
A decisão do governo Trump de aliviar o envio de combustíveis para o nascente setor privado de Cuba faz parte de um plano para tornar a ilha mais dependente dos Estados Unidos em termos de suprimentos, aumentando o poder de barganha de Washington para promover mudanças políticas e econômicas, segundo pessoas a par da estratégia.
Uma quarentena na remessa de petróleo bruto a Cuba levou o país caribenho à beira de uma crise humanitária, depois que os EUA capturaram o líder da Venezuela e afastaram o México com a ameaça de tarifas. A crise de energia deve forçar o governo em Havana a aceitar petróleo sob condições impostas pelos EUA, dando ao governo Trump uma forma de afrouxar o controle do Partido Comunista após mais de seis décadas de domínio ininterrupto.
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Quatro cubanos armados a bordo de uma lancha rápida registrada na Flórida morreram em um tiroteio com tropas de fronteira de Cuba nesta quarta-feira, segundo autoridades
O plano continua em construção, embora as tensões estejam elevadas após o confronto fatal de quarta-feira entre autoridades cubanas e um grupo de 10 cubanos que vivem nos EUA a bordo de uma lancha rápida registrada na Flórida, próximo à costa da ilha.
A estratégia de Trump inclui tranquilizar empresas de energia de que elas podem vender petróleo e combustível para pequenas e médias empresas privadas cubanas, disseram as fontes, que pediram anonimato por não estarem autorizadas a falar publicamente.
Outra parte do plano é autorizar a revenda de petróleo venezuelano para Cuba, com o Departamento do Tesouro afirmando que seu Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) vai “implementar uma política favorável de concessão de licenças” em casos específicos. Vendas que beneficiem o governo cubano continuam proibidas.
Questionado sobre a estratégia, um funcionário da Casa Branca disse que “Cuba é uma nação falida, cujos governantes sofreram um grande revés com a perda do apoio da Venezuela e com o fim do envio de petróleo pelo México”.
Diante de uma crise aguda de energia, Cuba passou recentemente a permitir que empresas privadas importem combustíveis sob certas condições. Embora os volumes ainda sejam pequenos, o objetivo é ampliar essas operações a ponto de transformar as empresas americanas na principal fonte de petróleo para o setor privado cubano, substituindo décadas de dependência de remessas de aliados de esquerda simpáticos ao governo de Havana, disseram as fontes.
A nova estratégia “sinaliza que o governo Trump está reconhecendo o setor privado cubano como um parceiro legítimo no terreno”, disse Ricardo Herrero, diretor executivo do Cuba Study Group, think tank sediado em Washington. “Não é algo que vá substituir toda a indústria de petróleo, mas vai levar combustível para onde ele é mais necessário.”
O incidente de quarta-feira, porém, evidencia o quão volátil é a situação dos dois lados do Estreito da Flórida. A Guarda Costeira cubana atirou e matou quatro dos 10 passageiros da embarcação, afirmando que o grupo estava fortemente armado e planejava lançar uma insurreição na ilha.
O secretário de Estado, Marco Rubio, em comentários contidos durante uma cúpula de líderes caribenhos em São Cristóvão, anunciou que os EUA conduziriam sua própria investigação antes de tirar conclusões. Por ora, o tiroteio é pouco provável de atrapalhar os planos de Washington, disse uma das fontes.
O presidente Donald Trump reforçou a ofensiva para derrubar o regime em Havana após a operação de janeiro que capturou Nicolás Maduro, um dos maiores padrinhos de Cuba. Rubio, filho de imigrantes cubanos, disse à Bloomberg News neste mês que Havana terá de oferecer mais liberdade econômica e política para aliviar a pressão dos EUA.
O plano de Trump segue a Estratégia de Segurança Nacional divulgada em dezembro, que reafirma a primazia dos EUA no Hemisfério Ocidental, em especial diante de potências externas como Rússia e China — uma espécie de derivação da Doutrina Monroe do século 19. Embora Moscou apoie Cuba há décadas, a China ampliou sua atuação na ilha nos últimos anos.
Os primeiros embarques para empresas privadas têm sido de diesel, usado para movimentar caminhões e geradores em uma ilha que há anos sofre com apagões constantes. A rede elétrica precária de Cuba depende de antigas termelétricas que precisam de cerca de 100 mil barris de petróleo por dia para atender à demanda. A ilha produz apenas dois quintos disso, o que a torna dependente de fornecedores externos.
Após Trump ameaçar tarifar qualquer país que enviasse petróleo a Cuba, a ilha ficou mais de um mês sem receber uma grande carga pela primeira vez em mais de uma década. A demanda por combustível agora é esmagadora, segundo um consultor empresarial em Havana, que afirma que o processo de importação privada ainda é envolto em incerteza, já que por anos o monopólio das importações de combustível foi estatal.
Ainda assim, alguns importadores de alimentos e mercadorias conseguiram recentemente trazer combustíveis, disse Oniel Díaz, fundador da AUGE, que atende cerca de 30 pequenos negócios na ilha e já assessorou mais de 400 clientes ao longo dos anos.
Díaz também alertou para riscos de segurança. “Importar combustível não é a mesma coisa que importar cerveja ou frango”, afirmou. “Há muitos detalhes técnicos que ainda não estão claros.”
A instabilidade no fornecimento de energia levou muitos pequenos negócios a investir em painéis solares e baterias. Mas a escassez de combustível está sufocando empresas que dependem de entregas e de operação de máquinas pesadas. Cubanos que antes cozinhavam com gás agora preparam comida em fogo à lenha.
O primeiro movimento de Cuba para permitir que empresas privadas importassem combustíveis ocorreu em dezembro. Mas só no início deste mês, como parte de planos de contingência diante da quarentena imposta pelos EUA, o governo detalhou as regras. Hoje, importadores privados só podem trazer combustível para consumo próprio, sem revender a terceiros.
Mas “de alguma forma esse combustível vai acabar no mercado informal”, prevê Díaz. “A demanda é tão grande que alguém vai enxergar nisso uma oportunidade de negócio.”
É justamente esse espírito empreendedor — que ajudou os cubanos a atravessar o fim da União Soviética e agora a perda da Venezuela como patrocinadora — que os EUA esperam canalizar. Rubio disse a jornalistas, na quarta-feira, que Cuba tem “um sistema em colapso” e que Havana tem pouca alternativa a não ser mudar de rumo de forma agressiva.
“Se eles quiserem fazer reformas profundas que abram espaço para a liberdade econômica e, eventualmente, política para o povo cubano, obviamente os Estados Unidos gostariam de ver isso”, afirmou. “Nós seríamos parceiros.”
O governo Trump continua interessado em substituir o presidente cubano Miguel Díaz-Canel e tem mantido conversas com Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro, irmão de Fidel, segundo uma das fontes.
Na visão da administração americana, Díaz-Canel fracassou na economia e é incapaz de promover as mudanças políticas e econômicas necessárias, disse essa pessoa.
Coronel do Ministério do Interior, o jovem Castro é visto como alguém com laços familiares profundos com o conglomerado militar que controla grande parte da economia cubana.
Questionado sobre as negociações, o funcionário da Casa Branca disse: “Como o presidente declarou, estamos conversando com Cuba, e seus líderes deveriam fazer um acordo.”
O governo cubano ainda não reconheceu publicamente as conversas, e não está claro como os cubano-americanos no sul da Flórida, que apoiaram Trump, reagirão à ideia de o governo negociar com um membro da família Castro.
Mas, se a reação da comunidade venezuelana nos EUA à decisão americana de deixar o número 2 de Maduro no comando em Caracas servir de referência, Rubio e o presidente podem já estar em terreno relativamente sólido.
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