Um estudo da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) revelou que o câncer impacta moradores de Campinas de forma desigual e provoca mais mortes nas regiões mais pobres da cidade.
Segundo os pesquisadores, a vulnerabilidade social influencia diretamente no acesso ao diagnóstico precoce e ao tratamento, aumentando os índices de mortalidade nas periferias.
A pesquisa analisou os principais tipos de câncer entre moradores do município, como próstata, mama, estômago, pulmão, cavidade oral, colo do útero e colorretal, e mapeou as diferenças entre regiões mais ricas e mais vulneráveis.
A pesquisa em Campinas analisou um período de 10 anos (2010 a 2019) e cruzou três bases oficiais:
- Registro de Câncer de Base Populacional (RCBP) de Campinas — auditado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à OMS;
- Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM);
- Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS).
Para medir as desigualdades, os pesquisadores utilizaram o Índice Relativo de Desigualdade (RII), que permite comparar o risco de adoecimento e morte entre diferentes grupos socioeconômicos ao longo do tempo. Veja os bairros analisados.
- Menor vulnerabilidade: Bairros 32 de março, Taquaral, Barão Geraldo, Sousas e Joaquim Egídio
- Intermediários: Bairros Carlos Gomes, Village, São Quirino, Conceiçao, Boa Esperança, Eulina, Aurélia e Anchieta.
- Maior Vulnerabilidade: São Domingos, Fernanda, Campo Nelo, Nova América, Cavalho Moura, São Cristovam, Dic I e Santo Antônio.

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Carmino de Souza, Professor de Hematologia e Hemoterapia da Unicamp, explica o que pode ter agravado o cenário, que mostrou aos pesquisadores que quem vive em regiões de maior vulnerabilidade sofre mais com as consequências do câncer, inclusive a morte.
Segundo os pesquisadores, a população mais pobre não necessariamente adoece menos, mas enfrenta mais dificuldades para acessar exames e descobrir a doença precocemente. Como consequência, muitos pacientes chegam ao sistema de saúde em estágios avançados do câncer, com menores chances de cura.
– O que chamou atenção mais atenção foi os de mortalidade. Em quase todos os cenários, quem tem mais vulnerabilidades morreu mais. Isso se deve a questão ligadas a acesso, culturais, chegada de serviços de saúde tardiamente – diz o professor.
Carmino destaca ainda a importância do projeto e “a qualidade da base de dados” para a pesquisa, já que uma lei municipal de 2017 tornou o câncer uma doença de notificação compulsória, o que ampliou o monitoramento de casos por parte da rede pública.
– Esse estudo faz parte de um projeto de estudo de câncer que temos aqui. E não só de medicina, mas de química, física, farmácia e matemática. Com esse registro de base populacional de câncer, associados os indicadores de mortalidade e vulnerabilidades. A partir daí fizemos o estudos.
– Campinas tem a primazia, e são muito poucos os lugares no Brasil de ter o que nós chamamos de registro de câncer de base populacional. Então todos os casos de câncer em Campinas são prospectivamente coletados
Diferenças entre os tipos de câncer
O estudo aponta que, no caso do câncer de próstata, o risco de morte chegou a ser três vezes maior entre homens socialmente mais vulneráveis entre 2015 e 2019.
Já no câncer de cavidade oral, a mortalidade foi até 3,3 vezes maior entre os mais pobres. Os pesquisadores relacionam o cenário à oferta insuficiente de equipes de saúde bucal no SUS.
O câncer de colo do útero, considerado altamente prevenível por meio da vacinação contra o HPV, praticamente desapareceu como causa de morte nas regiões mais ricas, mas segue significativo nas áreas vulneráveis, onde o risco é 3,6 vezes maior.
No câncer de mama, o número de diagnósticos é maior entre mulheres de renda mais alta, principalmente pelo maior acesso a exames preventivos como mamografia e ultrassonografia. Em contrapartida, mulheres das periferias frequentemente descobrem a doença em estágios mais avançados.
Outro ponto de atenção é o câncer colorretal. Segundo a pesquisa, a mortalidade pela doença aumentou entre homens mais pobres, cenário associado à dificuldade de acesso a exames como colonoscopia, além de fatores como obesidade, sedentarismo e consumo de ultraprocessados.
Objetivo é orientar políticas públicas
Os autores defendem que o estudo pode ajudar no direcionamento de políticas públicas de saúde voltadas ao enfrentamento das desigualdades no tratamento do câncer.
Segundo os pesquisadores, o uso de dados geográficos e informações detalhadas pode contribuir para fortalecer a atenção básica, ampliar o rastreamento da doença e antecipar diagnósticos, aumentando as chances de tratamento adequado e sobrevivência dos pacientes.
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