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Análise: Idealismo de “mudar o mundo” está morrendo no Vale do Silício e fará falta

por SampaNews 26 de maio de 2026
26 de maio de 2026
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Durante o boom das empresas ponto com no fim dos anos 1990, eu editava em San Francisco uma revista de notícias chamada The Industry Standard, que tanto vivia quanto registrava o nascimento da economia da internet. Pela cidade, havia um entusiasmo no ar, alimentado por uma crença idealista de que a internet emergente daria poder às pessoas de formas inimagináveis e tornaria o mundo um lugar melhor.

Sabíamos que era um momento de bolha e que aqueles ideais elevados carregavam contradições que acabariam nos trazendo de volta à realidade. Mas, na revista — e nas festas de sexta-feira lotadas e regadas a bebida que organizávamos em nosso terraço — comemorávamos fazer parte da revolução da internet, confiantes de que estávamos do lado certo da história.

Leia também: Com namorada ‘fã de Trump’, Sergey Brin, do Google, dá guinada à direita

Hoje, o tecno-otimismo efervescente e influenciado pela contracultura daquela época, que definiu a indústria da internet durante boa parte de 30 anos, está desaparecendo rapidamente. Em parte, é vítima de suas próprias promessas não cumpridas. Mas também é uma vítima lamentável das guerras políticas do país.

Agora, virou moda nos círculos de tecnologia tratar o antigo idealismo como algo ingênuo e autocentrado. O grupo influente de executivos de tecnologia de direita que ascendeu ao poder no segundo governo Trump o trata como algo ainda pior: uma manifestação da “esquerda radical woke”, como o presidente declarou há pouco tempo ao criticar a empresa de inteligência artificial Anthropic.

Eles defendem uma versão muito diferente de tecno-otimismo, que abandona valores humanistas inclusivos em favor de um nacionalismo militarizado e de uma visão duramente darwinista da competição capitalista.

Ainda assim, a ideia de que a tecnologia pode nos ajudar a “mudar o mundo”, como dizia o antigo mantra, está longe de ser algo de esquerda. Pelo contrário, a cultura da internet sempre foi uma mistura com forte influência libertária que celebra liberdade individual, tolerância social e fortalecimento coletivo por meio da tecnologia e dos mercados livres.

Em sua melhor versão, é um espaço amplo de ideias esperançosas sobre o futuro e um farol para pensadores criativos de todos os tipos. Seu lado mais positivo faz muita falta hoje, em meio às conversas frequentemente sombrias sobre o impacto da IA.

Vale lembrar que a cultura criativa e espontânea de San Francisco nos anos 1990 foi o laboratório de uma safra extraordinariamente rica de inovações.

Na revista Wired, o cofundador Louis Rossetto pregava nas páginas da publicação um evangelho libertário da revolução tecnológica, enquanto um grupo improvável de jovens escritores e programadores praticamente inventava o site como o conhecemos hoje — incluindo o ainda onipresente banner publicitário.

Craig Newmark, um jovem programador socialmente desajeitado de Nova Jersey, acabou mergulhando no cenário inicial das festas de tecnologia, onde as pessoas experimentavam ideias como realidade virtual, e queria compartilhar dicas; acabaria criando um novo tipo de mercado comunitário e a ideia de “economia do compartilhamento”.

O movimento de software de código aberto, em parte um projeto político para proteger a liberdade de experimentar e impedir que oligopólios corporativos sufocassem a inovação, se tornaria um dos pilares da indústria de tecnologia.

Foi no terraço da Industry Standard que um jovem entusiasta de tecnologia de Nebraska chamado Ev Williams se reuniu com colegas e decidiu que sua startup deveria focar em uma ferramenta que chamariam de Blogger. Era um precursor das redes sociais, e Williams depois seria cofundador do Twitter.

Um princípio central ao longo desse período era que os empreendedores da Nova Economia poderiam prosperar financeiramente e também gerar impacto positivo. Desde seus primeiros dias, o princípio orientador do Google era “não seja mau”, mesmo enquanto construía uma máquina de fazer dinheiro para entrar para a história. Era comum startups terem uma missão além do sucesso financeiro.

Não foi por acaso que os fundadores do Google, Larry Page e Sergey Brin, começaram a frequentar o Burning Man, o famoso evento anual realizado no deserto de Nevada, antes mesmo de o projeto de pesquisa deles em Stanford virar uma empresa.

Os valores compartilhados da era da internet, brilhantemente celebrados pela Wired, podem ser entendidos de forma útil como o “Pacto Burning Man”.

Assim como o evento reunia campistas alternativos e bilionários para construir uma cidade utópica no deserto, a Nova Economia impulsionada pela internet também traria organizações e comunidades menos hierárquicas, além de formas de trabalho mais inovadoras, satisfatórias e produtivas.

Politicamente, a indústria era igualmente liberal e libertária, talvez representada da melhor forma pela Electronic Frontier Foundation, criada para proteger os habitantes do ciberespaço de um governo invasivo. Era uma questão de liberdade: “tirem as mãos da nossa internet” era o grito de mobilização, ecoando antigas lutas por direitos civis.

Esse pacto começou a se desfazer nos anos 2010, quando os pequenos insurgentes dos primeiros tempos se transformaram em gigantes globais com poder e influência incalculáveis.

As redes sociais passaram a recompensar conflito em vez de conexão comunitária, e a confiança das pessoas na tecnologia se desgastou à medida que as grandes plataformas se tornaram máquinas de desinformação e ferramentas de manipulação política.

Funcionários jovens mergulharam na política progressista e no movimento por justiça social, e empresas ávidas por talentos passaram a atender uma lista crescente de demandas políticas vindas da esquerda.

Então vieram os abalos da era da covid, que destruíram o frágil consenso — ruptura simbolizada por Elon Musk, que era entusiasta do Burning Man ao mesmo tempo em que se transformava em um crítico feroz de muitos dos valores que o evento representava.

Agora, uma nova versão do tecno-otimismo está em ascensão, talvez mais bem sintetizada em um ensaio de 2023 de Marc Andreessen. Quando o conheci em meados dos anos 1990, Andreessen era um idealista da internet alegre e otimista; hoje, está entre os investidores de risco mais ricos do mundo e abandonou suas antigas posições liberais.

Seu “Manifesto Tecno-Otimista” afirma que o tecnocapitalismo de livre mercado é uma máquina milagrosa capaz de resolver todos os problemas, desde que todos trabalhem duro e eliminem as ideias do “Inimigo”, como “ética em tecnologia” e “confiança e segurança”.

No último ano, sob Trump, essa ideologia evoluiu para o apoio ao tecnocapitalismo apoiado pelo governo e ao nacionalismo “Estados Unidos em primeiro lugar”, com criptomoedas privadas e a busca desregulada pela inteligência artificial no centro desse projeto.

O clima em San Francisco já mudou para refletir essa visão de mundo. Empresas de tecnologia abandonaram rapidamente seus antes orgulhosos compromissos com diversidade e defesa dos imigrantes após a eleição de 2024 e aceitaram silenciosamente os ataques de Trump a temas antes considerados intocáveis, como ensino superior, livre comércio e Estado de Direito.

Tecnologia militar, por muito tempo evitada no universo das startups, agora é o setor mais disputado por investidores de risco fora da IA. Os “builders” (“construtores”), termo criado para exaltar líderes de startups com fins lucrativos enquanto diminui outras iniciativas, viraram os novos heróis.

Trae Stephens, cofundador da startup de armamentos Anduril Industries e protegido do investidor e provocador de extrema direita Peter Thiel, fez recentemente um discurso em Washington sobre a necessidade de investimento “patriótico” para que os Estados Unidos consigam fazer as “coisas difíceis”, como construir data centers, foguetes e usinas nucleares rápido o suficiente para superar os chineses.

Mas esse conjunto de ideias sobre como a tecnologia poderia mudar o mundo para melhor não tem o mesmo apelo, seja como sistema coletivo de valores ou como roteiro para o sucesso pessoal.

Em San Francisco, epicentro do boom de IA, a população jovem agora cresce apenas de forma tímida após uma forte queda durante a pandemia — um contraste marcante com a chegada de dezenas de milhares de pessoas na faixa dos 20 e 30 anos durante o boom das ponto com e depois durante a ascensão dos smartphones.

Empresas de IA estão contratando, mas não tão rapidamente quanto os campeões da era da internet estão cortando vagas; o emprego em tecnologia na cidade continua bem abaixo do pico. O dinheiro está inundando o setor, mas grande parte dele vai para poder computacional, não para pessoas.

Enquanto isso, as duas tradicionais escolas de arte de São Francisco fecharam as portas, vítimas dos altos custos, do apoio limitado dos magnatas locais e da falta de perspectivas profissionais para potenciais alunos. Quinze companhias de teatro encerraram atividades. Não está claro como alguém que não seja um superastro da tecnologia conseguiria participar da corrida da IA.

Quando caminho hoje pelas ruas de SoMa e do distrito financeiro, as calçadas continuam surpreendentemente vazias na maior parte dos dias em comparação com o período anterior à pandemia.

Os empreendedores que encontro são mais jovens e mais obcecados por dinheiro do que nunca, consumidos tanto pela ansiedade com captação de recursos, competição e incertezas da IA quanto pelo entusiasmo com o futuro. Mesmo entre adolescentes e universitários, sucesso financeiro parece ser o que mais importa.

No mínimo, as elites de tecnologia pró-Trump fizeram um péssimo trabalho vendendo a ideia de que a IA — e o progresso tecnológico em geral — será uma bênção para todos nós. Executivos de destaque, incluindo Elon Musk e Mark Zuckerberg, da Meta, estão entre as figuras públicas menos populares dos Estados Unidos. Pesquisas de opinião mostram pouca confiança na indústria de tecnologia e medo generalizado sobre o que a inteligência artificial trará — inclusive entre jovens em ascensão.

Essa rejeição, para quem está do outro lado dela, é interpretada de forma equivocada como um problema de comunicação — algo que Trae Stephens propôs resolver comprando a Wired. A sugestão recebeu inúmeros elogios de seguidores no X, que compartilharam sua queixa de que a revista havia se tornado crítica demais em relação à indústria e seus líderes.

É revelador que esse grupo ainda deseje a autenticidade e a credibilidade da Wired, forjadas no idealismo de um período anterior. Eles parecem não perceber que sua influência nasce exatamente dos valores que estão tão determinados a ridicularizar.

Sua energia seria mais bem empregada refletindo de forma mais ampla — e menos ideológica — sobre o impacto de seus projetos na sociedade. Como vimos claramente na era da internet, acreditar nos benefícios do progresso tecnológico não precisa ser uma questão partidária.

Nem tentar fazer o que é certo para a humanidade impede o sucesso empresarial: basta perguntar a Craig Newmark, cujo Craigslist (do qual ele ainda mantém grande parte da propriedade) acabou gerando uma fortuna gigantesca.

É verdade que muitas das aspirações grandiosas do passado acabaram sendo discurso vazio; os gigantes da internet, de fato, provavelmente causaram tanto dano social quanto benefícios. Ainda assim, é triste ver isso sendo usado como prova de que apenas a busca interessada pela riqueza financeira pode servir de princípio orientador do progresso tecnológico.

A empresa de capital de risco de Andreessen, que hoje administra mais de US$ 90 bilhões em ativos, tornou-se a maior doadora política dos Estados Unidos neste ciclo eleitoral, gastando mais de US$ 115 milhões até agora nas eleições legislativas enquanto busca vantagens para seus investimentos em criptomoedas e IA. Não há nada de especialmente empreendedor ou inspirador nisso.

A cultura idealista, ambiciosa e alegre que nos deu a internet pode ser tratada como fraca e ingênua por líderes de tecnologia alinhados a Trump e focados em uma agenda estreita de desregulação e fortalecimento militar. Mas, mesmo hoje, acreditar que podemos — e devemos — direcionar intencionalmente a tecnologia para beneficiar toda a sociedade não é o problema da cultura do Vale do Silício. É parte do que ela tem de melhor.

As opiniões expressas nos artigos de comentário do Fortune.com pertencem exclusivamente a seus autores e não refletem necessariamente as opiniões e crenças da Fortune.

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