
SANTA MARIA D’HORTA D’AVINYÓ, Espanha — As chamas tomaram uma floresta na Catalunha, na Espanha, avançando por uma extensa área arborizada e seguindo diretamente em direção a centenas de hectares de pinheiros e vegetação rasteira. Mas, antes de alcançá-los, o incêndio encontrou a Celler Abadal, uma vinícola familiar de 800 anos espalhada pelas colinas de argila vermelha.
À medida que o fogo se aproximava das fileiras organizadas de videiras, separadas da linha das árvores por apenas alguns metros de solo árido, algo estranho aconteceu.
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O incêndio parou.
Foi um exemplo, em 2017, de uma notícia inesperadamente positiva. Certas paisagens, incluindo vinhedos, podem ajudar a desacelerar ou até interromper parcialmente incêndios florestais fora de controle.
“Não é só porque é bonito”, disse Ramón Roqueta, proprietário da Celler Abadal, caminhando por seu vinhedo em terraços em um dia ensolarado neste mês, apontando para uma colina praticamente sem árvores onde as chamas já avançaram. “Também está tornando a região mais resiliente.”
Os incêndios florestais na Europa estão ficando mais intensos e mais catastróficos ao longo do tempo. No ano passado, o continente viveu sua pior temporada de incêndios desde o início dos registros, em 2006, com quase 1 milhão de hectares queimados. Em 2026, a área acumulada atingida pelo fogo já supera a média anual registrada entre 2006 e 2025.
À medida que os incêndios pioram, os países europeus estão se adaptando, concentrando-se menos apenas na resposta ao desastre e mais na preparação.
Uma ideia inovadora defendida por pesquisadores da área é que produtores de vinho — junto com produtores de trufas e apicultores — podem desempenhar um papel essencial para tornar regiões secas e áridas mais resistentes às mudanças climáticas e aos incêndios extremos.
No caso dos vinhedos, as videiras verdes e viçosas são difíceis de queimar. O espaço limpo entre as fileiras obriga o fogo a saltar para continuar avançando. E as uvas prosperam onde outras culturas não conseguiriam. Os vinhedos às vezes instalam pontos de acesso à água e rotas de acesso em áreas montanhosas, infraestrutura útil para bombeiros e que talvez não existisse de outra forma.
Da mesma maneira, o cultivo de trufas e a produção de mel incentivam agricultores a cuidar de áreas de floresta que, de outro modo, cresceriam sem manejo.
Diante disso, ao longo do último ano, especialistas ligados ao Centro de Ciência e Tecnologia Florestal da Catalunha começaram a conceder o selo “Vinho Contra o Fogo” e “Produto Contra o Fogo” a vinhedos e outras propriedades rurais que adotam práticas capazes de ajudar a evitar desastres futuros.
No ano passado, a Celler Abadal tornou-se a primeira vinícola a receber o selo “Vinho Contra o Fogo”.
O selo, semelhante à certificação orgânica presente em muitos rótulos europeus, busca tanto recompensar boas práticas quanto ampliar e disseminar conhecimento sobre medidas eficazes. A expectativa é que os consumidores passem a reconhecê-lo, transformando-o em uma ferramenta de marketing que premie produtores responsáveis.
“Aqueles que passam a integrar o selo ficam mais conscientes do que estão fazendo bem e do que ainda podem melhorar”, disse Elena Górriz Mifsud, pesquisadora sênior do Centro de Ciência e Tecnologia Florestal da Catalunha e uma das responsáveis pelo projeto. Segundo ela, a União Europeia forneceu o financiamento inicial.
“Não estamos produzindo apenas vinho”, explicou. “Estamos produzindo segurança.”
Katerina Horakova, porta-voz da União Europeia, disse que, embora a certificação autorizada exista apenas na Catalunha por enquanto, o modelo é adaptável e “há possibilidade de que seja ampliado para outras regiões sujeitas a incêndios”.
Segundo Górriz Mifsud, empresas do sul da França, da Bulgária e das Ilhas Canárias demonstraram interesse no programa.
A iniciativa é uma entre várias ações adotadas pelas autoridades europeias para enfrentar a ameaça crescente dos incêndios florestais.
A União Europeia desenvolveu tecnologias avançadas de mapeamento e monitoramento, que vêm sendo aprimoradas com mais dados e atualizações frequentes.
O bloco e os governos nacionais também trabalham em conjunto para posicionar bombeiros em áreas de maior risco e ampliar as frotas de aeronaves de combate ao fogo.
Mas medidas preventivas, como o manejo da paisagem, têm assumido um papel cada vez mais importante.
Na Espanha, seis vinhedos na Catalunha e dois na Galícia receberam o selo “Vinho Contra o Fogo”, disse Górriz Mifsud, e o centro de ciência florestal está em processo de conceder a certificação a cerca de outros 30 produtores de vinho, com mais reconhecimentos em preparação.
Segundo Roqueta, seu vinhedo conquistou a distinção em parte pelas medidas adotadas após o incêndio de 2017.
Embora as chamas não tenham destruído o vinhedo, o fogo queimou algumas áreas e deixou outras uvas impregnadas pelo sabor de fumaça.
Durante uma caminhada pelos campos, Roqueta apontou para os burros que pastavam na floresta próxima. Eles ajudam a reduzir o excesso de vegetação na mata ao redor do vinhedo.
A propriedade também removeu gramíneas das áreas próximas à linha das árvores, deixando menos material para alimentar incêndios.
A Martín Códax Viticultores, cooperativa vitivinícola da Galícia, procurou o centro de ciência florestal depois que incêndios atingiram a região por duas semanas no ano passado.
A equipe do “Vinho Contra o Fogo” sugeriu que os vinhedos mantivessem zonas de proteção entre as videiras e a floresta, reduzissem a vegetação durante a temporada de incêndios e melhorassem o acesso à água para as equipes de combate ao fogo, disse Miguel Tubío, diretor da cooperativa.
“Cada vez mais enxergamos os vinhedos não apenas como lavouras”, escreveu Tubío em um e-mail.
Juan Martínez de Aragón disse o mesmo sobre suas trufas negras.
Ele administra a Biotruf, que cultiva essa iguaria aromática nas colinas da Catalunha. Assim como os vinhedos, plantações de trufas podem ajudar a impedir a propagação das chamas.
As trufas são cultivadas na base de azinheiras. As fileiras de árvores ficam bem espaçadas e afastadas da floresta ao redor, com linhas de água passando entre elas. A vegetação no solo ao redor é escassa devido à forma como as trufas se desenvolvem.
“É algo que acontece naturalmente: a eliminação da vegetação do solo porque o fungo ao redor da árvore atua como um herbicida natural”, explicou Martínez de Aragón. “Elas funcionam como ilhas espalhadas pelo que seria a floresta.”
Como parte do negócio, Martínez de Aragón leva turistas para procurar trufas, mostrando como limpar e preparar os fungos. Na sala de degustação, exibe as embalagens usadas para suas trufas, marcadas com o selo “Produto Contra o Fogo”.
“O público precisa saber que, além de as trufas serem muito saborosas e amplamente consumidas, estamos realizando um trabalho muito importante”, disse.
c.2026 The New York Times Company
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