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Análise: Como o choque de escassez que já assola a Ásia pode se espalhar pelo mundo

por SampaNews 20 de abril de 2026
20 de abril de 2026
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HO CHI MINH CITY, Vietnã — Quando a guerra no Irã começou, em 28 de fevereiro, a expectativa na Ásia era de um impacto sério, mas gradual, com a perda de acesso a uma fatia relevante do petróleo e do gás do mundo. Na prática, o efeito econômico e social do conflito veio mais rápido e mais forte do que autoridades e analistas imaginavam.

Países da Ásia-Pacífico estão lidando com choques repentinos e difíceis de administrar. Em privado, muita gente compara a escala e o grau de desorganização da crise ao que se viu na pandemia de covid-19.

Mesmo que um acordo de paz saia logo, o cenário para a região — que há décadas é motor do crescimento global — inclui, pelo menos nos próximos meses, voos cancelados, alimentos mais caros, pausas em linhas de produção, atrasos em entregas e prateleiras vazias de produtos que pareciam garantidos no mundo inteiro: sacolinhas plásticas, miojo, vacinas, seringas, batom, microchips, roupas esportivas.

Segundo autoridades e especialistas, se o estrangulamento do tráfego comercial no Oriente Médio durar só algumas semanas a mais, e a incerteza persistir, a falta de produtos pode empurrar vários países para ondas de protestos e, depois, recessão.

Empresas de todo tipo estão à beira da quebra. Governos se endividam pesado para tentar segurar a inflação. Nos cenários mais duros traçados pela ONU e por outros organismos, milhões de pessoas na Ásia podem voltar à pobreza até o fim do ano.

“Os impactos são muito rápidos e muito profundos”, diz Phillip Cornell, pesquisador sênior do Global Energy Center, do Atlantic Council, baseado no Sri Lanka. “Só em termos de magnitude, é algo realmente muito, muito grande.”

Historicamente, escassez de insumos costuma liberar o pior tanto da psicologia humana quanto do capitalismo. O FMI vem alertando que a economia global está desacelerando quase em todo lugar porque cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo — além de subprodutos essenciais — está fora do mercado desde o início da guerra. Mesmo que o Estreito de Hormuz fosse desbloqueado amanhã, levaria anos para que a produção e a logística de petróleo e gás voltassem ao nível “gordo” do pré-guerra.

Um mural em Teerã, neste mês, ilustrou a determinação do Irã em manter o controle sobre o Estreito de Hormuz. Crédito: Arash Khamooshi para The New York Times

Os países mais ricos, como a China, sentem menos a pancada no curto prazo, graças a maiores reservas de combustível e espaço no orçamento. Mas esse colchão não é eterno — nem se aplica a todos. O resto da Ásia, sem contar a China, responde por uma fatia da economia global comparável à dos Estados Unidos ou da Europa. E muitos desses países estão em situação pior do que deixam transparecer.

Em conversas com repórteres, agricultores no Vietnã, operários na Índia, donos de pousadas no Sri Lanka, motoristas nas Filipinas e executivos em Hong Kong e Cingapura mostraram mais preocupação do que muitos políticos da região, que insistem num discurso de “tudo sob controle” bem distante do corre-corre nos bastidores.

Moinhos de arroz no Vietnã reduziram a produção à medida que os custos de eletricidade dispararam e os agricultores passaram a enfrentar a alta nos preços de combustível e fertilizantes. Crédito: Linh Pham para The New York Times

Três pilares da estabilidade asiática — transporte, indústria e mobilidade social — estão sendo atingidos ao mesmo tempo.

Transporte em colapso

A guerra no Irã, iniciada pelos Estados Unidos e Israel em 28 de fevereiro, travou em poucas horas caminhões, navios e aviões numa região conhecida pelo movimento constante em terra, no ar e no mar.

O setor aéreo virou o símbolo mais visível da virada de mão no transporte asiático.

Em março, mais de 92 mil voos foram cancelados no mundo, o dobro do padrão anterior à guerra, com a maior parte desse salto concentrada em rotas ligadas à Ásia-Pacífico.

Companhias que cruzam o Oriente Médio — onde vivem e trabalham cerca de 24 milhões de migrantes do sul e do sudeste asiático — suspenderam de imediato voos para Dubai e outros hubs do Golfo. Com o preço do querosene praticamente dobrando e o risco de desabastecimento, as empresas vêm cortando rotas “sem data para voltar”.

Qantas, Air New Zealand, Lion Air (Indonésia), VietJet, AirAsia, Air India e Cathay Pacific estão entre as que reduziram malha. A malaia Batik Air foi ainda mais longe: enxugou 35% dos voos só neste mês para tentar evitar a falência.

Shukor Yusof, da consultoria Endau Analytics, em Cingapura, calcula que o tráfego aéreo na região já encolheu em cerca de um terço. Companhias pequenas acumulam prejuízos de milhões de dólares por semana. As grandes, mais capitalizadas, provavelmente sobreviverão. Já as low-cost, que dependem mais de comprar combustível no mercado à vista, tendem a encolher, se fundir ou desaparecer.

Indústria travada

Boa parte das indústrias de exportação de maior sucesso na Ásia depende de muita energia — e de insumos vindos do Oriente Médio. Sete semanas depois do início da guerra, os estoques estão no limite.

Cortes na produção industrial se multiplicam e expõem fragilidades que quase ninguém olhava de perto.

A produção de cobre e níquel, por exemplo, exige temperaturas altíssimas obtidas com gás natural e também usa enxofre, subproduto da queima de combustíveis fósseis. Os dois estão em falta, e várias processadoras de níquel na Indonésia já reduziram produção em pelo menos 10%.

Poliéster e náilon também vêm do petróleo. Nos polos têxteis de Bangladesh, como Gazipur e Ashulia — onde são produzidas peças para Walmart, Zara e Uniqlo —, interrupções graves na produção e nos cronogramas de exportação viraram regra e tendem a piorar.

“A pressão que a gente está enfrentando agora vai ficar muito difícil de administrar se o fornecimento de gás e combustível não voltar ao normal”, diz Abdullah Hil Nakib, vice-diretor-geral do grupo de confecções TEAM. “Já estamos vendo nossos insumos subirem de preço. Hoje, o fio praticamente dobrou de valor.”

Nos segmentos mais avançados de manufatura, a tensão aumenta ainda mais. O hélio, gás usado na produção de semicondutores, é outro gargalo. O Catar, responsável por quase um terço da oferta global, teve de parar a produção em 2 de março depois de ataques iranianos a suas plantas de gás.

Os preços dispararam, e alguns fabricantes de chips na Ásia estão desacelerando a produção e buscando fornecedores alternativos.

Um gargalo puxa o outro. Sem petroquímico suficiente para produzir embalagens plásticas, menos cosméticos coreanos chegam às lojas. Falta de fertilizante ameaça a safra de arroz no Vietnã. Pecuaristas na Austrália, conhecida pelo consumo de carne bovina, já falam em risco de falta de carne vermelha por causa de frigoríficos parados e caminhoneiros sem trabalho.

Gente no aperto

Antes do conflito, projeções da ONU apontavam que a maior parte da nova classe média global na próxima década nasceria na Ásia.

Na semana passada, um relatório das Nações Unidas estimou que 8,8 milhões de pessoas na Ásia e no Pacífico correm o risco de cair na pobreza por causa da guerra, dependendo de quanto tempo o conflito dure. A maior parte — algo como 5 milhões — estaria no Irã. Mas, numa região em que a maioria trabalha na informalidade e não conta com uma rede forte de proteção social, os efeitos já começam a se acumular em outras frentes.

“A escala e a velocidade com que o impacto chegou à Ásia e ao Pacífico foram muito maiores do que se imaginava”, afirma Kanni Wignaraja, secretária-geral assistente da ONU e diretora regional do PNUD para Ásia e Pacífico.

A expansão da pobreza, ela nota, tende a se misturar com outros problemas: remédios e vacinas essenciais que deixam de chegar aos mais vulneráveis; escolas e universidades com dificuldade de manter alunos em sala de aula; aumento da poluição com a volta em peso da queima de carvão para gerar energia.

Na Índia, complexos industriais inteiros estão parados há semanas por falta de combustível. Sem emprego nas cidades, muitos trabalhadores estão voltando para a roça, para colher trigo. Remédios básicos, como paracetamol e alguns antibióticos, já ficaram mais caros.

O relatório da ONU calcula que a guerra pode custar à Ásia e ao Pacífico entre US$ 97 bilhões e US$ 299 bilhões — algo entre 0,3% e 0,8% do PIB da região.

Na vida real, a conta geralmente começa com comida mais cara e menos trabalho.

“Você perde renda e, ao mesmo tempo, paga mais”, resume Wignaraja.

No norte das Filipinas, região que produz a maior parte dos legumes de clima frio do país, como repolho e brócolis, a escassez nasce do desperdício: colheitas prontas estão apodrecendo em campos férteis porque os produtores não têm dinheiro para bancar o transporte até os mercados.

Os estragos da guerra, tão rápidos e tão profundos na Ásia-Pacífico, não devem ser fáceis de conter. Mesmo que Estados Unidos e Irã fechem uma paz duradoura, a combinação de escassez e inflação já ganhou inércia e está em movimento.

“Você já viu tsunamis — eles atravessam o oceano muito, muito rápido”, diz Cornell, do Atlantic Council. “É chocante ver o quanto os formuladores de política nos EUA acham que estão protegidos disso.”

c.2026 The New York Times Company

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