
O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, avaliou que o impacto das tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi subestimado pelo Brasil e por outros países.
Em entrevista ao UOL News, o diplomata afirmou que o chamado “tarifaço” não representa apenas um problema comercial pontual, mas um movimento ideológico que coloca em xeque o sistema multilateral construído ao longo do século 20.
“Talvez tenhamos dado uma importância menor do que devíamos ao tarifaço. Além dos problemas específicos para o Brasil, que evidentemente são muito importantes, a ideologia por trás dele é muito grave: o fim da ideia de ter um comércio multilateral”, afirmou Amorim.
Segundo ele, as barreiras impostas por Washington, especialmente sobre aço e alumínio, introduzem um grau de incerteza que afeta cadeias produtivas e relações entre grandes blocos econômicos.
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Para o ex-chanceler, o movimento vai além da adoção de tarifas. “Ele não só aplicou as tarifas, mas apresentou uma ideologia de que isso [o multilateralismo] acabou. Isso é dito explicitamente no indicativo da Casa Branca. Vamos voltar ao sistema de reciprocidade que era o dos anos 30, que deu no que deu. Isso já é uma coisa gravíssima”, declarou. Amorim lembrou que esse modelo histórico esteve associado a tensões comerciais e crises profundas.
O assessor destacou que a erosão das regras multilaterais torna o ambiente internacional mais difícil de prever, inclusive para países como o Brasil, que tradicionalmente operaram dentro desse arcabouço.
“Obviamente eu não estou fazendo um pronunciamento oficial do governo. O presidente Lula tem falado a respeito. Mas também é importante, como análise, mostrar que isso é uma situação que nunca enfrentamos antes”, disse.
Questionado sobre a possibilidade de mediação entre Estados Unidos e União Europeia no conflito comercial, Amorim foi cético. “Eu não vejo mediação possível entre os EUA e a União Europeia. Estaria além de qualquer pretensão da nossa parte”, disse. Para o diplomata, a tendência é que os próprios EUA percebam os custos da estratégia: “Eles sairão perdendo, porque haverá uma tendência a procurar outros mercados e buscar o equilíbrio que já havia”.
Amorim também relacionou a agenda comercial à crescente instabilidade geopolítica na América do Sul. Segundo ele, o Brasil não pode ignorar ações recentes dos EUA na região. “O Brasil não pode, mesmo que consiga resolver todos os seus problemas, que são complexos, com os EUA, ficar indiferente ao ataque à Venezuela e à ameaça de ataque a outros países sul-americanos, alguns deles com fronteira conosco”, afirmou.
Na entrevista, o assessor classificou a invasão da Venezuela como um marco negativo para a região. “O que nos deixou realmente em uma situação muito dramática foi a invasão da Venezuela. Jamais aconteceu a invasão de um país sul-americano pelos EUA ou por outro país qualquer”, disse.
Para Amorim, a combinação de tarifas, enfraquecimento institucional e uso da força cria um cenário global para o qual os países não estavam preparados. “É muito difícil saber como viveremos nesse mundo. Nós não fomos preparados para isso”, concluiu.
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