O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo aponta que a distração dos pilotos, fragilidades na cultura de segurança da companhia e falhas de fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) contribuíram para a tragédia que matou 62 pessoas em 9 de agosto de 2024.
As informações foram reveladas pela jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, que teve acesso à minuta do documento enviada a autoridades da França e do Canadá para revisão internacional.
O acidente aconteceu no voo 2283 da Voepass, que saiu de Cascavel (PR) com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos. A aeronave caiu no início da tarde no quintal de uma casa no condomínio Recanto Florido, no bairro Jardim Florido, em Vinhedo. Morreram os 58 passageiros e os quatro tripulantes que estavam a bordo. Nenhum morador da residência atingida ficou ferido.
Acidente causado por um conjunto de fatores
Segundo a reportagem da Folha, o Cenipa conclui que o acidente foi provocado por um conjunto de fatores. Entre eles, estão o que o órgão classifica como “estado de distração” dos pilotos durante o voo, o desrespeito a procedimentos operacionais, a condução inadequada da emergência e uma sequência de falhas ligadas à operação da companhia e à supervisão da agência reguladora.
Relatório aponta distração dos pilotos durante o voo
De acordo com as informações obtidas por Mônica Bergamo, o relatório descreve que os pilotos passaram uma parte significativa do voo envolvidos em conversas informais que não estavam relacionadas à condução técnica da aeronave. Para o Cenipa, isso reduziu a atenção da tripulação em um momento em que o voo já ocorria em ambiente favorável à formação de gelo severo.
A minuta afirma que a perda de foco comprometeu o monitoramento do ambiente externo e também a observação dos alertas acionados na cabine de comando. O documento sustenta ainda que esse cenário favoreceu o que o órgão chama de “cegueira por desatenção” e “surdez por desatenção”, dificultando a percepção da gravidade do problema enfrentado pela aeronave.
Ainda segundo a jornalista, um dos pilotos enfrentava problemas pessoais e esse estado emocional também teria influenciado sua postura durante o voo, desviando a atenção dos problemas operacionais da aeronave.
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Cenipa cita falhas da Voepass e cultura de segurança fragilizada
A minuta do relatório também aponta que a cultura de segurança da Voepass contribuiu para a queda do avião. Conforme as informações reveladas pela Folha de S.Paulo, o Cenipa avalia que havia fragilidades no ambiente operacional da empresa e uma normalização de desvios, o que teria influenciado diretamente o comportamento da tripulação.
Segundo o documento, os pilotos já teriam conhecimento prévio de falhas no sistema de degelo da aeronave antes mesmo da decolagem. Ainda assim, o voo foi mantido, apesar da previsão de condições meteorológicas favoráveis à formação de gelo severo ao longo da rota.
Para o Cenipa, a decisão de prosseguir com o voo sem medidas mitigadoras expôs a aeronave a um cenário de alto risco. O relatório também indica que alertas recorrentes disparados pelo avião teriam sido banalizados dentro da rotina operacional da companhia, reduzindo a percepção de risco pelos pilotos.
Falha no sistema de degelo já era conhecida, diz minuta
Outro ponto destacado na apuração é que o mau funcionamento do sistema de degelo da estrutura do avião já teria sido percebido em voos anteriores ao acidente. No entanto, segundo a minuta obtida pela jornalista Mônica Bergamo, esses registros não foram formalizados de maneira adequada nos diários de bordo.
Na prática, isso teria impedido que os setores técnico e operacional da companhia adotassem medidas como a substituição da aeronave, o replanejamento da rota ou a manutenção corretiva para solucionar a falha.
Com isso, segundo o documento, o ATR 72-500 operou em condições favoráveis à formação de gelo mesmo com o sistema de degelo inoperante. O relatório sustenta que essa combinação teve papel importante na sequência de eventos que terminou com a perda de controle da aeronave.

Pilotos não teriam reconhecido gravidade da situação a tempo
As informações divulgadas pela Folha apontam ainda que, na avaliação do Cenipa, os pilotos não reconheceram em tempo hábil a gravidade da condição enfrentada pela aeronave. Segundo a minuta, eles não solicitaram descida imediata nem declararam emergência antes da queda.
O relatório também indica que houve uma coordenação ineficiente na cabine do avião durante a resposta à emergência. Para o órgão, esse conjunto de fatores comprometeu a capacidade da tripulação de reagir de forma mais assertiva ao acúmulo de gelo e à degradação do desempenho da aeronave.
Relatório também cita falhas de fiscalização da Anac
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) também aparece entre os fatores contribuintes apontados na minuta do Cenipa. De acordo com as informações obtidas por Mônica, a agência realizou auditorias e inspeções na Voepass antes do acidente e identificou não conformidades técnicas e procedimentais relacionadas à manutenção das aeronaves.
O documento menciona ainda a prática recorrente de comunicação informal, ou mesmo ausência de comunicação, sobre falhas operacionais dentro da companhia. Mesmo diante desses sinais, segundo o Cenipa, não houve ações estratégicas suficientes para mitigar e controlar os riscos no ambiente regulado e supervisionado pela Anac.
A agência informou, em nota enviada à Folha de S.Paulo, que não teve acesso ao relatório do Cenipa e, por isso, não poderia comentar o teor do documento. Disse ainda que só irá se posicionar quando o relatório final for oficialmente encaminhado.

Documento ainda passa por revisão internacional
Apesar das informações já reveladas, o relatório final do Cenipa ainda não foi divulgado oficialmente. O documento está em fase de revisão internacional por autoridades da França e do Canadá, como determinam os protocolos de investigação de acidentes aeronáuticos.
A participação dos dois países ocorre porque a aeronave ATR 72-500 foi fabricada pela francesa ATR, enquanto os motores são de origem canadense. Depois dessa etapa, o Cenipa deverá publicar oficialmente as conclusões da investigação técnica.
Em nota, a Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Cenipa, informou que a apuração da ocorrência envolvendo o avião de matrícula PS-VPB continua em andamento e está na fase de revisão final. O órgão reiterou que só se pronuncia oficialmente sobre os resultados da investigação com a publicação do relatório final.
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Acidente em Vinhedo matou 62 pessoas
O acidente da Voepass aconteceu em 9 de agosto de 2024 e foi o mais grave da aviação brasileira desde o desastre da TAM, em 2007. O voo decolou de Cascavel (PR) às 11h56 e seguia para Guarulhos (SP). Segundo dados de monitoramento de voo, o avião começou a perder altitude por volta das 13h21, pouco antes de cair em Vinhedo.
A tragédia matou todas as 62 pessoas a bordo e mobilizou equipes de resgate, forças de segurança e autoridades aeronáuticas. Desde então, o caso é investigado em duas frentes: a apuração técnica do Cenipa e o inquérito da Polícia Federal, que busca identificar se houve crimes e eventual responsabilização de pessoas pela queda.
Enquanto aguardam a conclusão oficial do relatório, familiares das vítimas se preparam para uma nova ação coletiva na Justiça. Em julho deste ano, representantes das famílias informaram que estudam uma ação de responsabilidade civil por danos morais, sem substituir os processos individuais de indenização que já tramitam sob sigilo.
No fim de junho, os familiares também tiveram acesso pela primeira vez à transcrição das conversas registradas na cabine do avião. O material integra o laudo pericial do Instituto Nacional de Criminalística (INC) e embasa a fase final do inquérito conduzido pela Polícia Federal.

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