O ex-chefe do serviço secreto de inteligência do Reino Unido (MI6), Sir Richard Moore, afirmou nesta terça-feira, 11, na revista Fortune, que o principal risco para os CEOs atualmente não está necessariamente em acontecimentos imprevisíveis, mas no impacto acumulado de problemas que as empresas já conhecem. Para ele, a combinação de crises como a pandemia de Covid-19, a guerra na Ucrânia, as tensões envolvendo Irã e China e as disputas comerciais exige que as companhias reforcem sua capacidade de adaptação.
Atualmente, Moore assessora líderes por meio da divisão de Consultoria Global em Risco Político da Teneo e da Sixth Street. Em entrevista à jornalista Diane Brady, ele defendeu que a resiliência deve ganhar espaço nas decisões empresariais diante de um ambiente internacional mais instável.
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“Costumávamos dizer que a cultura devorava a estratégia no café da manhã”, disse. “Acho que agora ouvimos as pessoas dizerem que a resiliência devora a eficiência no café da manhã. É preciso ter essa capacidade de se levantar do chão e seguir em frente”.
Empresas precisam entender as diferenças entre países
Segundo Moore, a globalização também tornou mais complexa a avaliação de riscos. Para ele, empresas que atuam em vários mercados não podem presumir que países de uma mesma região tenham posições semelhantes sobre temas econômicos e geopolíticos.
“As pessoas não se alinham mais tão perfeitamente dentro de um grupo”, disse ele. Moore cita como exemplo as diferenças dentro da União Europeia e da ASEAN em relação à China e a tensão entre Filipinas e chineses no Mar da China Meridional.
Nesse cenário, o executivo questiona se as empresas estão destinando recursos suficientes para compreender individualmente os mercados onde operam. “Vocês estão dedicando os recursos necessários para entender a situação de cada país individualmente?”, perguntou.
Segundo ele, sem esse conhecimento, as companhias não conseguem desenvolver a compreensão necessária para tomar decisões de investimento ou estruturar suas operações em diferentes partes do mundo.
A China também aparece como um dos principais pontos de atenção. Moore alerta que os líderes empresariais não devem interpretar o avanço chinês como um processo necessariamente linear. “Eles claramente enfrentam alguns obstáculos econômicos significativos no momento”, afirmou, ao mesmo tempo em que destacou a atuação de empresas chinesas em áreas como inteligência artificial de código aberto.
Para ele, a forte integração da China à economia mundial torna pouco realista uma estratégia de completo “desacoplamento”, enquanto a “redução de riscos” seria uma abordagem mais compatível com a realidade das empresas globais.
Cenários e confiança como ferramentas de gestão
A experiência de Moore na inteligência britânica influencia também sua forma de lidar com incertezas. Em vez de tentar prever exatamente o que acontecerá, ele defende que empresas trabalhem com diferentes possibilidades.
“Meu trabalho é roubar segredos; não é resolver mistérios”, afirmou. A partir dessa lógica, o executivo recomenda que os conselhos de administração considerem cenários distintos para avaliar como acontecimentos políticos e econômicos podem afetar os negócios.
Para Moore, a preparação também depende da confiança construída antes das crises. Relações duradouras com parceiros internacionais não podem ser estabelecidas apenas quando surge um problema. “Se você não investiu em um relacionamento e uma crise acontece, você está em apuros”, disse.
Dentro das próprias empresas, ele também defende que funcionários tenham liberdade para comunicar problemas aos dirigentes. Se os líderes se tornarem “autoritários” e as pessoas tiverem medo de levar más notícias à direção, alertou, “suas decisões provavelmente não serão as melhores, não é mesmo?”

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