verdadeiramente inteligente”, conectando dados, automatizando fluxos e liberando as equipes para atividades de análise e decisão.
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