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Como o Irã manteve comércio e diversificou economia mesmo com décadas de sanções

por SampaNews 15 de abril de 2026
15 de abril de 2026
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LONDRES — Por quase 50 anos, o Irã tem sido tratado como um pária, ocupando um lugar entre os países mais sancionados do mundo por seu programa nuclear e de armamentos, seu apoio ao terrorismo, abusos de direitos humanos e outros fatores.

Mas, apesar dos esforços persistentes dos Estados Unidos, da União Europeia, do Reino Unido e do Conselho de Segurança da ONU para sufocar o comércio internacional do Irã e congelar ativos, o país conseguiu continuar fazendo negócios com grande parte do mundo, mostra uma análise do jornal The New York Times.

Leia também: Trump ameaça China com tarifa de 50% se armar Irã, e oferece petróleo americano

A nação trocou bens com mais de 170 países desde 2019, mesmo com restrições internacionais alimentando a inflação, o desemprego elevado e a agitação civil.

O comércio total caiu, mas o país importou alimentos essenciais, eletrônicos e peças automotivas, enquanto vende petróleo, gás, materiais de construção, alimentos especiais e milhares de outros produtos. As sanções prejudicaram a economia iraniana, mas não a destruíram.

“A expectativa era que as sanções tivessem isolado o Irã do comércio global, mas isso não é totalmente o caso”, disse Esfandyar Batmanghelidj, CEO da Bourse & Bazaar Foundation, uma organização de pesquisa sediada em Londres. “O comércio do Irã se tornou mais complexo ao longo do tempo em resposta às sanções.”

A guerra com os Estados Unidos e Israel alterou de forma evidente as perspectivas do país. O bloqueio do Irã ao tráfego marítimo no Estreito de Ormuz prejudicou sua própria capacidade de acessar bens críticos e realizar comércio.

Mísseis israelenses e americanos atingiram o país, destruindo infraestrutura, incluindo instalações de eletricidade, transporte, fábricas, bases militares e escolas. A possibilidade de danos ainda mais devastadores paira caso um cessar-fogo de duas semanas não se sustente.

Ainda assim, dados comerciais dos últimos 30 anos podem oferecer pistas sobre a capacidade de adaptação da economia de 94 milhões de habitantes da República Islâmica. Sua habilidade de se ajustar sob a pressão de sanções e outras interrupções pode indicar como funcionará daqui para frente.

A China tem sido a salvação do Irã

Obter números precisos de comércio é difícil. A maioria dos analistas desconfia das estatísticas oficiais do governo, e os parceiros do Irã frequentemente omitem ou subestimam o valor das transações de commodities.

Mesmo assim, é claro que a China assumiu o papel de principal parceiro comercial do Irã, respondendo por uma parcela crescente das importações e exportações iranianas nas últimas duas décadas.

Durante a pandemia, Pequim prometeu investir US$ 400 bilhões no país nas próximas décadas em troca de um fornecimento constante de petróleo.

Em 2024, comprou 90% das exportações de petróleo do Irã, segundo a Agência Internacional de Energia.

A China também respondeu por cerca de um quarto das exportações não petrolíferas do Irã de 2019 a 2024, de acordo com dados compilados pelo Atlas da Complexidade Econômica da Universidade de Harvard, adquirindo bilhões de dólares em produtos químicos e metais iranianos.

Os pagamentos são feitos em renminbi, a moeda chinesa, evitando o uso do dólar e a necessidade de envolver bancos americanos, que frequentemente são as principais entidades utilizadas para ajudar a aplicar sanções.

Em contrapartida, a China parece fornecer quase 30% das commodities que o Irã importa, vendendo de móveis a sementes de girassol.

Há outra camada crucial de comércio entre os países que não aparece nas estatísticas oficiais. Ambos têm recorrido a um complexo sistema de escambo que envolve canais secretos de financiamento. O Irã envia petróleo à China e, em troca, empresas de construção chinesas apoiadas pelo Estado constroem aeroportos e outras infraestruturas.

Esse sistema oculto de comércio se estende a outras partes do mundo, dizem especialistas, em parte para evitar conflitos com as sanções.

A atividade paralela envolve empresas de fachada e intermediários que ocultam a identidade dos compradores reais, o uso de bancos não iranianos e desvios por outros países para esconder o envolvimento do Irã.

O Irã não depende mais apenas do petróleo

Há vinte anos, o petróleo representava quase 80% das exportações do Irã, mas essa participação diminuiu ao longo do tempo à medida que a economia se diversificou.

A mudança começou a se acelerar quando os Estados Unidos, sob o presidente Barack Obama, impuseram uma nova rodada de sanções severas que colocou o Irã em forte crise.

“A economia iraniana só começou realmente a sofrer por volta de 2012”, disse Batmanghelidj. “O aumento do comércio entre 2000 e 2012 esteve associado à elevação do padrão de vida e ao crescimento da classe média iraniana.”

As sanções visaram principalmente o comércio de petróleo do Irã e desestimularam empresas ocidentais a fazer negócios com contrapartes iranianas.

Isso levou o país a desenvolver mais comércio em outras áreas e com novos parceiros, um padrão que continua, mostram os dados comerciais.

Algumas sanções foram suspensas após o acordo nuclear entre Irã e Estados Unidos em 2015. Mas, desde 2019, quando o presidente Donald Trump voltou a impor sanções contra empresas que fazem negócios com o Irã, o padrão foi retomado.

Nesse período, o Irã exportou mais de US$ 120 bilhões em commodities não petrolíferas, segundo dados de Harvard — valor aproximadamente equivalente ao total de exportações de países como Costa Rica, Equador ou Croácia.

O Irã é favorecido por seu acesso a vários corredores comerciais, tanto terrestres quanto marítimos. Faz fronteira com sete países, incluindo Paquistão, Afeganistão, Iraque e Turquia, e possui portos no Mar Cáspio, além de ocupar um dos lados do Estreito de Ormuz, que tem sido central na guerra atual.

Tanto a Turquia quanto o Iraque são clientes importantes de produtos iranianos. Junto com a China, esses três países responderam por mais da metade das exportações não petrolíferas do Irã desde 2019.

O Kuwait é um grande comprador de cimento e ovelhas iranianos. Bulgária, Cazaquistão e Uzbequistão importam grandes quantidades de material de embalagem. A maior parte do açafrão importado pela Espanha vem do Irã.

Aumento da produção interna

Uma resposta às sanções ao longo dos anos tem sido produzir mais internamente. O país desenvolveu um amplo setor industrial que fabrica automóveis, aço, ferro, eletrônicos e produtos farmacêuticos, além de um setor forte de alimentos.

“Eles fizeram um esforço deliberado para serem autossuficientes”, disse Kislaya Prasad, diretor acadêmico do Center for Global Business da Universidade de Maryland.

As sanções tornaram muito mais difícil para o Irã importar materiais necessários à produção, como máquinas e peças de reposição.

Países europeus representavam mais da metade das importações iranianas registradas em meados da década de 1990. Hoje, respondem por menos de 20%.

Os Emirados Árabes Unidos fornecem eletrônicos; a Índia envia grandes quantidades de arroz; e o Brasil vende soja e milho ao Irã.

c.2026 The New York Times Company

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