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Como a China transformou matérias-primas críticas em arma geoeconômica?

por SampaNews 14 de maio de 2026
14 de maio de 2026
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Pequim transformou sua dominância em matérias-primas críticas em uma arma geoeconômica – e a Europa está na mira. É essa a principal conclusão do estudo “Beijing’s Critical Raw Material Weapon”, do European Union Institute for Security Studies (EUISS), que detalha como a China passou a usar o controle sobre insumos como terras raras, gálio e germânio para ganhar vantagem estratégica, industrial e tecnológica sobre o Ocidente.

O documento argumenta que essa dependência não é apenas um risco econômico, mas um vetor de vulnerabilidade estrutural para a Europa e seus principais parceiros.

A China controla 70% ou mais do refino ou da extração global da metade dos 34 materiais que a UE classifica como “críticos”. O estudo mostra ainda que a China domina mais de 74% da produção global em pelo menos um elo da cadeia de valor de cada um desses materiais, chegando a mais de 98% no caso de terras raras pesadas e gálio.

Apesar de usados em volumes relativamente pequenos, esses insumos são indispensáveis em setores críticos, como defesa, telecomunicações, semicondutores, energia renovável, mobilidade elétrica e equipamentos médicos. Em resumo, sem esses materiais refinados na China, parte importante das funções de Estado e da base industrial europeia simplesmente não funciona.

Leia também: Acordo sobre terras raras entre EUA e China está em vigor, diz autoridade dos EUA

A força da China está, sobretudo, na fase de refino dessas matérias-primas, etapa na qual o país concentra o maior poder de mercado. A Europa, os Estados Unidos e o Japão dependem dessa capacidade chinesa para produzir imãs permanentes de alto desempenho, wafers para semicondutores e cabos de fibra óptica – componentes com aplicação transversal em praticamente toda a economia digital e verde.

O relatório aponta que, embora EUA e Japão tenham lançado políticas para reduzir riscos, o avanço deve ser limitado, e as iniciativas europeias são descritas como “comparativamente modestas”.

Leia também: Governo quer acelerar no Senado marco das terras raras após aceno a Trump

Aparato regulatório

A partir de 2025, depois de novas rodadas de tarifas e controles de tecnologia impostos pelos EUA na era “Trump 2.0”, Pequim reagiu reduzindo de forma abrupta o fornecimento de uma série de matérias-primas críticas para quase todos os países. Mesmo com uma recuperação parcial das exportações em 2025 e início de 2026, os volumes ficaram bem abaixo dos níveis pré-controle para a maioria dos materiais.

Segundo o estudo, esse “aperto” deliberado gerou ao menos oito efeitos benéficos para a China e claramente negativos para a Europa e seus parceiros, incluindo aumento de custos, interrupções produtivas e incerteza crônica nas cadeias de suprimento.

O relatório também destaca o peso do aparato regulatório e de controle de exportações de Pequim, em especial o papel do Ministério do Comércio. Empresas europeias e norte-americanas relatam que o processo de licenciamento para exportar certos materiais se tornou “altamente invasivo”, com exigências de envio de dados detalhados de produção, aplicações finais, fotos e até desenhos de componentes sensíveis, como motores de drones. Em alguns casos, a recusa em fornecer informações consideradas sensíveis resultou em negativas de licença, reforçando a percepção de uso político e estratégico das regras de comércio.

A opacidade do processo de licenciamento é um ponto central da crítica. Pesquisas com empresas europeias na China apontam que uma parcela relevante relata “falta de transparência” e “requisitos pouco claros” por parte do ministério chinês, o que incentiva companhias a entregar informações para tentar garantir aprovações. Muitas descrevem o ministério como uma “caixa-preta”, onde pedidos ficam em status pendente indefinidamente, sem critérios previsíveis. Na prática, isso aumenta o poder discricionário de Pequim e amplifica o efeito dissuasório sobre negócios que possam contrariar interesses estratégicos chineses.

No plano doméstico, o uso dessa “arma das matérias-primas” é alinhado aos objetivos centrais de política econômica de Pequim. O estudo lembra que documentos oficiais, como o 15º Plano Quinquenal e o Livro Branco sobre segurança nacional, enfatizam a busca por autossuficiência tecnológica e industrial, ao mesmo tempo em que se aprofunda a dependência do resto do mundo em relação à China.

Reação comercial

Exportações a preços abaixo do mercado, combinadas com forte apoio estatal, são descritas como instrumentos para sustentar o crescimento econômico interno e ganhar alavancagem nas cadeias globais.

Para a Europa, o recado do relatório é claro: não se trata apenas de “diversificar” fornecedores, mas de desmontar gradualmente a dependência estrutural de cadeias dominadas pela China.

Os autores argumentam que, sozinhas, políticas de incentivo à mineração, refino e reciclagem em solo europeu não serão suficientes se os produtos finais continuarem a competir, sem proteção, com manufaturados chineses intensivos em matérias-primas subsidiadas. A ausência de respostas coordenadas entre UE, EUA, Japão e outros parceiros amplifica a vulnerabilidade e fragmenta o poder de barganha ocidental.

Por isso, uma das principais recomendações é combinar políticas industriais com instrumentos de defesa comercial mais assertivos. O estudo defende o uso de tarifas amplas, medidas de salvaguarda e requisitos de “Europa e parceiros confiáveis” em compras públicas de setores intensivos em matérias-primas – como automotivo, equipamentos médicos, eólico e químico. A ideia é, no mínimo, compensar fatores como moeda artificialmente desvalorizada, subsídios massivos e exigências de joint ventures que favorecem as empresas chinesas e distorcem a concorrência global.

Na prática, essas medidas teriam duas funções: proteger as indústrias usuárias finais europeias da competição assimétrica com concorrentes chineses e, ao mesmo tempo, criar demanda estável para novos projetos de mineração, refino e manufatura de componentes fora da China. O estudo reconhece que isso tende a elevar custos de curto prazo para fabricantes europeus, mas sustenta que, sem esse “colchão” de políticas públicas, será impossível financiar, em escala, cadeias alternativas de matérias-primas críticas. Em outras palavras, a escolha é entre pagar mais agora por resiliência ou correr o risco de choques muito mais caros no futuro.

Em seu balanço final, o relatório conclui que a Europa e seus parceiros precisam tratar a dependência de terras raras, gálio, germânio e outros insumos críticos não como um problema técnico de abastecimento, mas como um desafio estratégico de segurança econômica. Isso implica transparência maior sobre riscos, coordenação entre aliados, uso mais firme de instrumentos comerciais e, sobretudo, disposição política para enfrentar as distorções geradas pelo modelo de desenvolvimento chinês.

Sem isso, alerta o estudo, Pequim continuará a dispor de uma “arma” silenciosa, barata e extremamente eficaz para influenciar decisões industriais e geopolíticas em Bruxelas, Washington, Tóquio e outros centros de decisões.

*Texto construído com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial

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