
O Brasil precisa reformular sua estratégia de combate ao crime organizado, com foco em investigações baseadas em inteligência e no enfrentamento da infiltração de facções no Estado.
A avaliação consta do relatório mundial de 2026 da Human Rights Watch, divulgado nesta quarta-feira (4), que analisa a situação dos direitos humanos em mais de cem países.
No capítulo dedicado ao Brasil, a organização afirma que as políticas de segurança pública adotadas atualmente são insuficientes para desmantelar estruturas criminosas complexas, que operam de forma articulada com setores do poder público e da economia formal.
Segundo a HRW, autoridades brasileiras deveriam priorizar “investigações aprofundadas e baseadas em inteligência” para identificar vínculos entre organizações criminosas e agentes estatais.
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Entre as recomendações apresentadas estão o uso de propostas baseadas em ciência e dados, o fortalecimento da investigação policial, a independência das perícias em todo o país e uma coordenação mais eficaz entre órgãos federais e estaduais.
A ONG também defende ações específicas contra lavagem de dinheiro, tráfico de armas e as fontes de financiamento das facções, além da proteção simultânea dos direitos da população e dos próprios policiais.
O relatório cita investigações recentes que revelaram a atuação do Primeiro Comando da Capital em setores como transporte público e mercado de combustíveis, além do uso de fundos de investimento sediados na Faria Lima para lavar recursos ilícitos. Também são mencionados esquemas para fraudar contratos municipais.
Um dos episódios destacados foi a condenação, pela Justiça Militar, de 11 policiais militares que faziam segurança ilegal para Antonio Vinícius Gritzbach, delator do PCC executado no Aeroporto de Guarulhos, caso que expôs conexões entre o crime organizado e agentes públicos em São Paulo.
As conclusões são corroboradas com pesquisas de opinião pública. Levantamento do Ipsos-Ipec, divulgado no final de janeiro, mostra que 41% dos brasileiros apontam crime e violência como a principal preocupação do país. Em 2025, o tema ganhou ainda mais destaque após uma megaoperação policial contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, que deixou 121 mortos, incluindo quatro policiais.
O relatório também observa que, apesar da queda nos homicídios, houve aumento das mortes provocadas por policiais. Dados do Ministério da Justiça indicam que 6.519 pessoas morreram em ações policiais em 2025, alta de 4,5% em relação ao ano anterior.
Para a HRW, o país precisa adotar propostas que protejam efetivamente os direitos fundamentais e reduzam a letalidade das forças de segurança.
Além da segurança pública, o documento menciona outros temas relevantes para o ambiente institucional e econômico, como investigações sobre emendas parlamentares, a fraude bilionária no INSS, a situação de superlotação do sistema prisional e decisões recentes do STF sobre direitos civis.
O diagnóstico da organização é que, sem mudanças estruturais na política de segurança, o avanço do crime organizado continuará a gerar custos elevados para o Estado, a economia e a credibilidade institucional do país.
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