Embora os golpes virtuais tenham crescido nos últimos anos, as fraudes envolvendo a compra e venda de veículos continuam sendo uma das principais armadilhas para consumidores. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que, até julho deste ano, mais de 40 processos por estelionato deram entrada na Justiça de São Paulo, número superior ao registrado durante todo o ano passado.
Em Piracicaba, os dados também apontam uma mudança no perfil dos crimes. Em 2024, foram registrados 16 processos por estelionato. No mesmo período, foram criadas as categorias “outras fraudes” e “fraudes eletrônicas”. Em 2025, essas duas modalidades já somam 35 processos, enquanto o estelionato comum registra apenas cinco casos.
Segundo o delegado André França, os golpes são praticados por quadrilhas altamente organizadas.
“Nós temos percebido que são pessoas com um nível de sofisticação bastante elevado. São crimes complexos, praticados muitas vezes utilizando contas de laranjas e linhas telefônicas de terceiros. São investigações bastante complexas.”
Carro apreendido mesmo com toda a documentação regular
Uma das vítimas é Andrezza da Silva Santos, que realizou o sonho de comprar um carro seminovo financiado. Ela deu R$ 25 mil de entrada via Pix e concluiu o financiamento acreditando que toda a negociação era regular.
Segundo Andrezza, durante oito meses utilizou o veículo normalmente, até ser surpreendida por uma ordem judicial de busca e apreensão.
“Estou há 20 dias sem o meu carro, desde o dia 11, às 7h30, quando eles levaram o veículo do meu ambiente de trabalho.”
Ela afirma que apresentou toda a documentação e os comprovantes de pagamento, mas, mesmo assim, o veículo foi recolhido.
“É surreal a humilhação que eu passei. Mostrei todos os documentos do carro no meu nome, os comprovantes do financiamento, tudo. A resposta foi: ‘Eu não tenho o que fazer. Vou levar o seu carro’.”
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Veículo estava ‘limpo’ na época da compra
Segundo as autoridades, quando Andrezza comprou o veículo não havia qualquer restrição, bloqueio, multa ou débito registrado.
Após a apreensão, no entanto, foi constatado que o mesmo automóvel havia sido utilizado em outro financiamento, contratado em nome de uma pessoa desconhecida da compradora.
O advogado de Andrezza, Diego Goularte, afirma que ela foi vítima de uma fraude em cadeia.
“A minha cliente foi vítima de um golpe e, nesse golpe, existe uma escada de vítimas. Quando ela adquiriu o veículo, ele estava limpo em todas as pesquisas.”
Segundo o advogado, o antigo proprietário também havia comunicado ao banco que um financiamento havia sido registrado indevidamente em seu veículo.
“O banco reconheceu esse erro, comunicou o Detran e baixou o gravame. Quando faz isso, reconhece que houve um erro. O problema é que deixou de informar à Justiça que aquele financiamento era produto de uma fraude.”
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Golpe do veículo de leilão também preocupa
Outro crime que tem feito vítimas é o chamado “golpe do veículo de leilão”. Nesse tipo de fraude, criminosos prometem intermediar a compra de veículos com preços abaixo do mercado e exigem pagamentos antecipados.
Uma vítima relatou que acreditou na proposta feita por uma pessoa de sua confiança.
“Ele disse que já estava com o carro que eu precisava para o trabalho, informou o valor e falou que eu precisava fazer um Pix para liberar o veículo. Infelizmente, eu acreditei.”
Dias depois, os prazos foram sendo adiados até que ela percebeu que havia sido enganada.
“Quando fui buscar mais informações, descobri que estava lidando com um estelionatário e fui vítima de um golpe.”

Banco reconhece indícios de fraude
Em nota, o Itaú Unibanco informou que identificou indícios de irregularidades no contrato de financiamento vinculado ao veículo, registrado em nome de outra pessoa.
Segundo a instituição, o caso apresenta sinais de fraude e o banco afirmou que devolverá o automóvel à proprietária.
O Itaú também lamentou o ocorrido e informou que está revisando seus processos internos para evitar que situações semelhantes voltem a acontecer.
Especialistas orientam atenção redobrada
Autoridades reforçam que, antes de comprar um veículo, é importante verificar todo o histórico do automóvel, conferir a existência de financiamentos, gravames e restrições junto aos órgãos oficiais, além de desconfiar de ofertas muito abaixo do valor de mercado e evitar pagamentos antecipados sem garantias.
Segundo a Polícia Civil, o aumento da sofisticação das quadrilhas exige que consumidores redobrem os cuidados durante qualquer negociação envolvendo compra e venda de veículos.

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