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Como Wall Street virou as costas para a mudança climática

por SampaNews 21 de janeiro de 2026
21 de janeiro de 2026
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Em janeiro de 2020, Larry Fink, CEO da BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, surpreendeu o mundo dos negócios ao declarar que pretendia usar os trilhões de dólares administrados por sua empresa para enfrentar o aquecimento global.

“Todo governo, empresa e acionista precisa enfrentar a mudança climática”, escreveu Fink, defendendo “uma reformulação fundamental das finanças”.

Leia também: Revista Nature “despublica” estudo que projetava colapso econômico por crise do clima

Alguns dias depois, Fink chegou a Davos, na Suíça, para o encontro anual do Fórum Econômico Mundial, usando um cachecol com o desenho das “listras do aquecimento”, um padrão que retrata 150 anos de aumento das temperaturas globais.

O apelo apaixonado de Fink para enfrentar a mudança climática foi o início informal de um movimento. Logo, praticamente todas as grandes instituições financeiras passaram a prometer a redução de emissões, aderindo a alianças ambiciosas criadas para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e prometendo apoiar a energia limpa.

Os fatores ambientais, sociais e de governança, conhecidos como ESG, tornaram-se uma característica definidora dos investimentos em Wall Street.

Mas, seis anos depois, muitas dessas instituições de Wall Street recuaram ou abandonaram seus compromissos.

As alianças — como a Net Zero Banking Alliance e a iniciativa Net Zero Asset Managers — que tinham como objetivo direcionar investimentos para a energia limpa e afastá-los dos combustíveis fósseis praticamente se desintegraram. Investidores retiraram dezenas de bilhões de dólares a cada trimestre de fundos ESG.

Embora o investimento dos Estados Unidos em energia limpa tenha disparado nos últimos anos — chegando a US$ 279 bilhões no ano passado — muitas grandes empresas passaram a se calar sobre a mudança climática.

Em teleconferências de resultados, as menções a palavras como “clima” e “sustentabilidade” despencaram 75% no último ano, segundo uma análise da Bloomberg.

E, com o presidente Donald Trump de volta ao cargo e usando a presidência para promover combustíveis fósseis e atacar a indústria de energia limpa, o recuo de Wall Street na ação climática coincidiu com bancos americanos dobrando a aposta em projetos de carvão, petróleo e gás.

Essas dinâmicas ficarão plenamente visíveis quando Fink, agora copresidente do Fórum Econômico Mundial, receber Trump em Davos, onde as questões climáticas ficaram em segundo plano diante da inteligência artificial e da geopolítica.

A história de como Wall Street virou as costas para a mudança climática — de como uma tentativa ousada de transformar as finanças entrou em colapso — começou quase imediatamente após Fink e seus aliados anunciarem suas ambições de usar o capitalismo como ferramenta para salvar o planeta.

Políticos republicanos se uniram a ativistas conservadores, incluindo grupos financiados pela indústria de combustíveis fósseis, para arquitetar uma reação ampla ao que viam como uma tentativa das grandes empresas americanas de promover políticas liberais.

“Essas instituições aderiram sem ter a menor ideia do que estavam assinando”, disse Paddy McCully, analista da Reclaim Finance, uma organização sem fins lucrativos que pressiona Wall Street a enfrentar a mudança climática. “Elas estavam seguindo a manada e queriam parecer bem, mas nunca tiveram qualquer inclinação de mudar seu modelo de negócios.”

A ascensão do ESG

Foi o dinheiro, mais do que qualquer outra coisa, que levou Wall Street a se importar com a mudança climática em primeiro lugar.

Em 2019, muitos dos maiores clientes da BlackRock, incluindo grandes fundos de pensão e fundos soberanos do Japão e da Europa, começaram a pedir fundos mais focados em questões ambientais.

Se a BlackRock criasse produtos que prometessem beneficiar o planeta, fundos de pensão e fundos soberanos disseram que confiariam ainda mais dinheiro à empresa.

Fink atendeu ao pedido. A BlackRock começou a desenvolver novos fundos ambientais e logo estava em Davos, usando o cachecol climático.

“Larry decidiu ser um líder na onda”, disse Mindy Lubber, CEO da Ceres, uma organização sem fins lucrativos que trabalha com empresas para enfrentar a mudança climática. “Funcionou, até deixar de funcionar.”

Outros titãs de Wall Street rapidamente seguiram o exemplo da BlackRock. Todos os grandes bancos americanos disseram que não financiariam mais a perfuração no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Ártico.

O JPMorgan afirmou que estava “adotando um compromisso de financiamento alinhado aos objetivos do Acordo de Paris”, o acordo de 2015 firmado pela maioria dos países do mundo para tentar manter o aquecimento global abaixo de 1,5 grau Celsius.

Era um compromisso da moda, e o movimento logo passou a englobar desde o investimento em carteiras de ações ambientalmente responsáveis até a concessão de empréstimos a empresas de energia limpa e a redução das emissões corporativas de carbono.

Mas, na prática, atingir as metas estabelecidas no Acordo de Paris teria significado promover uma rápida mudança global, afastando-se dos combustíveis fósseis e migrando para fontes de energia limpa como eólica e solar.

Para um banco como o JPMorgan, que frequentemente figura como o maior financiador americano de projetos de combustíveis fósseis, isso teria significado reduzir rapidamente uma linha de negócios lucrativa. O JPMorgan não respondeu a um pedido de comentário.

Percebendo o impulso, Fink foi ainda mais ambicioso em sua carta anual aos investidores de 2021. Nela, prometeu divulgar o impacto climático de todos os fundos da BlackRock, criar produtos personalizados de sustentabilidade, desenvolver novas formas de medir o risco climático e usar o poder de voto das participações da empresa para pressionar companhias a enfrentar a mudança climática.

Nos meses seguintes, JPMorgan, Citigroup e Bank of America prometeram coletivamente mobilizar US$ 5 trilhões em financiamento sustentável até 2030, por meio de empréstimos e investimentos.

As ambições continuaram crescendo na cúpula climática anual da ONU em 2021. Conhecido como COP26, o evento em Glasgow, na Escócia, foi o primeiro desse tipo desde a pandemia, e seus organizadores queriam algo concreto para mostrar.

Mark Carney, que havia acabado de deixar o cargo de presidente do Banco da Inglaterra e hoje é primeiro-ministro do Canadá, foi convidado para coordenar um novo grupo apoiado pela ONU que incentivaria o setor privado a reduzir emissões.

O resultado foi a Glasgow Financial Alliance for Net Zero, ou GFANZ, que afirmou que usaria a força coletiva de seus membros — cerca de US$ 130 trilhões em ativos — para tentar conter o aquecimento global.

Mais de 450 grupos financeiros, incluindo BlackRock, Bank of America e Citi, aderiram. Além do grupo guarda-chuva principal, a GFANZ passou a englobar várias associações específicas do setor, como a Net Zero Banking Alliance, a iniciativa Net Zero Asset Managers e a Net-Zero Asset Owners Alliance.

Essas alianças eram uma forma de as empresas financeiras sinalizarem apoio ao objetivo altamente ambicioso de eliminar novas emissões que aquecem o planeta até 2050. E aderir era fácil, exigindo pouco mais do que uma declaração de boas intenções. Sem expectativas de que bancos ou investidores precisassem mudar seus modelos de negócios, as empresas aderiram em massa.

Ao convencer executivos do setor financeiro a se juntarem aos grupos, Carney e seus aliados enfatizavam a oportunidade de gerar lucros.

“Mark Carney vendeu isso como uma oportunidade de ganhar dinheiro”, disse Evan Guy, ex-assessor da GFANZ. “Havia trilhões a serem ganhos.” Carney não respondeu a um pedido de comentário.

Fink havia entregue o que alguns clientes pediram e, ao lado de Carney, havia desencadeado um movimento global.

Tudo isso resultou em um ano excepcional para a BlackRock, que atraiu quase US$ 25 bilhões em novos ativos para seus fundos ESG em 2021.

Reação

No mesmo dia em que executivos em Glasgow promoviam seus planos de usar Wall Street como uma força para o bem, um grupo de tesoureiros estaduais republicanos se reuniu em Orlando, na Flórida, para planejar como detê-los.

Os tesoureiros, parte de um grupo chamado State Financial Officers Foundation, discutiram maneiras de impedir que os ativos de seus estados fossem usados para apoiar causas ambientais.

Em poucos meses, tesoureiros estaduais republicanos retiraram mais de US$ 1 bilhão da BlackRock. Políticos conservadores e comentaristas da mídia começaram a pressionar Wall Street a se afastar da causa climática.

Apoiando esses esforços estavam organizações de pesquisa alinhadas à direita, como a Heritage Foundation e o Heartland Institute, grandes financiadores e operadores conservadores, incluindo os irmãos Koch e Leonard Leo, além de grupos comerciais da indústria de combustíveis fósseis, como o American Petroleum Institute.

À medida que a oposição conservadora crescia, empresas financeiras passaram a enfrentar riscos jurídicos inesperados.

Em 2022, um grupo apoiado pela ONU chamado Race to Zero, que era parceiro da GFANZ, atualizou suas expectativas sobre o que as empresas participantes deveriam efetivamente fazer. Entre as mudanças, havia uma nova linguagem que pressionava empresas financeiras a parar de fazer negócios com companhias de carvão.

Isso acendeu alertas em Wall Street, e conservadores aproveitaram a oportunidade. Apenas um mês após a atualização, um grupo de ativistas republicanos se reuniu em um encontro do American Legislative Exchange Council, em Atlanta, e discutiu como poderiam atingir empresas participantes da GFANZ com ações antitruste.

Críticos também acusaram empresas que adotavam estratégias ESG de negligenciar seu dever de maximizar os lucros para os acionistas.

Respondendo às preocupações das empresas financeiras, a GFANZ rompeu seus laços com o Race to Zero no fim de 2022. Mas o estrago já estava feito.

Legislativos republicanos em todo o país apresentaram mais de 100 projetos de lei para punir empresas financeiras que apoiassem práticas ESG. Tesoureiros estaduais republicanos começaram a retirar dinheiro da BlackRock.

Ao fim de 2022, parlamentares conservadores no Texas abriram investigações contra a BlackRock e outras empresas de Wall Street por seus compromissos climáticos e práticas ESG, e republicanos no Congresso intimaram a GFANZ, a BlackRock e a State Street.

Colapso

Após a reeleição de Trump, em novembro de 2024, praticamente todos os grandes bancos e instituições financeiras americanas se retiraram da Net Zero Banking Alliance, levando o grupo a se dissolver.

Em seguida, grandes bancos e instituições financeiras abandonaram a iniciativa Net Zero Asset Managers. Dias depois, a iniciativa informou que estava “suspendendo atividades”. O grupo agora diz que será relançado ainda este ano.

O Bank of America, que havia dito que deixaria de financiar carvão e se absteria de financiar perfurações no Ártico, recuou desses compromissos. A empresa se recusou a comentar.

E a BlackRock reduziu drasticamente seu apoio a propostas de acionistas de cunho social e ambiental.

Em comunicado, Chris Berger, porta-voz da BlackRock, disse que a empresa havia construído a maior plataforma do setor para investir em práticas empresariais sustentáveis e na transição energética, com mais de US$ 1 trilhão em ativos sob gestão.

Mas, na carta mais recente de Fink aos investidores, não houve qualquer menção à mudança climática. Em vez disso, ele enfatizou a necessidade de “pragmatismo energético”.

Nas palavras de um ex-executivo da BlackRock que pediu anonimato para falar livremente: “Foi um monte de promessas vazias feitas por um monte de gente de Wall Street que abandonou seus compromissos quando deixou de ser conveniente. Subimos a colina e depois descemos de volta.”

c.2026 The New York Times Company

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