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Brasileiro continuará no saldo devedor em 2026, com juro alto e menos emprego

por SampaNews 2 de fevereiro de 2026
2 de fevereiro de 2026
14

Nem o pleno emprego nem a renda recorde foram suficientes para aliviar o bolso do brasileiro, que segue pressionado por dívidas e atrasos. O horizonte para 2026 indica que o fôlego financeiro ainda levará tempo para se recuperar.

Especialistas ouvidos pelo InfoMoney afirmam que, apesar de haver uma perspectiva de diminuição da taxa básica de juros, a Selic, a partir de março, a projeção é de que os juros vão ficar acima de dois dígitos ao fim do ano. O mercado projeta algo em torno de 12%, o que faz com que o juro real (quando se exclui a inflação) permaneça elevado.

Esses juros altos devem continuar freando a atividade econômica. Isso significa menos emprego e menor possibilidade de aumentar a renda. Se, em 2025, atingimos recordes atrás de recordes com desemprego nas mínimas históricas e renda no pico máximo, o esperado para 2026 é uma estabilização nos indicadores, ou até um leve recuo.

Para Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), o endividamento está em um patamar histórico, e o crédito como um todo não deve crescer, o que deve contribuir para a desaceleração do crescimento econômico.

“Mesmo com a queda de juros no curto prazo, o cenário de crédito não deve mudar significativamente, pois o custo do crédito depende não apenas da Selic, mas também das perspectivas econômicas”, afirma.

Leia também: Juro real do Brasil é de 9,23%, segundo maior do mundo pelo sétimo mês seguido

Mais dívidas e mais atrasos

Dados do Banco Central divulgados nesta quinta-feira (29) mostram que, ao fim de 2025, o endividamento das pessoas físicas chegou a 49,77% , quando em janeiro era de 48,63% – aumento de 1,14 ponto porcentual. 

A inadimplência também subiu, de 3,78% no início do ano, para 5,05% em dezembro, avanço de 1,27 p.p..

O comprometimento da renda das famílias com dívidas está em 29,28%, contra 27,57% no início do ano passado. Excluindo créditos habitacionais, o brasileiro gasta 27% da sua renda para pagar boletos, quando em janeiro era 25%. 

Mês/Ano Inadimplência (%) Comprometimento de renda (%) Comprometimento de renda sem crédito habitacional (%) Endividamento em relação à renda nos últimos doze meses (%) Endividamento sem crédito habitacional em relação à renda nos últimos 12 meses (%)
jan./25 3,78 27,57 25,41 48,63 30,55
fev./25 3,85 27,69 25,5 48,61 30,5
mar./25 3,91 27,86 25,66 48,97 30,76
abr./25 4,13 27,83 25,61 48,88 30,7
mai./25 4,24 28,09 25,96 48,88 30,62
jun./25 4,29 28 25,85 48,81 30,56
jul./25 4,54 27,97 25,84 48,64 30,47
ago./25 4,79 28,56 26,36 48,93 30,64
set./25 4,76 28,84 26,67 49,08 30,72
out./25 4,86 29,3 27,05 49,29 30,93
nov./25 4,93 29,28 27,01 49,77 31,29
dez./25 5,05 – – – –
Fonte: Banco Central

A dificuldade em pagar

Os dados parecem contraditórios. Se, por um lado, há melhora no emprego e renda, por que, afinal, os brasileiros não estão conseguindo diminuir o endividamento, a inadimplência e o comprometimento das renda?

Parte da resposta está no rolamento da dívida, no efeito dos juros compostos e em um cenário amplo que remete aos anos de pandemia e à flexibilização bancária que trouxe maior acesso ao crédito. 

Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre, destaca que estamos a três anos do fim da pandemia de Covid-19, época em que muitos brasileiros tiveram que consumir suas reservas e entrar em dívidas que estão rolando até hoje. Ele também cita o período em que as fintechs abraçaram a população desbancarizada, que não tinha acesso ao cartão de crédito e tem pouco acesso à educação financeira.

“O aumento do endividamento vem  para sustentar um consumo que é crescente pela facilidade de liquidez [acesso ao crédito], mas também para pagar dívidas do passado. Mas estamos vendo que não está sendo possível pagar essas dívidas, tanto é que a inadimplência está aumentando”, afirma.

Em um cenário em que as famílias estão sem reserva de emergência, qualquer acontecimento que demande um pagamento extra – como um conserto de carro, da casa, um adoecimento, entre outros – coloca o brasileiro em uma situação vulnerável. A saída de muitos é entrar no crédito rotativo do cartão de crédito, quando se paga apenas a parcela mínima sem conhecer o peso dos juros compostos.

O crédito rotativo do cartão de crédito aumentou 8,6% ao longo de 2025. O empréstimo pessoal avançou 14,7% e o cheque especial, 10,9%. A linha de financiamento do consignado privado para trabalhadores e empreendedores teve um expressivo crescimento de 183,6% – modalidade em que o trabalhador tem a parcela da dívida descontada diretamente da folha de pagamento.

Crédito do sistema financeiro – Pessoas físicas (R$ milhões)
Mês Cheque especial Crédito pessoal – Não consignado Consignado – Servidores públicos Consignado – Trabalhadores setor privado Consignado – Beneficiários do INSS Cartão de crédito Rotativo
jan 44.477 22.880 7.705 1.698 9.714 34.149
fev 44.062 20.026 7.996 1.567 8.809 31.670
mar 44.868 20.057 8.481 2.250 8.175 34.163
abr 44.907 20.788 8.502 5.596 7.047 31.663
mai 46.022 21.364 8.220 3.086 3.110 32.366
jun 45.205 21.169 8.479 2.589 3.202 32.125
jul 46.353 23.002 7.878 5.112 4.787 32.236
ago 44.908 21.591 7.682 6.066 4.594 31.869
set 48.217 24.386 8.396 6.400 5.676 32.382
out* 48.785 25.495 8.629 6.678 5.712 32.852
nov* 46.154 19.815 6.899 6.682 4.693 33.931
dez* 48.967 21.678 6.244 6.785 5.113 35.202
Variação %
Mês 6,1 9,4 -9,5 1,5 8,9 3,7
Trimestre 3,2 -2,9 -9,1 14,6 3,1 5,7
Ano 10,9 14,7 -5,3 183,6 -31,5 8,6
*Dados preliminares
Fonte: Banco Central

Juros encarecem dívidas

Enquanto a taxa básica de juro está em 15%, o juro médio pago pelo cidadão chegou a 60% em dezembro de 2025, quando em janeiro era de 54,3% – um aumento de 7% no ano.

Considerando apenas o cartão de crédito, a maior taxa de juro ao ano chega a mais de 1.000%, enquanto a média entre as instituições financeiras do país é de 476%, segundo dados do Banco Central referentes ao período de 9 a 15 de janeiro.

Cláudio Hamilton Matos dos Santos, técnico de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), explica que os financiamentos vinculados a taxas de correção, como a TR, podem ser afetados pelo aumento dos juros – não porque a parcela vai ficar mais cara, mas sim porque demora mais para o brasileiro abater aquela dívida.

Isso significa que, mesmo que as pessoas mantenham dívidas proporcionais à renda, a parcela de recursos que elas precisam destinar para pagar essa dívida (chamada de serviço da dívida) aumentou. 

Assim, o cenário para 2026 é de desafios com juros reais elevados e endividamento e inadimplência persistentes. Para Ataliba, embora o mercado de trabalho esteja robusto, a desaceleração econômica e a falta de educação financeira podem agravar a situação. 

Taxas de juros
Período % ao ano
jan.-2025 54,3
fev.-2025 56,6
mar.-2025 56,8
abr.-2025 58
mai.-2025 58,7
jun.-2025 59
jul.-2025 58
ago.-2025 58,4
set.-2025 58,3
out-2025* 58,7
nov-2025* 60,5
dez-2025* 60,1
Variação %
No mês -0,4
No trimestre 1,8
No ano 7
*Dados preliminares
Fonte: Banco Central

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