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De Among Us ao WhatsApp: o caminho do grooming que as Big Techs facilitam

por SampaNews 18 de maio de 2026
18 de maio de 2026
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Em 2020, a dinâmica minimalista do jogo Among Us fez muito sucesso. Um grupo de tripulantes espaciais tenta reparar os sistemas de uma nave enquanto, infiltrado entre eles, um “Impostor” mimetiza as vestimentas, finge executar tarefas idênticas, apaga a luz e sabota reatores a fim de isolar e eliminar a equipe — uma pessoa de cada vez. O perigo não vem de um monstro facilmente identificável. A ameaça está camuflada e compartilha a convivência legítima.

Seis anos depois, passada a pandemia de COVID-19, os impostores espaciais podem servir de metáfora para os algoritmos opacos das redes sociais. Em maio de 2026, a publicação da pesquisa “Violência sexual on-line contra crianças e adolescentes no Brasil: Mapeamento dos Fatores de Vulnerabilidade e Dinâmicas de Risco“, da ChildFund Brasil, ilumina os corredores da nossa infraestrutura digital. Lançado dois meses após o início da vigência do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital, Lei nº 15.211/2025), o estudo joga para o espaço qualquer visão de que o risco para crianças e adolescentes no ambiente online seja um exagero de pessoas avessas à tecnologia.

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A falácia corporativa da neutralidade tecnológica

Em termos retóricos, quem tem ceticismo contra a regulação legal e lobistas das grandes empresas de tecnologia adotam uma estratégia verbal dissimulada de enorme deslealdade argumentativa. Sustentam repetidamente que as plataformas digitais são meras ferramentas neutras, espaços abertos onde o sucesso ou o fracasso da segurança depende exclusivamente de escolhas da família ou de um rígido policiamento doméstico. Argumentam que o dever de vigiar o ambiente virtual de crianças e adolescentes pertence estritamente ao âmbito privado, blindando a arquitetura digital contra qualquer intervenção fiscalizatória do Estado, a pretexto de resguardar a liberdade de expressão. É exatamente aqui que esse argumento desmorona.

Tratar as redes sociais e os ecossistemas de jogos como ambientes neutros é ignorar deliberadamente que o risco digital é um produto sistêmico, desenhado por escolhas de design voltadas ao engajamento compulsivo. O princípio constitucional da proteção integral e o mandamento do melhor interesse da criança não toleram a privatização exclusiva de uma responsabilidade que, por força jurídica, é compartilhada com Estado e sociedade. Atribuir a vulnerabilidade infantojuvenil unicamente a uma falha na supervisão familiar é uma cortina de fumaça para eximir as Big Techs de suas falhas estruturais na moderação de conteúdo.

O mimetismo do aliciamento e a conivência das caixas-pretas

Os dados quantitativos colhidos pela ChildFund Brasil com 8.436 adolescentes brasileiros revelam contornos epidemiológicos: 41% dos jovens relataram interações diretas com pessoas desconhecidas suspeitas na rede. O estudo traça uma radiografia exata da mecânica do impostor ao demonstrar o processo itinerante do aliciamento online, também conhecido como grooming. Quem abusa inicia a aproximação em ambientes públicos e de alta circulação (como os servidores do jogo GTA 5), utiliza perfis falsos e recursos tecnológicos como alteradores de voz para mimetizar o linguajar do público-alvo e, logo em seguida, migra para plataformas de comunidade (como o Discord) sob o pretexto de “resolver coisas do jogo”. O desfecho ocorre em aplicativos de mensagens privadas e encriptadas (como o WhatsApp), um ambiente sem recurso e isolado, no qual a troca de imagens íntimas e a coerção se consolidam fora de qualquer radar comunitário.

Como o Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS) já demonstrou em suas pesquisas e reflexões pioneiras sobre o devido processo na moderação de conteúdo online, as plataformas operam sob uma lógica autorreferente de caixa-preta. Os sistemas de inteligência artificial de moderação automática geram um volume inaceitável de falsos positivos e falsos negativos, punindo postagens legítimas de conscientização enquanto deixam passar padrões sofisticados de assédio comportamental. As empresas insistem em tratar a segurança como uma mera obrigação de meio, entricheirados atrás de porcentagens de sucesso e alegando que bastam botões de denúncia genéricos e que respeitam os seus termos de uso.

O ecossistema digital não pode continuar operando dessa forma tão opaca. Quando a arquitetura das plataformas facilita a migração ágil de agressores de ambientes de lazer para chats privados, as empresas se mostram coniventes com a facilitação do risco. A razoabilidade exige a transição imediata para uma obrigação de resultado, na qual a transparência algorítmica e a auditabilidade de sistemas sejam premissas inegociáveis de funcionamento no mercado brasileiro.

A madrugada como território de sabotagem e o vácuo relacional

Realizada pela ChildFund Brasil, a análise processada por técnicas avançadas de processamento de linguagem natural nos grupos focais da pesquisa trouxe à tona uma métrica perturbadora: o sentimento de insegurança online é 2,26 vezes maior no período noturno e na madrugada. Trata-se do momento exato em que as luzes da nave são sabotadas. No isolamento dos quartos, sem o monitoramento diário dos adultos e imersos em estados de vulnerabilidade emocional, adolescentes enfrentam sem companhia as investidas de perpetradores. As entrevistas profundas realizadas com agressores condenados no Distrito Federal revelam que eles identificam cirurgicamente jovens que enfrentam carências afetivas ou ambientes familiares restritivos. A pessoa que pretende abusar se oferece a preencher esse “vácuo relacional” oferecendo escuta, validação e acolhimento simulado para, posteriormente, acionar o medo da reprovação moral como mecanismo de silenciamento.

E o silêncio que permanece nas dinâmicas familiares é ensurdecedor. Embora mais da metade dos jovens receba admoestações vagas sobre os perigos da internet, a pesquisa aponta que apenas 6% entre adolescentes sabem como ou onde denunciar uma situação de violência online. Esse abismo informacional prova que saber manusear a interface técnica de um smartphone não significa possuir repertório crítico e maturidade emocional para identificar abusos psicológicos estruturados. Não existem nativos digitais, que nascem sabendo tudo sobre as tecnologias de informação e comunicação contemporâneas.

A falta de canais institucionais de denúncia que sejam ágeis e sensíveis ao trauma perpetua a subnotificação. Sem o acolhimento imediato do Estado e das redes, a vítima internaliza a culpa, prolongando o dano psicológico por décadas até a sua vida adulta. O art. 30 do ECA Digital e o art. 11 do Decreto nº 12.880/2026 tentam romper esse isolamento ao exigir configurações padrão mais restritivas de privacidade e sistemas de verificação etária robustos, impedindo que crianças naveguem sem salvaguardas automáticas nas zonas de maior exposição noturna.

A urgência cívica e a superação do abandono digital

Não podemos conceber que as discussões em torno do PL 2338/2023, que visa regulamentar os sistemas de inteligência artificial no Brasil, caminhem dissociadas da realidade empírica apresentada neste mapeamento de danos. A exposição precoce e desassistida de 43% dos adolescentes a conteúdos pornográficos online funciona como um vetor de dessensibilização, distorcendo de forma drástica as percepções sobre consentimento, limites corporais e alteridade nas relações afetivas. Quando os próprios perpetradores entrevistados admitem racionalizações jurídicas absurdas (como a alegação de um professor doutor de 56 anos de que “acreditava que pegar nos peitos não era crime”), fica evidente que a ausência de parâmetros legais nítidos e aplicáveis constrói um território de anomia moral.

Delegar a proteção da infância à autorregulação voluntária das Big Techs é uma escolha política equivocada. As plataformas lucram ativamente com o tempo de tela gerado pelo engajamento noturno e pelas interações desreguladas de crianças e adolescentes. Logo, a proporcionalidade dita que arquem com os custos sociais e jurídicos da efetiva mitigação dos riscos inerentes aos seus modelos de negócios. Na nave brasileira organizada desde a Constituição Federal de 1988 e pelo ECA de 1990, o melhor interesse de crianças e adolescentes deve prevalecer de forma absoluta e prioritária sobre interesses comerciais (e o ECA Digital reforça essa missão para ecossistemas digitais deliberadamente desenhados para a opacidade), sempre em harmonia com direitos fundamentais de pessoas adultas, mas jamais como uma tarefa secundária.

Convocando a reunião de emergência

Em Among Us, a tripulação caminha célere para a derrota quando os jogadores optam por ignorar os sinais de sabotagem espalhados pelas salas ou quando se recusam a confrontar os indícios de autoria por medo do dissenso ou da complexidade do debate. Se uma pessoa está com o apelido “General Ross” algum indício deve ser notado. Por sua vez, as corporações digitais seguem mobilizando argumentos retóricos corporativos e alegando supostas impossibilidades técnicas para adiar a implementação das barreiras protetivas do ECA Digital. Parece suspeito.

A sociedade civil e o Estado brasileiro não possuem o luxo de esperar. Em paralelo à pressão normativa sobre as empresas, por exemplo, Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), Comitê Gestor da Internet (CGI.br), Ministérios da Educação, Cultura e Ciência e Tecnologia, além do ecossistema tecnológico e dos centros de pesquisa: toda a tripulação poderia buscar, em conjunto, estruturar uma política nacional de educação digital crítica para crianças e adolescentes. Precisamos de alguns planos comuns para que possamos vencer esse enfrentamento.

Todo dia 18 de maio, desde o ano 2000, o Brasil celebra o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A data exige mais do que textos de consciencialização. A tripulação precisa votar para ejetar o impostor: Estado e plataformas (e sociedade em geral) devem assumir, de forma proporcional, os ônus da proteção de direitos que a Constituição de 1988, o ECA de 1990 e o ECA Digital de 2025 já determinam.

Garantir a integridade física, psíquica e moral da infância e da adolescência no ambiente virtual é a nossa prioridade absoluta. Os impostores continuam ativos nos servidores, operando nas brechas das nossas omissões legislativas e familiares. O argumento da conivência técnica travestida de neutralidade foi jogado para o espaço sideral.

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