
Israel realizou seus ataques mais pesados no Líbano desde o início do conflito com o Hezbollah no mês passado, matando mais de 250 pessoas nesta quarta-feira (9), mesmo enquanto o grupo alinhado ao Irã interrompeu seus ataques sob um cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã.
Os bombardeios colocaram em dúvida os esforços de uma trégua regional, com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmando que um cessar-fogo no Líbano era condição essencial do acordo firmado entre Teerã e Washington.
Líbano convoca comunidade internacional a deter ataques de Israel
O governo libanês pontuou que os israelenses voltaram a intensificar sua agressão ao país, “jogando fora todos os esforços voltados para a calma e a estabilidade” na região
Vance diz que EUA não fecharam acordo para cessar-fogo abranger Líbano
O vice-presidente dos EUA afirmou que Teerã pensava que o cessar-fogo incluía o Líbano
Na tarde desta quarta, pelo menos cinco ataques consecutivos abalaram a capital Beirute, lançando colunas de fumaça sobre a cidade, enquanto os militares israelenses afirmaram ter realizado o maior ataque coordenado da guerra. Mais de 100 centros de comando e instalações militares do Hezbollah foram atingidos em Beirute, no Vale do Bekaa e no sul do Líbano em um intervalo de dez minutos, segundo Israel.
O serviço de defesa civil do Líbano informou que 254 pessoas foram mortas e mais de 1.100 ficaram feridas em todo o país. O maior número de mortes foi registrado em Beirute, com 91 vítimas. O Ministério da Saúde, por sua vez, divulgou um balanço de 182 mortos em todo o Líbano e ressaltou que o número ainda não é definitivo.
Este foi o dia mais letal desde o início da guerra, em 2 de março, quando o Hezbollah passou a disparar contra Israel em apoio ao governo iraniano após um ataque conjunto dos EUA e de Israel ao Irã dois dias antes. Em resposta, Israel lançou uma campanha aérea e terrestre em larga escala.
Repórteres da Reuters viram equipes da defesa civil utilizando um guindaste para resgatar uma mulher idosa de um prédio na região oeste de Beirute. Metade do edifício havia sido destruída em um ataque israelense, deixando moradores dos andares superiores presos.
Mais cedo, repórteres relataram que pessoas em motocicletas estavam levando feridos para hospitais por falta de ambulâncias suficientes. Um dos maiores centros médicos de Beirute informou que precisava de doações de todos os tipos de sangue.
“A escala da matança e da destruição no Líbano hoje é simplesmente horrível”, disse o chefe de direitos humanos da ONU, Volker Türk. “Tanta carnificina, poucas horas após o acordo de cessar-fogo com o Irã, desafia a compreensão.”
Na noite desta quarta-feira, um ataque atingiu os subúrbios do sul de Beirute, segundo transmissão ao vivo da Reuters.
Israel e EUA dizem que Líbano não está incluído na trégua
Em discurso televisionado, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que o Líbano não faz parte do cessar-fogo com o Irã e que os militares israelenses continuavam a atacar o Hezbollah “com força”.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, e o vice-presidente dos EUA, JD Vance, também disseram nesta quarta-feira que o Líbano não está incluído na trégua.
“Acho que isso é resultado de um mal-entendido legítimo. Acredito que os iranianos pensaram que o cessar-fogo incluía o Líbano, mas não incluiu”, disse Vance a jornalistas em Budapeste.
Antes disso, o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, importante intermediário nas negociações de cessar-fogo entre EUA e Irã, havia dito que a trégua incluiria o Líbano.
Em comunicado, o Hezbollah condenou o que chamou de “agressão bárbara” de Israel e afirmou que os ataques reforçam o direito do grupo de responder.
O Hezbollah interrompeu ataques contra alvos israelenses no início desta quarta-feira, disseram à Reuters três fontes libanesas próximas ao grupo. A última declaração pública do Hezbollah sobre sua atividade militar havia sido divulgada na madrugada, informando ter atacado tropas israelenses dentro do Líbano na noite de terça.
“O Hezbollah foi informado de que fazia parte do cessar-fogo — então nós o cumprimos, mas Israel, como sempre, o violou e cometeu massacres em todo o Líbano”, afirmou à Reuters o parlamentar sênior do grupo, Ibrahim al-Moussawi.
Outro parlamentar do Hezbollah, Hassan Fadlallah, disse que haverá “repercussões para todo o acordo” se os ataques israelenses continuarem.
A Guarda Revolucionária do Irã advertiu EUA e Israel que dará uma “resposta que causará arrependimento” se os ataques ao Líbano não forem interrompidos.
O presidente libanês, Joseph Aoun, condenou os bombardeios desta quarta-feira e afirmou que o presidente francês, Emmanuel Macron, disse estar disposto a exercer pressão diplomática para que o Líbano seja incluído em qualquer cessar-fogo.
A maior parte dos ataques de quarta-feira ocorreu em áreas civis, segundo autoridades libanesas. Horas antes dos bombardeios, os militares israelenses tinham emitido avisos para alguns bairros do sul de Beirute e do sul do Líbano. Nenhum alerta foi dado para a região central da capital, que também foi atingida.
Zona de contenção
Após os ataques, o porta-voz militar israelense Avichay Adraee afirmou, em publicação no X (antigo Twitter), que o Hezbollah havia deixado sua tradicional fortaleza xiita no bairro de Dahiyeh, no sul de Beirute, e se deslocado para áreas religiosamente mistas em outras partes do país.
Ele disse que as forças israelenses perseguiriam o Hezbollah “onde quer que esteja”.
O Exército israelense afirmou ter atacado um comandante do grupo em Beirute, sem fornecer detalhes adicionais.
Israel também atingiu, nesta quarta-feira, a última ponte que ligava o sul do Líbano ao restante do país, disse uma fonte sênior de segurança libanesa. A estrutura passava sobre o rio Litani, que corre cerca de 30 quilômetros ao norte da fronteira com Israel.
Um porta-voz militar israelense declarou que a área ao sul do Litani está “desconectada do Líbano”.
Israel disse que pretende ocupar a região como uma “zona de contenção”.
Israel também atacou hospitais e usinas elétricas na área, e milhares de civis libaneses que permanecem ali relatam enfrentar escassez de alimentos e medicamentos.
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