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Review: Call of the Elder Gods expande o horror cósmico de Lovecraft com maestria

por SampaNews 11 de maio de 2026
11 de maio de 2026
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Existem alguns tipos de estúdios que são cada vez mais raros nos dias de hoje no mundo dos jogos: aquele que encontra não só seu nicho, mas que também mergulha fundo nele a ponto de ganhar sua marca registrada, onde o jogador bate o olho e pensa: este jogo foi feito por tal lugar. O novato Out of the Blue é esse tipo de estúdio.

O estúdio espanhol estreou em 2020 com Call of the Sea: uma aventura de puzzle em primeira pessoa que usava a obra de H.P. Lovecraft como pano de fundo para contar uma história perturbadora sobre amor, perda e os limites da sanidade humana. O jogo ganhou fãs – eu, inclusive – por sua ambientação bem construída, seus enigmas inteligentes e por saber usar o horror cósmico sem precisar colocar um monstro na tela o tempo todo. Agora, com Call of the Elder Gods, a Out of the Blue não apenas continua essa história, mas a expande de um jeito que faz o primeiro jogo parecer apenas o prólogo.

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Uma continuação direta

Call of the Elder Gods faz algo que deveria ser padrão em algumas sequências, mas raramente é: pergunta se você jogou o primeiro jogo e, se sim, qual final você deu à protagonista Norah Everhart. É algo simples, mas que faz com que o jogador se lembre ao menos da sua escolha final (joguei o primeiro game em 2021, mal tinha lembranças dos acontecimentos finais).

A história agora gira em torno de dois protagonistas: Evangeline Drayton, uma jovem estudante de física assombrada por sonhos impossíveis sobre um artefato descoberto há alguns anos e Harry Everhart, um recluso professor universitário que tenta viver após um longo luto que ainda o assombra. Os dois são puxados para uma investigação que vai revelar segredos mais antigos do que qualquer civilização conhecida, capaz de mudar o passado e o futuro da humanidade ao mesmo tempo.  
 

Mistérios que vão além da nossa compreensão. 

A influência de Lovecraft está declarada desde o início, e o jogo não tem vergonha disso. Call of the Elder Gods é baseado em “A Sombra Vinda do Tempo”, conto do autor americano em que um professor universitário sofre um episódio de amnésia e descobre que sua mente foi temporariamente habitada por uma entidade de outro tempo. O nome Peaslee, a amnésia, o conceito de troca de mentes, tudo vem de lá. Porém, a Out of the Blue não adaptou a obra por completo: ela usa o conto como estrutura para construir uma história original e cheia de camadas, que expande o conceito de horror cósmico para uma experiência em jogo.

A sensação de insignificância que Lovecraft construiu muito bem em suas histórias – aquela percepção de que a humanidade é minúscula diante de forças que existem há eras e não se importam com nossa existência – está mais viva em Call of the Elder Gods do que em Call of the Sea, trazendo um ponto positivo se comparado ao primeiro.

Dois protagonistas pouco explorados

Em termos de gameplay, a novidade mais visível é a possibilidade de alternar entre Evangeline e Harry. Na prática, porém, essa mecânica demora para aparecer de verdade: a troca de personagens só começa a partir do capítulo 4, e quando chega, é mais narrativa do que funcional. Não há habilidades exclusivas que obriguem o uso de um personagem específico: a alternância existe para fazer avançar a história, não para criar desafios de design.

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Evangeline Drayton, uma jovem estudante de física assombrada por sonhos impossíveis.

É uma escolha que funciona dentro da proposta, mas que deixa a impressão de um potencial mal explorado por aqui. Se a sequência se aprofundasse nas diferenças mecânicas entre os dois personagens, o estúdio poderia ter transformado o sistema em algo realmente diferente em Call of the Elder Gods.

Há também a possibilidade de fazer escolhas de diálogo, outra novidade em relação ao primeiro jogo, que colocava o jogador no papel de um personagem solitário sem muitas oportunidades de interação. Algumas respostas têm um contador de tempo, o que cria uma sensação de escolha do jogador, o que não acontece: as escolhas parecem não afetar o rumo da história de forma significativa – elas existem principalmente para enriquecer a compreensão do jogador sobre os personagens e o universo do jogo.

Assim como no primeiro, a direção de dublagem se mantém ótima em qualidade: Yuri Lowenthal (Spider-Man, Arcane) retorna como o melancólico Harry Everhart, junto de Cissy Jones (Firewatch, Starfield), como a misteriosa Norah. A adição de Mara Junot como Evangeline também agrada, papel esse que merecia ao menos um capítulo a mais.

A ambientação Lovecraftiana

Call of the Elder Gods dá um salto certeiro em relação ao antecessor: na ambientação. Em Call of the Sea, o jogador ficava confinado a uma ilha do Pacífico durante praticamente toda a jornada, alternando vez ou outra entre realidades e ruínas. Aqui, a história leva os protagonistas para vários lugares do globo: Boston, Suíça, Austrália e até por dimensões que a mente humana teoricamente não seria capaz de compreender.

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Monumentos gigantes te esperam em Call of the Elder Gods. 

A Out of the Blue fez um trabalho muito bom nos cenários da sequência, fazendo o jogador visitar diversos cenários ao maior estilo Indiana Jones. Os ambientes impossíveis feitos por outras raças conseguem extrair um pouco do que H.P. Lovecraft tentava nos explicar em suas páginas – padrões, línguas e formas diferentes do que costumamos conhecer. E é exatamente aí que o horror lovecraftiano ganha sua forma mais eficaz: não é o monstro que aparece na tela que assusta; mas sim não compreender algo que está na nossa frente, desafiando qualquer senso de orientação ou lógica, fazendo com que o jogador se sinta tão perdido quanto os protagonistas. Assim como no primeiro game, a direção de arte consegue se basear no absurdo, criando um estilo próprio.

O único ponto baixo nessa expansão de escala é técnico: nos ambientes mais abertos, a bolinha de interação que indica objetos e elementos ativáveis fica pequena demais para ser vista com facilidade. O resultado é que o jogador se vê encostando em tudo ao redor para descobrir o que é interativo ou não, um detalhe que poderia ser resolvido com um ajuste simples na interface do jogo.

Separe papel e caneta

A marca registrada da Out of the Blue são os enigmas (a frase estampada no site do estúdio é WE DESIGN PUZZLES, WE TELL STORIES, faz sentido), e em Call of the Elder Gods eles chegam mais difíceis, mais elaborados e mais satisfatórios quando resolvidos. Prepare-se para anotar sequências numéricas, traçar perfis de ocultistas, decifrar símbolos e cruzar informações que o jogo espalha com cuidado ao longo dos capítulos. Um bloco de notas físico ou no celular será seu melhor amigo aqui.

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Máquina Enigma: um dos desafios mais divertidos do jogo. 

O jogo reconhece que nem todo jogador quer (ou consegue) resolver tudo sozinho, e agora oferece uma opção de ajuda acessível diretamente pelo menu de pausa, com explicações passo a passo para quem travar em certo quebra-cabeça. É uma decisão inteligente que torna a experiência mais inclusiva sem tirar o mérito de quem prefere resolver tudo no próprio tempo.

Dito isso: alguns enigmas chegam perto demais do frustrante. O desafio do piano no capítulo 2 poderá te tirar do sério – quem tiver algum conhecimento básico de teoria musical leva vantagem, mas mesmo assim vai exigir atenção. Já o desafio das constelações, quase no final do jogo, tem uma lógica que não comunica bem suas regras ao jogador, o que irá forçar muita gente a recorrer à ajuda do jogo contra a vontade (sinto dizer que aqui eu usei a ajuda). É um prato cheio para quem ama desafios de lógica, mesmo que uma vez ou outra não pareça fazer sentido.

Vale a pena?

Call of the Elder Gods é um jogo que vai agradar uma parcela boa de fãs: do escritor, de enigmas desafiadores e do primeiro jogo. Conhecer Call of the Sea enriquece a experiência, porém não é obrigatória, já que a história funciona bem sozinha. Mas, mesmo quem chega sem ter jogado o primeiro vai encontrar aqui uma aventura desafiadora, bonita e genuinamente perturbadora do jeito certo.

A Out of the Blue não está tentando fazer um jogo de terror convencional, mas sim capturar a essência do que tornava Lovecraft tão perturbador no papel: a ideia de que o universo é antigo, vasto e que pode guardar segredos que a humanidade sequer consiga entender. Em Call of the Elder Gods, essa sensação está mais presente do que nunca no catálogo do estúdio, que está ficando expert em criar boas narrativas embaladas de desafios. Um bom futuro (ou passado) os aguarda.

 

Nota do Voxel: 85 

Pontos positivos

  • Ambientação Lovecraftiana digna dos livros
  • Enigmas desafiadores
  • História que respeita a obra original
  • Boa direção de dublagem

Pontos negativos

  • Troca de protagonistas mal explorada 
  • Escolha de diálogos que não influi na trama 
  • Alguns enigmas não ficam claros ao jogador

 

Uma cópia de Call of the Elder Gods foi cedida pela Kwalee para review. E aí, o que achou da análise?   
 

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