
BERLIM — O líder supremo do Irã pode estar morto, mas haverá outro. Seus comandantes militares mortos serão substituídos. Um sistema de governo construído ao longo de 47 anos não vai se desintegrar facilmente apenas com poder aéreo. O Irã mantém capacidade de reagir aos ataques aéreos dos EUA e de Israel, e a trajetória da guerra continua incerta.
Mas a República Islâmica, já enfraquecida e impopular, agora está ainda mais diminuída, com seu poder interno e regional em um dos pontos mais baixos desde que seus líderes assumiram o controle na revolução que derrubou o xá apoiado pelos EUA, em 1978-79.
Como a CIA rastreou os líderes do Irã — e abriu caminho para o ataque de Israel
A morte do líder supremo do Irã e de outros altos funcionários iranianos ocorreu após uma intensa troca de informações de inteligência entre Estados Unidos e Israel, segundo pessoas familiarizadas com a operação
EUA, Israel e países do Golfo registram mortos e feridos em contra-ataques do Irã
Três militares americanos foram mortos em combate, informou o Pentágono. Pelo menos nove pessoas morreram em uma cidade israelense perto de Jerusalém, enquanto EUA e Israel retomavam os ataques ao Irã
Mesmo que o regime não caia — o que continua sendo o objetivo declarado do presidente Donald Trump —, esse ataque massivo provavelmente terá consequências estratégicas no Oriente Médio comparáveis ao colapso da União Soviética.
O aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo morto na manhã de sábado, mantinha um antagonismo visceral contra Israel e os Estados Unidos, que ele chamava sistematicamente de “Grande Satã”. Ele construiu e financiou uma rede regional de milícias aliadas que cercavam Israel e compartilhavam seu ódio ao país. Hezbollah, no Líbano; Hamas e Jihad Islâmica, na Faixa de Gaza e na Cisjordânia; os houthis, no Iêmen — todos serviam tanto para atacar interesses israelenses quanto para proteger o próprio Irã.
Teerã desenvolveu seu programa de mísseis e enriqueceu urânio a níveis próximos ao grau bélico, enquanto negava desejar uma bomba. Tornou-se uma potência regional tão forte que líderes sunitas na Arábia Saudita, Egito e no Golfo Pérsico buscavam manter boas relações com um regime islâmico xiita que também os ameaçava.
O declínio do Irã começou há dois anos, com a resposta dura e sustentada de Israel a uma invasão do Hamas a partir de Gaza. A queda se acelerou quando Israel desgastou as defesas aéreas iranianas, derrotou o Hezbollah e se beneficiou da revolução síria que derrubou Bashar al-Assad, outro aliado de Teerã.
Agora, com a morte do aiatolá e a intensa destruição pelo ar, a influência regional do Irã recuou ainda mais, com consequências incertas que vão se desenrolar ao longo de meses e até anos.

“A República Islâmica como a conhecemos não vai sobreviver a isso”, disse Sanam Vakil, diretora do Programa para Oriente Médio e Norte da África do think tank britânico Chatham House, sediado em Londres.
“O Oriente Médio não será mais o mesmo”, afirmou. “Por 47 anos, a região conviveu com um regime hostil e uma força desestabilizadora que os países tentaram primeiro isolar e depois administrar.”
Agora, disse ela, o regime pode ser desmantelado, e algo novo e diferente pode emergir. Essa nova liderança pode acabar sendo ainda menos amistosa com Washington, especialmente se for dominada pela Guarda Revolucionária iraniana.
Quem quer que assuma, o Irã ficará seriamente enfraquecido no médio prazo, mais voltado para dentro, focado em disputa política interna, segurança doméstica e caos econômico, disse Vakil.
Nos próximos dias, no entanto, o Irã pode espalhar mais caos de curto prazo à medida que a liderança atual tenta encerrar a guerra sem derrubar o regime.
O país vai tentar aumentar rapidamente o custo para Israel, Estados Unidos e seus aliados no Golfo “para forçá-los a recuar antes que isso consiga desestabilizar o regime”, afirmou Ellie Geranmayeh, vice-chefe do programa para Oriente Médio e Norte da África no Conselho Europeu de Relações Exteriores.
Intensificar ataques contra países árabes do Golfo é arriscado, mas pode ser a melhor chance de Teerã encurtar a guerra — já que isso pode levar o mundo árabe a pressionar os EUA e Israel a encerrarem a campanha.
“O objetivo do Irã agora é absorver os ataques de EUA e Israel, manter sua posição e sinalizar uma expansão da guerra, enquanto espera que atores regionais preocupados mediem um cessar-fogo”, escreveu Vali Nasr, especialista em Irã na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, em Washington, em uma publicação nas redes sociais. “Eles esperam que, se Trump não conseguir uma vitória rápida, vá buscar uma saída, e as negociações posteriores serão diferentes.”
As forças por procuração do Irã em todo o Oriente Médio também podem entrar em sua defesa, elevando o custo de uma guerra prolongada, afirma Ali Vaez, diretor do projeto sobre o Irã no International Crisis Group, instituição de pesquisa voltada à prevenção de conflitos.
“Se o Hezbollah se engajar completamente a partir do Líbano, se milícias atacarem bases americanas no Iraque e na Síria, ou se os houthis escalarem no mar Vermelho, isso deixa de ser um conflito bilateral e se torna uma guerra regional que atravessa todo o Oriente Médio”, disse Vaez. Uma guerra mais ampla teria impactos significativos de longo prazo sobre os preços do petróleo e a inflação, sobretudo se o Irã conseguir fechar o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de navegação do mundo.
No longo prazo, porém, um Irã consumido por seus próprios problemas internos — tentando evitar a fragmentação da elite, consolidar uma nova liderança ou até caminhar para um sistema mais consultivo, com menos influência clerical e mais divisão de poder — não terá energia nem recursos para interferir na região. Isso pode abrir novas oportunidades para o Líbano e os palestinos, como já vem ocorrendo para os sírios.
Isso deixa Israel em posição dominante, tornando sua presença ainda mais inerradicável na região — algo com que as nações sunitas terão de se acomodar. Um novo governo mais moderado pode assumir o poder em Israel após as eleições marcadas para este ano. Com o Irã neutralizado, esse governo poderia se sentir autorizado a avançar a partir do cessar-fogo em Gaza e negociar seriamente com os palestinos, sob pressão de Washington e da Arábia Saudita.
Presumindo que não haja uma revolução, um governo iraniano recomposto ainda terá de lidar com um Israel poderoso e com Estados Unidos em quem não confia. O regime atual fez do enriquecimento nuclear um elemento central de sua estratégia para consolidar poder e capacidade de dissuasão na região. E se recusou a mudar de curso, embora essa insistência pareça tê-lo aproximado mais da destruição do que qualquer outra política — seja o apoio ao terrorismo no exterior, seja a repressão maciça em casa.
Não está claro se mesmo um governo mais moderado faria novas concessões em seu programa nuclear sob a pressão da guerra. Também não está claro se algum líder iraniano se sentiria capaz de confiar em Trump, que rasgou o acordo nuclear do ex-presidente Barack Obama em 2018 e agora bombardeou o Irã duas vezes no meio de negociações em andamento. O Irã consideraria necessário ceder na questão nuclear para sobreviver? Ou, se emergir um governo mais linha-dura e dominado pela área de segurança, ele tentaria correr para obter uma arma nuclear, ainda mais convencido da sua necessidade?
c.2026 The New York Times Company
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