Cibercriminosos ligados do Irã conseguiram interromper o funcionamento de uma usina de energia britânica durante quatro dias no mês de julho. A ocorrência representa a primeira vez em que invasores associados ao governo iraniano tiveram êxito ao paralisar uma instalação desse tipo no Reino Unido. A informação foi revelada pelo jornal britânico The Telegraph.
O episódio não provocou desabastecimento na rede elétrica nacional nem gerou impactos sentidos pela população, segundo a reportagem. Autoridades britânicas não divulgaram a localização, o nome da central afetada e nem os dias exatos da interrupção em julho, sob a justificativa de preservação da segurança nacional. A unidade atingida opera em pequena escala, perfil comum entre dezenas de usinas a gás espalhadas pelo país que funcionam sob demanda temporária.
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Após o caso, o governo do Reino Unido realizou reuniões com executivos de companhias de energia e enviou orientações técnicas às empresas. A invasão foi reportada ao Centro Nacional de Segurança Cibernética (NCSC), braço público da agência de inteligência britânica GCHQ. O órgão evitou declarações públicas sobre a ação.
Risco de escala e tempo de resposta
O caso provocou debates imediatos sobre o tempo em que a usina permaneceu fora de operação. Para Muhammad Yahya Patel, consultor de segurança cibernética da empresa Huntress, a duração do apagão aponta fragilidades na capacidade de resposta de geradoras de menor porte.
“A importância não é o tamanho da instalação, mas o fato de que um ataque cibernético se transformou em quatro dias de interrupção operacional real. Isso levanta uma questão importante: por que a recuperação levou quatro dias e os operadores menores estão adequadamente preparados para conter e se recuperar desses incidentes?”, questionou ele.
A facilidade de replicação do modelo de invasão em outros pontos da malha energética também entrou no radar do setor.
“A perda de uma única instalação como essa pode ser bem gerenciada e não constitui um risco grave à estabilidade, mas esses ataques costumam ser altamente replicáveis e podem ser implementados em escala”, afirmou Phil Tonkin, diretor de tecnologia de campo da empresa Dragos.
Já a expansão de pequenas unidades descentralizadas no sistema britânico amplia os pontos de vulnerabilidade a invasões externas, identificou o presidente-executivo da Centrii, Rafael Narezzi.
“O que me preocupa neste incidente não é necessariamente o tamanho do gerador de energia que foi afetado, mas quantos outros podem existir por aí. Este incidente específico pode não ter tido consequências para a rede mais ampla, mas o próximo pode ser diferente. O Reino Unido tem milhares de ativos distribuídos que contribuem cada vez mais para a operação do nosso sistema de energia. Individualmente, muitos podem parecer insignificantes. Coletivamente, a resiliência deles importa enormemente”, acrescentou o executivo.
Alerta para serviços essenciais e cautela na autoria
A invasão no Reino Unido coincidiu com ataques digitais que atingiram sistemas de tratamento de água em 12 estados dos Estados Unidos no fim de julho. Na ocasião, as ofensivas causaram perda de pressão nas torneiras e forçaram alertas à população para ferver a água antes do consumo. O FBI atribuiu a ação a agentes cibernéticos maliciosos e fontes do governo norte-americano apontaram conexão com o Irã.
Para o chefe de setor público da empresa de cibersegurança Check Point, Graeme Stewart, o caso britânico consolida uma nova fase de riscos:
“Isso marca uma escalada grave no conflito com o Irã, porque uma ameaça cibernética ligada a um Estado hostil alcançou a infraestrutura de energia do Reino Unido e provocou um desligamento físico de quatro dias. O ponto muito mais sério é o que os invasores demonstraram: a capacidade de entrar na infraestrutura de energia do Reino Unido e pará-la”, alertou.
Apesar dos indícios apontados pelas reportagens e fontes de inteligência ocidentais, o presidente-executivo da empresa Dragos, Robert M. Lee, recomendou cautela técnica antes de uma conclusão formal sobre a autoria, devido ao risco de ações de disfarce conduzidas por outros países.
“As pessoas que tiram conclusões precipitadas sobre o Irã estar por trás do ataque no Reino Unido ou dos ataques à água nos Estados Unidos são muito suscetíveis a operações de bandeira falsa feitas por outros países. É provavelmente o Irã. Mas ‘provavelmente’ não é suficiente na geopolítica. Assuntos sérios exigem trabalho sério mesmo quando o viés de confirmação diz que é óbvio. Deixem os profissionais de inteligência fazerem o trabalho deles”, concluiu Lee, em postagem no LinkedIn.
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