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Brasileira LogiGo desafia gigantes e espera faturar R$ 100 mi com telas para carros

por SampaNews 13 de março de 2026
13 de março de 2026
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Poucas empresas brasileiras do setor de eletrônicos sobreviveram à abertura do mercado brasileiro. A concorrência asiática e a consolidação global de fornecedores gigantes mexeu com todo o tabuleiro desse negócio bilionário. Por isso a história da LogiGo chama tanto a atenção, não apenas por sobreviver como por se transformar em uma das raras companhias nacionais a disputar espaço com multinacionais gigantes no fornecimento de centrais multimídia para as montadoras de veículos.

Fundada em 2010, a empresa tinha como foco o mercado de acessórios. Ao começar a adaptar os produtos básicos que vinham da China para a realidade brasileira, tanto em termos de hardware como de software, ela foi conquistando o consumidor e caindo nas graças das concessionárias, que tinham mais opções de assessórios para oferecer aos clientes. O negócio das multimídias, que incluía até TV digital, deu tão certo que chamou atenção das montadoras, que viram ali a oportunidade de incluir os dispositivos na fábrica.

“Naquele momento, a maior parte dos carros vendidos no país ainda não saía de fábrica com tela multimídia. A lacuna abriu espaço para um mercado paralelo de acessórios, e a empresa passou a atuar revendendo centrais para concessionárias”, explica Antonio Azevedo, fundador e CEO da LogiGo, em entrevista exclusiva ao InfoMoney.

A estratégia funcionou. As telas começaram a ser oferecidas junto com os veículos de marcas como Toyota, Volkswagen e Ford, muitas vezes já financiadas na compra do carro. Em um momento em que o item ainda era restrito a modelos importados e mais caros, a aceitação foi rápida.

Essa boa leitura de mercado, adaptando a produção industrial e apostando em software com a cara do brasileiro acabou se tornando um diferencial competitivo. “Se você começa do zero para competir com esses grupos, parece impossível. Mas a gente conseguiu construir esse caminho”, disse o executivo.

Leia também: Produção de veículos cai 12% em janeiro ante igual mês de 2025, revela Anfavea

Crescimento

A empresa veio conquistando mercado e, no último ano, faturou R$ 40 milhões, após crescer quase cinco vezes na comparação com 2024. Para 2026, a projeção é atingir R$ 60 milhões. Em 2027, com novos contratos, entrada em novos segmentos, como caminhões e expansão internacional, a expectativa é superar a casa dos R$ 100 milhões.

A virada veio em 2014 quando a Toyota identificou as centrais multimídia como um dos acessórios mais vendidos em sua rede e decidiu incorporar o produto ao portfólio oficial da marca. Pouco depois, surgiu o convite para que a LogiGo passasse a fornecer diretamente na linha de montagem.

Foi aí que a empresa deixou para trás o perfil de revendedora de acessórios e entrou no universo OEM, sigla usada para fornecedores de peças e sistemas instalados diretamente na fábrica. A mudança exigiu uma reformulação completa da operação.

“Uma coisa é vender acessório. Fornecer OEM é outro mundo. A Toyota praticamente falou para a gente: vocês não sabem fazer OEM, querem aprender com a gente? E nós fomos aprender”, conta Azevedo.

Nesse processo, a empresa reduziu a estrutura de vendas de aftermarket, contratou engenheiros e passou a operar com padrões compatíveis com os exigidos pelas montadoras.

Leia também: Carro zero ou seminovo completo? Veja o que vale mais a pena no mercado atual

Novos clientes

Depois da Toyota, veio a Nissan que se tornou um marco importante para a expansão da LogiGo. Segundo Azevedo, a montadora buscava alinhar seu slogan global “Innovation that Excites” à experiência dentro dos carros. Na época, a LogiGo já oferecia funções como Waze e Spotify na tela, antes mesmo da popularização do espelhamento do celular nas telas.

A empresa disputou concorrência com fornecedores tradicionais da indústria automotiva e venceu, passando a equipar os automóveis da Nissan de 2015 a 2021 no Brasil.

Na sequência vieram contratos com a Mitsubishi, de 2017 a 2020, retomados agora para o Eclipse Cross, além de projetos para a Ford, como a central da Troller e da Transit produzida no Uruguai para exportação à América do Sul. Em 2023, a LogiGo também desenvolveu solução para a Volkswagen Caminhões e hoje participa de novas concorrências, incluindo um contrato já vencido com uma montadora de caminhões cujo nome ainda está sob acordo de confidencialidade.

Jeitinho brasileiro

Se a manufatura global, com os ganhos de escala, ainda pesa a favor das gigantes internacionais, a LogiGo tenta equilibrar o jogo com um trunfo do jeitinho brasileiro de desenvolvimento de software, adaptando à realidade do Brasil.

Azevedo conta que a empresa trabalha com pré-montagem na China, em parceria com um fornecedor que também atende grandes grupos globais, mas realiza a montagem final, inserindo o software e realizando os testes em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, berço da indústria automotiva brasileira. “O desenvolvimento interno é nosso principal diferencial, porque todo o software é feito aqui no Brasil para os brasileiros. Isso nenhum concorrente nosso tem”, afirma.

E é essa camada final do software que sustenta toda a estratégia da empresa para o futuro, de transformar a central multimídia em uma plataforma permanente de relacionamento e monetização para as montadoras. Sim, monetização para além da simples venda do carro.

Rentabilidade além da tela

Na avaliação do executivo, o automóvel também passa pela mesma mudança que outros setores viveram com a digitalização da experiência do consumidor. Se antes a potência do motor e o desempenho eram os principais atrativos para a compra de um carro novo, hoje a tela e os serviços embarcados ganham cada vez mais relevância, segundo Azevedo. “O cliente entra no carro e a primeira coisa que ele olha é a tela. Tamanho, funcionalidades, aplicativos. É isso que diferencia cada vez mais um modelo do outro”, afirma.

Essa lógica ganha ainda mais força em um cenário de eletrificação, em que os carros tendem a se parecer em termos de conjunto mecânico. Nesse contexto, a experiência digital passa a ser o principal vetor de fidelização e é justamente aí que a LogiGo aposta. Entre as funcionalidades em desenvolvimento estão sistemas de ofertas de produtos e serviços dentro do carro, como avisos de manutenção com agendamento automático em concessionárias, promoções geolocalizadas, publicidade segmentada e até uma assistente com inteligência artificial, explica o executivo.

“Já desenvolvemos, por exemplo, sistemas para que o carro avise o motorista sobre a proximidade da troca de pneus, oferecendo promoções para que ele compre e já faça o agendamento da troca diretamente na central multimídia”. Além disso, também trabalha em outra frente sugerindo postos de combustível a partir da checagem da autonomia do veículo, indicando estabelecimentos próximos confiáveis, conforme classificação feita pelos próprios usuários, e com descontos.

IA na central

A LogiGo também criou uma assistente virtual baseada em inteligência artificial, batizada de Lia, que interage com o motorista e pode recomendar rotas, pausas, compromissos e serviços. A proposta, segundo Azevedo, segue uma tendência que já avança na Europa, nos Estados Unidos e na China, onde as montadoras tentam reduzir a dependência de ecossistemas como Apple CarPlay e Android Auto.

De acordo com o executivo, isso acontece porque hoje há uma crescente resistência das montadoras de entregar a experiência digital do carro para as duas gigantes de tecnologia, o que pode abrir ainda mais espaço para empresas como a LogiGo, capazes de customizar a interface, integrar dados do veículo e criar novos canais de receita.

O raciocínio é simples: se duas marcas usam o mesmo sistema de espelhamento, a experiência do consumidor se iguala, e a montadora perde capacidade de diferenciação. “Quando a montadora não domina a experiência, ela não cria aderência do cliente à marca dela. O movimento vem ganhando tanta força lá fora  que a GM abriu mão do CarPlay e Android Auto em parte de sua linha elétrica nos Estados Unidos para priorizar uma experiência própria”, afirma.

Para ele, hoje a multimídia precisa ser vista como um grande instrumento de monetização do carro, porque pela tela pode-se gerar receita durante toda a vida útil do veículo.

Expansão de negócios

E é nessa lógica que a empresa atua, não tratando inovação como uma área isolada, mas sim incorporada à operação. “Eu não tenho uma área de inovação. A inovação aqui é cultural”, diz. Segundo ele, a equipe de engenharia trabalha com metas ligadas à geração de soluções novas com retorno financeiro para a empresa e para os clientes. Foi essa lógica, afirma, que permitiu à companhia se diferenciar desde os tempos do aftermarket, quando trouxe recursos pioneiros ao mercado brasileiro, como TV digital em centrais multimídia.

Isso permitiu à LogiGo vencer concorrências contra grupos muito maiores e agora expandir seus negócios para caminhões e com uma unidade de negócios nos Estados Unidos.

Além da frente automotiva, a companhia abriu uma nova unidade focada em monitoramento de frota, carga e até do motorista. A solução inclui câmeras embarcadas e conectividade para análise de comportamento do condutor, prevenção de acidentes, rastreamento de carga e documentação de ocorrências.

A nova vertical busca reduzir a dependência do ciclo de contratos com montadoras e ampliar a receita recorrente da empresa, com oferta de serviços às empresas de logísticas espalhadas pelo Brasil. A operação começou em janeiro deste ano e já está em fase de testes com transportadoras.

Ao mesmo tempo, a LogiGo abriu uma subsidiária nos Estados Unidos, com base na Flórida, para iniciar prospecção comercial naquele mercado. A expansão ainda está em estágio inicial, mas reforça a ambição da companhia de inverter a lógica mais comum do setor. “Não é o gringo vindo para cá. É a gente indo para lá”, diz Azevedo.

Uma sobrevivente em um mercado difícil

Todos os movimentos vêm na esteira da estratégia de sobrevivência num mercado competitivo. “A permanência da LogiGo já é uma espécie de exceção em um segmento no qual muitos concorrentes desapareceram ao longo do tempo. Desde os tempos que fornecíamos para concessionárias até hoje muitos concorrentes morreram no meio do caminho. A LogiGo é umas das poucas brasileiras que ficaram vivas fornecendo esse tipo de produto”, afirma.

Para o executivo, o “pulo do gato” foi adaptação, que permitiu entrar nas fábricas em OEM e ter conseguido combinar capacidade técnica com um nível de inovação que os concorrentes locais não tinham. Num setor em que o carro se torna cada vez mais software sobre rodas, a aposta da empresa é que a tela deixe de ser apenas um item de conforto e passe a ocupar um papel central na estratégia de vendas, retenção e monetização das montadoras. E, pelo ritmo de crescimento projetado, a LogiGo quer estar sentada no banco da frente dessa transformação digital.

Leia Mais: Lucro da Volkswagen cai pela metade impactado por tarifas e dificuldades na China

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