A prática tem nome informal, é assunto em rodas de conversa e virou rotina em capitais brasileiras: carregar na rua um aparelho barato, com pouca coisa instalada, e deixar o telefone principal em casa. É o que se convencionou chamar de “celular do ladrão”, herdeiro direto da antiga carteira falsa que se levava com uma nota pequena e nenhum documento.
A lógica por trás da estratégia mudou junto com o crime. Durante muito tempo, o prejuízo de um assalto se resumia ao valor do aparelho. Hoje, o telefone concentra aplicativos bancários com sessão aberta, e-mail que serve para recuperar senhas de todo o resto, mensagens com códigos de verificação e fotos de documentos. O aparelho deixou de ser o alvo para virar a chave que dá acesso ao patrimônio da vítima, e é essa mudança que explica a popularização de uma tática que, poucos anos atrás, soaria excessiva.
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O que é o celular do ladrão?
Trata-se de um segundo aparelho, geralmente antigo, barato ou já danificado, mantido em uso para as situações em que o risco de assalto é maior: transporte público, deslocamentos a pé, saídas noturnas, grandes eventos e regiões com histórico de ocorrências. O objetivo é mitigar o impacto caso o dispositivo seja roubado.
O aparelho que vai para a rua precisa apenas do essencial para o deslocamento — comunicação básica, mapas e transporte por aplicativo — enquanto tudo que envolve dinheiro, identidade e histórico pessoal permanece em um segundo aparelho que raramente sai de casa.
Por que a estratégia ganhou força no Brasil
Os números ajudam a dimensionar o contexto que produziu esse comportamento. Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 792.284 ocorrências de roubo e furto de celulares em 2025, resultado 7,7% menor que o do ano anterior.
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Outro dado do mesmo levantamento explica por que a lógica do crime se deslocou: o Fórum atribui parte da redução dos roubos ao programa Celular Seguro, do Ministério da Justiça, que teria diminuído a rentabilidade da modalidade ao dificultar o acesso imediato às contas bancárias das vítimas. O impacto sobre o furto seria menor, já que esse crime depende mais da revenda do aparelho do que da exploração dos dados.
Como montar um celular do ladrão
O que faz sentido manter no aparelho isca
O aparelho que circula precisa cumprir sua função sem carregar risco. Um conjunto mínimo costuma incluir aplicativo de mensagens, mapas, transporte por aplicativo e câmera, além da capacidade de fazer chamadas. O critério é perguntar, para cada item instalado, qual seria o prejuízo caso um terceiro tivesse acesso a ele com o telefone desbloqueado.
Uma medida frequentemente esquecida é ativar o PIN do chip, senha solicitada sempre que o cartão SIM é inserido em outro aparelho. Sem ela, o criminoso pode transferir o chip para um telefone próprio e passar a receber os SMS de verificação enviados pelos serviços da vítima, o que abre caminho para redefinir senhas de contas hospedadas em qualquer lugar.
O que deve ficar de fora
Aplicativos de bancos, corretoras, carteiras digitais e cartões de crédito não devem estar instalados no aparelho que vai para a rua, e essa é a regra mais importante do arranjo. O mesmo vale para a conta principal do Google ou da Apple: criar uma conta secundária exclusiva para o aparelho isca impede que o acesso a ele se converta em acesso ao e-mail, aos backups e ao histórico da conta principal.
Também não faz sentido ter fotos de documentos, planilhas com senhas e arquivos de trabalho no aparelho do ladrão. Vale lembrar que aplicativos de mensagem guardam histórico, e uma conversa antiga pode conter dados que o usuário nem se lembra de ter enviado.
Como configurar o aparelho principal
O telefone que fica em casa concentra o que importa e, por isso, precisa das camadas de proteção mais rígidas: bloqueio de tela com senha forte, biometria e autenticação em duas etapas em todos os serviços sensíveis, com preferência por aplicativos autenticadores em vez de SMS.
Aplicativos bancários oferecem senhas próprias e limites de transação configuráveis, e reduzir os valores permitidos para transferências fora do horário comercial diminui o dano potencial mesmo em cenários de acesso indevido.
As limitações da estratégia
A prática reduz danos de ter o celular roubado, mas ela não resolve tudo e cria alguns obstáculos: quase ninguém consegue manter a disciplina de nunca levar o aparelho principal para a rua, e basta uma exceção em um dia de risco para que toda a estratégia se perca. Situações comuns como uma ida rápida ao mercado, uma consulta médica ou uma reunião de trabalho acabam justificando a quebra da regra.
Há também o custo, que não pode ser deixado de lado. Manter dois aparelhos funcionais, com dois chips ou com a transferência frequente de um deles, pode gerar uma despesa recorrente que pode pesar em alguns momentos. Além disso, também há o trabalho de ter dois celulares funcionando ao mesmo tempo.
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Existe ainda o cenário em que o criminoso percebe a diferença. Assaltantes que atuam com frequência conhecem a prática, e há relatos de abordagens em que a vítima é questionada sobre a existência de um segundo aparelho. Por conta disso, o celular do ladrão deve ao menos estar funcional, mas é recomendado que você não coloque sua vida em risco.
Camadas complementares de proteção
A prática funciona melhor combinada com recursos que não dependem de disciplina diária.
O Celular Seguro, programa federal lançado em dezembro de 2023, permite bloquear aparelho, linha e acesso a aplicativos financeiros a partir de um cadastro prévio, com acionamento por pessoas de confiança indicadas pelo usuário. O sistema reunia mais de três milhões de dispositivos cadastrados até 2025, e o cadastro é gratuito.
Tanto o Android quanto o iOS incorporaram recursos específicos contra roubo nos últimos anos. No Android, um conjunto de funções detecta movimentos característicos de subtração do aparelho e bloqueia a tela automaticamente, além de restringir alterações em configurações sensíveis quando o telefone está fora de locais habituais. No iOS, a Proteção contra Dispositivo Roubado exige autenticação biométrica e impõe atraso de uma hora para mudanças críticas quando o aparelho está longe dos locais reconhecidos como habituais. Ambos precisam ser ativados manualmente e permanecem desligados na configuração padrão de muitos aparelhos.
O registro do IMEI, número que identifica o aparelho, facilita o bloqueio junto às operadoras em caso de perda, e anotá-lo previamente evita a busca em um momento de estresse. O código pode ser consultado discando um comando simples no teclado do telefone ou nas configurações do sistema.
Por fim, revisar quais aplicativos permanecem com sessão aberta e quais dispensam autenticação a cada uso é um exercício que costuma revelar exposições esquecidas, e vale tanto para quem adota a estratégia dos dois aparelhos quanto para quem prefere manter apenas um.
Para acompanhar orientações de segurança digital e as mudanças no cenário de crimes envolvendo aparelhos móveis no Brasil, vale acompanhar o TecMundo.
