A Polícia Civil investiga os advogados José Antônio Cremasco e Thaís Cremasco, pai e filha, suspeitos de receber valores de ações trabalhistas e previdenciárias e não repassar o dinheiro aos clientes. Além da investigação criminal, ambos respondem a processos disciplinares na OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo), que tramitam sob sigilo no Tribunal de Ética e Disciplina.
Os dois são nomes bem conhecidos na advocacia campineira e acumulam passagens por entidades da classe, atividades acadêmicas e atuação em diferentes áreas do Direito.
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Quem é Thaís Cremasco?
Natural de Campinas, Thaís Cremasco estudou na Escola Comunitária de Campinas e se formou em Direito pela Facamp. É especialista em Gênero, Saúde da Mulher e Direitos Humanos pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos.
A advogada atua principalmente nas áreas de Direito do Trabalho, direitos das mulheres e combate à violência de gênero e ao racismo. Thaís morou cerca de dez anos fora do Brasil, passando pelo norte da África, Europa e Emirados Árabes Unidos. Ao retornar ao país, retomou a carreira na advocacia em Campinas.
Em entrevista ao Grupo EP, a advogada afirmou que não se apropriou de recursos de clientes e atribuiu ao pai a responsabilidade pelos repasses financeiros do escritório (veja mais abaixo). Segundo ela, todos os advogados transferiam os valores recebidos em processos para uma conta administrada por José Antônio Cremasco.
Quem é José Antônio Cremasco?
José Antônio Cremasco é formado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), onde concluiu o curso em 1979. Especialista em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho, construiu carreira voltada à advocacia trabalhista e ao ensino jurídico.
Ao longo da trajetória, ocupou diversos cargos na OAB e em entidades da advocacia. Foi diretor-tesoureiro da OAB Campinas, presidente e fundador da Associação dos Advogados Trabalhistas de Campinas (AATC), diretor regional da Caixa de Assistência dos Advogados de São Paulo (CAASP) e conselheiro estadual da OAB-SP.
Também atuou como professor de Direito do Trabalho e Ética Profissional em instituições de ensino superior da região, além de integrar bancas examinadoras de concursos para a magistratura do Trabalho da 15ª Região.
José Antônio é ainda coautor do livro Manual de Ética Profissional do Advogado.
O que é investigado?
Segundo a Polícia Civil, há diversos inquéritos em andamento para apurar denúncias de clientes que afirmam ter vencido ações judiciais, mas não receberam os valores que teriam sido depositados em contas ligadas ao escritório.
A OAB-SP confirmou a existência de processos disciplinares contra pai e filha, mas informou que os procedimentos seguem sob sigilo e serão julgados conforme o devido processo legal.
O que está em jogo
O escritório de advocacia Cremasco, de José Antonio Cremasco e Thais Proença Cremasco, foi condenado pela Justiça a pagar R$ 239.551,93 a um cliente que não recebeu os valores obtidos em uma ação trabalhista. A sentença, publicada na sexta-feira (3), ainda fixou indenização de R$ 20 mil por danos morais. Cabe recurso.
Segundo a decisão do juiz Felipe Guinsani, da 7ª Vara Cível de Campinas, o trabalhador contratou o escritório para representá-lo em uma ação que tramitou na 10ª Vara do Trabalho de Campinas.
Ao final do processo, o cliente teve decisão favorável e recebeu o direito a uma indenização de R$ 319.402,58. Pelo contrato firmado entre as partes, 25% do valor seriam destinados ao escritório a título de honorários advocatícios, enquanto os R$ 239.551,93 restantes deveriam ser repassados ao trabalhador.
De acordo com a sentença, o cliente descobriu, por meio de um alvará judicial, que o valor já havia sido levantado e depositado em uma conta vinculada ao escritório de advocacia.
Ainda conforme o processo, ele chegou a enviar uma notificação extrajudicial aos advogados solicitando o repasse do dinheiro, mas afirmou que não recebeu resposta. Diante da situação, ingressou com uma ação na Justiça para cobrar o montante.
Na decisão, o magistrado entendeu que houve descumprimento contratual e retenção indevida dos valores.
“A conduta dos réus configura inadimplemento contratual e ato ilícito, na medida em que os mandatários levantaram os valores resultantes do êxito da reclamação trabalhista e não os repassaram ao mandante, retendo montante além do que lhes era autorizado pelo contrato”, escreveu o juiz.
Além da restituição dos R$ 239,5 mil, José Antonio Cremasco, Thais Proença Cremasco e o escritório foram condenados ao pagamento de R$ 20 mil por danos morais. A decisão ainda pode ser contestada por recurso.
Outro casos
De acordo com a Polícia Civil, há diversos inquéritos em andamento para apurar denúncias de clientes que afirmam ter vencido ações judiciais, mas nunca receberam os valores que teriam sido depositados na conta do escritório de advocacia.
Um dos casos é o do ambulante de Campinas Felipe Costa de Araújo, que entrou com uma ação trabalhista após sofrer um acidente de trabalho. Segundo ele, depois de anos sem receber respostas do escritório, decidiu contratar outro advogado.
“Comecei a ligar para eles, mas sempre me enrolavam. Cansei e procurei outro advogado. Foi quando descobri que o valor já tinha sido pago”, afirmou.
O novo defensor de Felipe, Jairo Inácio do Nascimento, disse que a empresa condenada depositou cerca de R$ 62 mil em juízo aos advogados acusados.
“Tínhamos a cópia do alvará judicial. O doutor Cremasco confirmou que verificaria a situação e pediu um prazo de um mês. Depois foi assinado um termo de confissão de dívida”, relatou.
Outro cliente que afirma ter sido prejudicado é Edson Vidotti, de 66 anos, também de Campinas. Segundo ele, após vencer uma ação contra a Emdec (Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas), passou meses procurando o escritório em busca dos valores.
“Eu ia lá e eles diziam que o dinheiro ainda não tinha caído”, contou.
O advogado de Edson, Danilo Andrierra, afirma que documentos do processo mostram que aproximadamente R$ 472 mil foram depositados na conta da advogada Thaís Cremasco até dezembro de 2023.
“Existem comprovantes de transferência bancária no processo. Apesar disso, apenas R$ 55 mil foram repassados ao cliente. O restante permaneceu retido, já descontados os honorários advocatícios. A justificativa apresentada era de problemas operacionais para identificar os valores de cada cliente”, afirmou.
Segundo o advogado, a Justiça condenou o escritório ao pagamento dos valores, mas o cliente ainda não recebeu a quantia dos advogados.

O que diz a OAB
A Ordem dos Advogados do Brasil, Seção São Paulo, confirmou que há processos disciplinares em andamento contra os profissionais no Tribunal de Ética e Disciplina. A entidade informou que os procedimentos tramitam sob sigilo e terão decisão ao fim da apuração.
O que diz Thaís Cremasco
Em entrevista à EPTV, Thaís Cremasco afirmou que os valores das ações não eram depositados em sua conta pessoal e que só tomou conhecimento das reclamações após ser procurada pelos clientes.
Segundo ela, todos os advogados do escritório deveriam transferir os recursos recebidos para uma conta indicada por José Antônio Cremasco, responsável, segundo seu relato, por efetuar os pagamentos aos clientes.
“Os clientes pediam andamento do processo e eu levava esses questionamentos ao Cremasco. Ele sempre dizia: ‘o processo é meu, o cliente é meu, passe o cliente para mim que eu vou resolver’”, afirmou.
A advogada disse ainda que, antes do rompimento da relação profissional e familiar com o pai, em 2024, ele teria assinado um documento reconhecendo a responsabilidade pelas dívidas com clientes.
“É muito difícil reconhecer isso como filha, mas é muito nítido que José Antônio cometeu apropriação indébita”, declarou.
Ela também afirmou que pretende colaborar com as supostas vítimas e buscar formas de garantir o ressarcimento dos valores devidos.

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O que diz José Antonio
O advogado enviou uma nota, na qual diz:
- Que não tinha gestão financeira do escritório no período entre 2022 e 2024, quando a dra. Thaís Proença Cremasco, filha do signatário, detinha total gerência tanto da conta corrente de minha conta empresarial como de sua própria;
- Que, mesmo assim, tem encaminhado e pago processos de clientes da Advocacia, mesmo quando estes valores sequer foram pagos em sua conta corrente empresarial ou tiveram montantes à sua disposição;
- Que a dra. Thaís Cremasco não tem vínculos com a Advocacia Cremasco desde novembro/2024, encontrando-se junto à Justiça processo de prestação de contas do período supra;
- Que não há qualquer notícia de cliente que não tenha recebido valores decorrentes de processos desde o ano de 2025 ou anteriormente a 2022;
- Que efetuou a contratação de profissional especialista em administração de escritórios em agosto/2025, terceiro a qualquer relação pessoal, a fim de organizar financeiramente os recebimentos da Advocacia Cremasco e não haver problemas como os mencionados em referida matéria;
- Que o Judiciário, mesmo ciente da situação, continua a emitir alvarás de levantamento à dra. Thaís Proença Cremasco, mesmo com procuração especial para recebimento revogada expressamente desde sua saída do escritório, em novembro/2024;
- Que reconhece sua responsabilidade pelo nome do escritório e se encontra à disposição de todos os clientes, atuando em Campinas desde 1980 e no mesmo endereço profissional há mais de 20 anos, efetuando o pagamento de todos os clientes em atraso na medida em que tem novos recebimentos.
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