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Após prisão, ‘Dr. Frankenstein’ da China acha que o tempo está a seu favor agora

por SampaNews 15 de fevereiro de 2026
15 de fevereiro de 2026
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He Jiankui

PEQUIM — Por criar os primeiros bebês geneticamente editados do mundo, He Jiankui passou a ser tratado como o “Dr. Frankenstein” chinês. Ele foi condenado na China a três anos de prisão, acusado de enganar autoridades médicas.

Mas, à medida que a China acelera suas ambições de se tornar uma superpotência em biotecnologia, o pesquisador desacreditado, hoje com 41 anos, não foi silenciado nem empurrado para a obscuridade. Em vez disso, vive e fala abertamente em sua casa em um polo de pesquisa apoiado pelo governo ao norte de Pequim, vangloriando-se de seu trabalho e insistindo que seu país está pronto para aceitá-lo novamente.

Ele não pode viajar para o exterior porque seu passaporte foi apreendido, mas tornou-se uma figura pequena, porém vocal, no cenário da biotecnologia chinesa — nem silenciado, nem totalmente reabilitado. A pergunta é: por quê?

— Para um país que domina a censura e o controle, eles o estão deixando curiosamente livre —, afirma Benjamin Hurlbut, professor associado do departamento de ciências da vida da Universidade do Arizona, que conhece He há anos.— Em um período de crescente tensão entre a China e o Ocidente, num momento em que a China realmente está avançando de forma significativa em tecnologia —, acrescenta, — He não é visto como um passivo, mas aparentemente como um ativo em potencial.

Em entrevista em seu amplo apartamento — fornecido, junto com um segurança, por um patrocinador financeiro que ele se recusou a identificar —, o cientista chinês afirmou que há uma demanda crescente por pesquisadores como ele, dispostos a ultrapassar limites.

Ele disse ter recebido recentemente uma oferta de cargo de uma academia médica financiada pelo governo em Shenzhen, a cidade do sul da China vizinha a Hong Kong, onde trabalhava até sua prisão, em 2019.

Seu experimento de 2018, no qual editou embriões e deu origem a gêmeas — e posteriormente a um terceiro bebê de outro casal —, causou indignação mundial, pois ainda se sabe muito pouco sobre a segurança e os efeitos de longo prazo da alteração genética em embriões. O caso também abriu o que muitos viram como uma caixa de Pandora rumo aos “bebês sob medida” ou à eugenia.

Mas, diferentemente de bilionários do Vale do Silício que buscam formas de gerar bebês mais inteligentes, He — que afirma que seu experimento tinha como objetivo criar bebês resistentes ao HIV — insiste que seu trabalho visa apenas prevenir doenças.

— Se alguém usar isso para aumentar QI, coloquem o cientista na cadeia —, diz.

Ele afirma ter retomado suas pesquisas em edição genética em um laboratório em Pequim, concentrando-se em formas de eliminar a doença de Alzheimer, da qual sua mãe sofre, e a distrofia muscular de Duchenne (DMD), uma doença neuromuscular hereditária. Acrescenta que está experimentando apenas com camundongos, não com humanos.

He não demonstra arrependimento em relação ao trabalho passado, dizendo que apenas estava à frente de seu tempo.

— As pessoas ainda não estavam prontas para aceitar o que eu estava fazendo.

Segundo ele, isso está mudando. Como exemplo, citou uma pesquisa de opinião da Universidade Sun Yat-sen, em Guangzhou, que mostrou amplo apoio público na China à edição genética para prevenir doenças — embora não para aumentar o QI —, além de novas regulamentações do governo chinês sobre pesquisas em “novas tecnologias biomédicas”.

Ele acredita que o esforço da China para se tornar líder mundial em ciência e tecnologia significa que é apenas uma questão de tempo até ser reconhecido como um pioneiro da edição genética, ao menos dentro do país.

O trabalho de He com embriões humanos, usando a técnica conhecida como CRISPR-Cas9, não era tecnicamente muito difícil, disse Hurlbut. Mas a decisão de implantá-los em mulheres para gerar bebês o transformou em um “centro de gravidade para grandes questões morais e geopolíticas que passaram a orbitar em torno dele”.

Embora seja reservado sobre suas atuais afiliações, He fala abertamente sobre como a biotecnologia chinesa estaria avançando mais rápido que a dos Estados Unidos, que ele vê como excessivamente amarrada a comitês de ética, reguladores minuciosos e ao medo do desconhecido.

— A edição genética chinesa vai dominar o mundo, assim como os veículos elétricos chineses já fizeram —, prevê.

Segundo ele, a enxurrada de acusações de cientistas americanos de que seu trabalho em Shenzhen violou a ética médica mostra por que os Estados Unidos perderão espaço para a China na biomedicina

O ar de mistério em torno de He se estende à sua vida pessoal. No início de 2024, ele se casou com Cathy Tie, uma empreendedora de biotecnologia sino-canadense, mas o casal se separou depois que ela teve sua entrada na China negada, em maio.

Tie, que dirige uma startup chamada Manhattan Genomics — que afirma trabalhar no desenvolvimento de “terapias de correção genética seguras e éticas” — compartilha da visão de He sobre o potencial da China para liderar o futuro dessa tecnologia.

Ela diz que os Estados Unidos ainda têm vantagem, mas acrescenta:

— A China historicamente executa tecnologias de fronteira muito rapidamente, especialmente na medicina. Eles se beneficiam de menos regulamentação.

Ela se recusou a comentar por que foi impedida de entrar na China ou a explicar uma mensagem enigmática que publicou na rede social X sobre o intenso escrutínio que, segundo ela, o setor enfrenta:

—A China acha que eu sou uma espiã da CIA e os EUA acham que eu sou uma espiã do Partido Comunista Chinês.

O principal líder da China, Xi Jinping, estabeleceu como meta a liderança global em ciência e tecnologia até 2049, centenário da tomada do poder pelo Partido Comunista. O governo está investindo pesadamente para se tornar líder no que chama de “tecnologia de manipulação genética”.

Em um discurso de 2019 à Academia Chinesa de Ciências, Xi decretou que “não devemos deixar a burocracia amarrar as mãos e os pés dos cientistas, nem permitir que relatórios e aprovações intermináveis atrasem a energia dos cientistas”.

Novas regulamentações emitidas em setembro pelo Conselho de Estado, o gabinete chinês, proíbem a modificação do DNA em células reprodutivas humanas, como espermatozoides, óvulos ou embriões — exatamente o tipo de pesquisa que He realizou antes de sua prisão em Shenzhen.

No entanto, elas também parecem deixar espaço para esse tipo de trabalho, ao afirmar que o departamento de saúde do Conselho de Estado supervisionará todas as pesquisas que “manipulem células reprodutivas humanas, zigotos ou embriões e os implantem no corpo humano para permitir seu desenvolvimento”.

He disse que as novas regras são “ambíguas” quanto à possibilidade de, no futuro, permitir a criação de um bebê geneticamente editado, mas ainda assim representam “um sinal de que a China está se abrindo nesse campo”.

Outro possível sinal disso é que cientistas chineses que, em 2019, assinaram uma carta aberta denunciando o trabalho de He agora permanecem em silêncio. Mensagens enviadas pelo The New York Times a 20 dos signatários, perguntando se mantinham suas críticas, não receberam resposta.

Hurlbut afirma que as ambições científicas da China podem explicar por que He “não está sendo tratado como um ex-presidiário” e tem liberdade para expressar suas visões otimistas.

He diz estar “muito orgulhoso” de ter criado “bebês saudáveis e bonitos” em Shenzhen — as gêmeas, que ele chama de Lulu e Nana, e uma terceira menina, Amy — para dois casais. Em todos os casos, o pai era portador do HIV.

O paradeiro atual das meninas é mantido em segredo, e seu estado de saúde não foi verificado de forma independente.

— Não vou colocá-las numa jaula para que as pessoas colham seu sangue e as dissecem—, afirma He. — Elas são humanas, então não as tratem como ratos.

Pelo menos algumas forças influentes dentro do establishment chinês já demonstravam simpatia por seu trabalho em novembro de 2018, quando a notícia dos primeiros bebês geneticamente editados veio a público. O People’s Daily, jornal oficial do Partido Comunista, publicou uma matéria descrevendo o nascimento das gêmeas a partir de um embrião geneticamente alterado por He usando CRISPR.

O jornal celebrou o nascimento como “um avanço histórico para a China na aplicação da tecnologia de edição genética para prevenção de doenças”.

O People’s Daily rapidamente apagou o artigo, publicado na véspera de uma conferência internacional sobre edição do genoma em Hong Kong, quando participantes do evento reagiram com fúria à revelação do que He havia feito.

A comoção na conferência levou alguns a chamá-lo de Dr. Frankenstein da China. Ele disse que o apelido era injusto porque, ao contrário do cientista fictício e da criatura que criou, “nunca matou ninguém” e apenas “fez pais muito felizes”.

Embora inicialmente irritado com o apelido, hoje ele o abraça. Durante um período, chegou a usá-lo na biografia de seu perfil na rede social X.

— Agora eu gosto do nome, porque mostra que “eu tenho um superpoder” — conta.

c.2026 The New York Times Company

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