
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vai reforçar a aposta em temas ligados à segurança pública, economia e gestão após a troca no comando da comunicação, em uma tentativa de atenuar o desgaste provocado pela revelação das mensagens trocadas com o banqueiro Daniel Vorcaro para o financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A reorganização será levada adiante pelo publicitário Eduardo Fischer e o marqueteiro e jornalista Alexandre Oltramari, anunciados nesta segunda como novos integrantes da cúpula da pré-campanha.
Segundo interlocutores ouvidos pelo GLOBO, aliados de Flávio passaram a defender uma mudança prática na condução da comunicação depois da avaliação de que o senador ficou aprisionado ao caso “Dark Horse”, perdeu capacidade de pautar o debate político e passou duas semanas apenas reagindo às revelações sobre sua relação com Vorcaro.
Integrantes da pré-campanha afirmam que a nova diretriz é acelerar agendas econômicas, ampliar propostas na área de segurança pública e começar a apresentar uma imagem mais ligada à gestão. A avaliação interna é que Flávio ficou excessivamente dependente da defesa política de Bolsonaro e deixou de construir uma identidade própria para Flávio.
Entre as ideias que passaram a ganhar força dentro do núcleo político do senador estão a redução da maioridade penal, endurecimento das regras de progressão de pena, ampliação de garantias para atuação policial e a suspensão por um ano da implementação da reforma tributária aprovada no Congresso para revisão do modelo.
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Auxiliares do senador também defendem começar a discutir nomes ligados à área econômica antes mesmo da oficialização da candidatura para tentar reduzir a resistência de empresários e investidores.
A necessidade de guinada no discurso ganhou força após o Datafolha revelar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu vantagem sobre Flávio após o caso “Dark Horse”, revertendo a tendência de aproximação identificada em pesquisas anteriores. De acordo com o instituto, Lula marca 40% no primeiro turno, contra 31% do adversário. Em um eventual segundo turno, o presidente tem 47%, enquanto Flávio anota 43%.
Reconstrução de pontes
Oltramari, que já atuou em campanhas para PT, PSDB e MDB, foi escolhido para reorganizar essa estrutura. A leitura dentro do PL é que a comunicação da pré-campanha se tornou improvisada, fragmentada e excessivamente reativa durante a sucessão de mensagens, áudios e discussões sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, produção audiovisual sobre Jair Bolsonaro.
A reformulação ocorre num momento em que aliados do senador tentam reconstruir pontes com setores que passaram a demonstrar desconforto após o agravamento da crise, especialmente mercado financeiro, empresários e dirigentes de partidos de centro-direita. Segundo relatos feitos ao GLOBO, interlocutores da pré-campanha ouviram nas últimas semanas cobranças de empresários para que Flávio apresentasse propostas econômicas concretas e deixasse de aparecer apenas associado ao noticiário da crise.
Com esse cenário, auxiliares afirmam que uma das prioridades agora é convencer aliados de que a candidatura continua viável politicamente apesar do desgaste provocado pelo caso Vorcaro. Por isso, ganhou força nas últimas semanas a ideia de transformar a pré-campanha numa operação mais profissionalizada e menos dependente exclusivamente da associação direta com Bolsonaro.
A aproximação do publicitário Eduardo Fischer faz parte desse movimento. Ele passou a atuar como conselheiro da campanha e participa das discussões sobre reposicionamento político, estratégia de comunicação e reconstrução da imagem do senador. Segundo interlocutores, os primeiros materiais dessa nova fase devem começar a circular ainda nesta semana.
Nos bastidores, integrantes do novo núcleo passaram a resumir internamente a operação como uma tentativa de construir um “novo Flávio”: alguém mais focado em gestão, economia e segurança pública e menos restrito ao papel de herdeiro político do ex-presidente.
A ofensiva inclui ampliar viagens, agendas presenciais e encontros políticos fora de Brasília. Flávio deve viajar a Curitiba na próxima sexta-feira. Depois, irá a Minas Gerais no próximo dia 2 e à Bahia no dia 8, movimentos interpretados dentro do PL como uma tentativa de demonstrar normalidade política após semanas dominadas pela crise envolvendo Vorcaro.
Ao mesmo tempo, integrantes da pré-campanha passaram a defender uma tentativa de encerrar politicamente o tema do filme “Dark Horse” por meio de uma prestação pública de contas da produção. A ideia ganhou força depois que Jair Bolsonaro entrou diretamente na operação de contenção da crise e aconselhou o filho a “contar toda a verdade” sobre a relação com Vorcaro. Na semana passada, Flávio disse que pediu a produtora que apresentasse o detalhamento em um mês.
Dentro do PL, a avaliação é que, além do conteúdo das mensagens, a percepção de improviso e perda de controle da narrativa também tornou-se um problema. Na quinta-feira, o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador político da pré-campanha presidencial de Flávio, admitiu publicamente falhas na gestão da crise.
— Passou a ser criminalizado porque se perdeu o controle da narrativa, se colocou como se fosse ruim. Deveria ter se antecipado uma situação, mas não se falou em tempo hábil que aquela relação existia — afirmou.
A pressão por reorganização também produziu mudanças internas na equipe. O publicitário Marcello Lopes deixou a comunicação da campanha na semana passada em meio à reformulação do núcleo político e de marketing do senador. Ele afirmou que foi alvo de “ataques covardes”.
Propostas que a campanha de Flávio pretende impulsionar na nova fase
- Segurança pública
- Redução da maioridade penal
- Endurecimento de regras para progressão de pena
- Economia
- Suspensão por um ano da implementação da reforma tributária para revisão do modelo
- Defesa de corte de gastos e redução do tamanho do Estado
- Tentativa de antecipar nomes da equipe econômica
- Estratégia política
- Mais agendas presenciais e viagens fora de Brasília
- Reaproximação com mercado financeiro, agro e evangélicos
- Produção de fatos políticos próprios para sair da defensiva do caso Vorcaro
- Comunicação mais profissionalizada
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