O avião da Voepass, que caiu em Vinhedo em agosto de 2024, sequer deveria ter decolado, segundo o Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos). Na última quinta-feira (23), o centro apresentou um relatório final que apontou falhas da empresa, com sede Ribeirão Preto. O documento apontou que a Voepass falhou por não ter a cultura de segurança de reportar falhas e também na manutenção dos aviões.
De acordo com o Cenipa, a aeronave da voo 2283 apresentou problemas no limpador de para-brisa, que não estava funcionando. Essa falha deveria ter impedido que o avião decolasse de Cascavel, no Paraná, no dia do acidente, uma vez que havia previsão de chuva durante o voo.
“Por causa do horário que o PS-VPB decolou de Cascavel, 11h58 minutos, não poderia ter sido despachada a aeronave nesse horário em virtude da falha no limpador de para-brisas”, explicou o investigador responsável pelo caso, tenente-coronel Fróes.
O avião da Voepass também havia apresentado falhas no sistema de degelo das asas em um voo no dia anterior à queda. Porém, a tribulação não registrou a ocorrência no diário de bordo.
“Pilotos e mecânicos não relatavam as panes da aeronave no diário de bordo com a finalidade de que essa aeronave pudesse voar no dia seguinte ou após esses relatos”, disse o tenente.
À EPTV Campinas, Rosana Maria Ferreira, viúva do copiloto Humberto de Campos Alencar, afirmou que o marido já vinha relatando problemas relacionados à aeronave.
“Humberto estava na Voepass desde setembro de 2019. Desde o primeiro voo, Huberto relatava problemas na aeronave, a falta de manutenção. Várias vezes, o Humberto fez o relato para os superiores dele por escrito, ai o que eles faziam? Colocavam na gaveta”, disse.
Ela ainda afirmou que não faz sentido a afirmação de que o sistema de degelo não tinha sido acionado. “De jeito nenhum, porque o sistema de degelo não estava funcionando e eles sabiam que não estava funcionando e não era apenas nesse voo, era em todos os outros voos. Eles sabiam, a empresa sabia, o Humberto sabia, todos sabiam”, disse.
Segundo o Cenipa, ao todo 19 fatores contribuíram para a queda do voo 2283:
- Aplicação dos comandos
- Atenção
- Atitude
- Condições meteorológicas adversas
- Cultura do grupo de trabalho
- Cultura organizacional
- Julgamento de pilotagem
- Manutenção da aeronave
- Percepção
- Planejamento de voo
- Processo decisório
- Processos organizacionais
- Supervisão gerencial
- Atuação da ANAC
- Condições de operação da aeronave
- Capacitação e treinamento da tripulação
- Estado emocional
- Influências externas
- Projeto da aeronave/sistemas

Fátima Albuquerque, mãe da vítima Arianne Risso e presidente da Associação dos Familiares, se referiu a tragédia como um crime. “Não foi um acidente, foi um crime. Foi um crime onde as vítimas fomos nós, nossos filhos”, disse.
Segundo Sílvio Monteiro Júnior, especialista em segurança de voo, não existe uma priorização dos fatores contribuintes que foram elencados pelo relatório no Cenipa.
“É importante a gente entender que não existe uma priorização dos fatores contribuintes. Eles elencaram 19 fatores que contribuíram, que eles entendem que contribuíram comprovadamente para a ocorrência do acidente aéreo, mas não existe uma prioridade entre eles”, explicou.
Em sua avaliação pessoal, ele afirmou que dois pontos lhe chamaram mais atenção: a cultura organizacional da Voepass e o conjunto de consciência situacional.
“O primeiro deles é a cultura organizacional, a questão da normalização do desvio, de como a empresa através das pessoas que trabalhavam ali normalizaram procedimentos que não estavam previstos em manuais. O segundo ponto é um conjunto de consciência situacional, tomada de decisão e atitude de comando”, disse.
Vale lembrar que o relatório do Cenipa não aponta culpados, apenas fatores que contribuíram para a queda do avião e recomendações para prevenir novos acidentes.

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Cenipa recomenda revisão da fiscalização da Anac após acidente da Voepass
Ainda onde o Cenipa também recomendou que a Anac revise seus processos internos de fiscalização, gerenciamento de riscos e monitoramento de operadores aéreos. Segundo o centro, auditorias realizadas pela Anac antes da tragédia já haviam apontado uma série de não conformidades na companhia aérea, entre elas fragilidades nos controles de manutenção, liberações técnicas irregulares de aeronaves, danos em componentes do sistema de proteção contra gelo e falhas na supervisão dos serviços de manutenção.
Ainda que não aponte culpados, o relatório final do Cenipa pode ser usado pela Polícia Federal, que também investiga o caso e apura possíveis responsabilidades criminais.
Procurada, a Anac informou que vai fazer uma análise técnica detalhada das recomendações do Cenipa. A previsão é que a agência conclua essa etapa em até quatro meses.
Já a Voepass informou que a queda do avião foi o episódio mais difícil da empresa e que está à disposição para colaborar tanto com o Cenipa quanto com outras autoridades públicas.
A empresa afirmou que sempre trabalhou priorizando a segurança, capacitação e orientação das tribulações, com a atuação sempre pautada em padrões internacionais. A Voepass ainda garantiu que a tripulação do voo que caiu em Vinhedo era experiente, capacitada e devidamente certificada, com mais de 5 mil horas de voo, com treinamentos técnicos e acompanhamentos de saúde atualizados sem qualquer registro prévio de fatores que impedissem a atuação dos funcionários.
*Com informações da EPTV Campinas
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