
Por mais de quatro anos, os momentos finais do voo 5735 da China Eastern ficaram envoltos em mistério. Havia pouquíssimas pistas sobre a queda repentina, a partir de 29 mil pés de altitude, que não deixou nenhum sobrevivente.
Agora, novos dados do Boeing 737 indicam que o acidente não foi causado por uma falha inesperada. Segundo especialistas em aviação, a queda foi provocada de forma deliberada, a partir da cabine de comando, após o que parece ter sido uma disputa pelo controle da aeronave.
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O avião, operado por pilotos bastante experientes, fazia a rota entre Kunming, no sudoeste da China, e Guangzhou, quando despencou quase na vertical contra uma encosta. O impacto foi tão forte que partes da fuselagem chegaram a ficar enterradas a até 18 metros de profundidade.
De acordo com o relatório do National Transportation Safety Board (NTSB), órgão de segurança nos transportes dos Estados Unidos, o mergulho começou quando um piloto — ou ambos — acionou as alavancas de corte de combustível (“cutoff levers”) dos dois motores em pleno voo. A informação é de Jeff Guzzetti, ex-investigador de acidentes da Administração Federal de Aviação (FAA) e do próprio NTSB. Essas alavancas funcionam, basicamente, como interruptores de combustível.
Ao baixar as duas alavancas ao mesmo tempo, o fluxo de combustível para os motores foi interrompido, desligando-os, explica Guzzetti.
Quase imediatamente, mostram os dados dos sistemas de bordo, o avião entrou em um mergulho extremamente acentuado e chegou a fazer pelo menos um giro completo de 360 graus, segundo Guzzetti. As informações indicam que as rodas de controle na cabine — uma diante do comandante e outra diante do copiloto — foram giradas de forma a provocar esse rolamento. (Essas rodas de comando são parecidas com um volante de carro, mas servem para inclinar o avião e fazer curvas.)
O movimento brusco, irregular e alternado dessas rodas sugere que pelo menos duas pessoas tentavam girá-las em sentidos opostos. Isso pode indicar que os dois pilotos disputavam o controle da mesma roda ou que comandante e copiloto empurravam seus próprios controles em direções diferentes — eles são conectados entre si e, em condições normais, se movem juntos.
“Movimentos agressivos para colocar o nariz do avião para baixo e fazê-lo rolar de forma tão extrema me dizem que isso foi um ato intencional”, afirma Guzzetti.
Os dados sobre o acidente, um dos mais graves na China em mais de uma década, foram divulgados após um pedido via Lei de Acesso à Informação (Freedom of Information Act) feito ao NTSB. O órgão americano havia ajudado na investigação, incluindo a recuperação de dados do gravador de voo — uma das chamadas “caixas-pretas”.
Não está claro quem fez o pedido nem exatamente quando o relatório foi liberado. O documento está disponível no site do NTSB.
O tema é especialmente sensível na China, onde o governo divulgou pouquíssimos detalhes da própria investigação. Xi Jinping, o líder mais poderoso do país em décadas, vem endurecendo o controle sobre o fluxo de informações, principalmente em grandes desastres, vistos como potenciais ameaças à estabilidade social. Nos dias seguintes à queda, autoridades chinesas censuraram reportagens e discussões sobre o caso.
O Ministério das Relações Exteriores da China e a Administração de Aviação Civil do país não responderam a perguntas enviadas por fax sobre os novos dados. Em 2024, a autoridade de aviação havia informado que pilotos e comissários passaram por exame médico antes do voo naquele dia.
Guzzetti afirma que outros trechos dos dados reforçam a hipótese de uma possível briga entre os dois pilotos pelos comandos do avião.
“Se você vai fazer o avião rolar, normalmente é um rolamento suave”, diz ele. “Neste caso, a roda de controle vai para um lado, depois para o outro, e assim por diante. Isso, para mim, é um sinal de luta.”
John Cox, consultor em segurança de aviação e ex-piloto de linha aérea, concorda que o corte de combustível e outros comandos partiram da cabine, possivelmente de um único piloto. “Um piloto consegue cortar o combustível dos dois motores ao mesmo tempo, basta mover as alavancas da posição ‘run’ (ligado) para ‘cutoff’ (corte)”, explica.
Para ele, o movimento irregular da roda de controle sugere que houve disputa pelos comandos, “mas as evidências não são totalmente conclusivas”.
O NTSB informou ainda que o gravador de dados de voo parou de funcionar quando o avião ainda estava em queda, por volta dos 26 mil pés de altitude. Sem os motores funcionando, faltou energia elétrica para manter o equipamento ligado.
O gravador foi bastante danificado no impacto, segundo o órgão. Já as informações do gravador de voz da cabine — a outra caixa-preta — não foram divulgadas.
Os dados também mostram que, na fase inicial da queda, o avião descia com um ângulo de até 40 graus — bem mais íngreme do que os poucos graus usados numa descida normal, de acordo com Guzzetti.
“É o tipo de manobra que você vê em aviões acrobáticos em show aéreo”, compara. “Para os passageiros, deve ter sido um choque enorme, pelo nível de força que essas manobras tão extremas provocam.”
c.2026 The New York Times Company
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