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Guerra e salto do petróleo aumentam peso da segurança energética: como Brasil está?

por SampaNews 2 de maio de 2026
2 de maio de 2026
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Hidrelétrica de Itaipu (REUTERS/Cesar Olmedo)

Os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã, no coração da região responsável por boa parte da produção global de petróleo e gás, têm o potencial de redefinir o setor de energia, com implicações geopolíticas, num mundo já turbulento. O tarifaço de Donald Trump deu mais um passo rumo ao fim da ordem multilateral sob as Nações Unidas, enquanto cientistas vinham alertando para a lentidão da transição energética, desdenhada pela Casa Branca.

A guerra — maior disrupção na oferta de petróleo e gás da história, superando as crises dos anos 1970, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE) — incluiu de vez a dimensão da segurança na busca por fontes de baixo carbono, reforçando a importância de matrizes diversificadas e menos dependentes de poucos fornecedores, disseram especialistas ao GLOBO.

A junção de sustentabilidade ambiental com estratégia geopolítica, sinalizada desde 2022 com a invasão da Ucrânia pela Rússia, poderá arrastar ainda mais o ritmo da transição. O carvão, mais poluente das fontes fósseis, deverá ter uma sobrevida, enquanto a energia nuclear poderá ganhar fôlego para além de sua capacidade de atender a demanda crescente dos datacenters da inteligência artificial (IA). O Brasil é considerado bem preparado, mas não faltam riscos por todos os lados.

Alerta de AIE, FMI e Banco Mundial

Logo na abertura das reuniões de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, no último dia 13, os líderes dos organismos multilaterais se uniram ao diretor-executivo da AIE, numa declração conjunta, para alertar que “o impacto da guerra é substancial, global, e altamente assimétrico, afetando desproporcionalmente os importadores de energia, em particular países de baixa renda”.

“O choque levou a preços mais altos de petróleo, gás e fertilizantes, disparando preocupações sobre a segurança alimentar e também sobre perdas de empregos. Alguns produtores de petróleo e gás no Oriente Médio também viram uma perda dramática de receita com exportações”, diz a declaração.

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— O tema que orientará os próximos anos é como governos, empresas e populações vão procurar meios para reduzir sua insegurança e incerteza, e como isso impactará na estabilidade dos governos e nas relações econômicas internacionais — disse Luiz Carlos Delorme Prado, professor do Instituto de Economia da UFRJ, dando mais ênfase à segurança do que a preocupação ambiental que move a transição energética.

Quem acompanha as tendências da transição para o baixo carbono segue vendo um caminho sem volta, mas aposta numa associação das duas dimensões. A necessidade de diversificar fontes em prol da segurança, para não ficar dependente de importações de gás natural do Oriente Médio, por exemplo, levará os países a investirem mais em renováveis, segundo Clarissa Lins, sócia da consultoria de sustentabilidade Catavento e conselheira do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

Além disso, como a geração de eletricidade já é naturalmente mais nacional do que as demais componentes da matriz energética, os incentivos para a eletrificação poderão ser reforçados.

A sobrevida do carvão

Na combinação de segurança com baixo carbono, o carvão sobrevive, por mais poluente que seja, porque, no curto prazo, pode ser um porto seguro para quem depende da importação de petróleo e gás, especialmente na Ásia, que busca de 80% a 90% desses insumos no Oriente Médio.

 Tanto que, no início do mês, o governo da Índia pediu o adiamento, para julho, de uma série de paradas de manutenção em usinas termelétricas a carvão, que seriam feitas até junho, informou a agência Bloomberg. Dias antes, a Taiwan Power Co., estatal responsável por boa parte da geração de eletricidade da ilha que é a meca da produção de chips, anunciou que vai ampliar a produção de uma usina a carvão.

— A Ásia vai adiar o phase out (abandono gradual) do carvão, mas temos que entender o que é conjuntural e o que é estrutural. Estruturalmente, segue a corrida por renováveis. Até porque o carvão não é competitivo no médio prazo — disse Clarissa, lembrando que a China, cuja estratégia geopolítica chama a atenção ao focar também numa corrida por tecnologias verdes, investe para se tornar “campeã em energia de baixo carbono”, mas, por segurança, “não abre mão do carvão”.

Mais um argumento para a energia nuclear

A energia atômica poderá ganhar mais do que uma sobrevida. Seus defensores já listavam suas vantagens: produção constante de eletricidade, baixa emissão de gases do efeito estufa e geração de grandes quantidades em espaços menores do que os de usinas eólicas ou solares. Agora, a menor dependência do Oriente Médio também foi incluída.

De acordo com o relatório Perspectivas Mundiais de Energia de 2025, da AIE, o nível atual dos investimentos em usinas atômicas dobrou ante 2015. Hoje, a fonte nuclear responde por 5% da oferta global. Nas contas da AIE, a fatia chegará a 7% em 2050, mas poderá ficar em 8%, se as políticas de combate a mudanças climáticas já anunciadas forem levadas adiante.

A França, bastião da energia atômica na Europa, registrou mês passado a maior geração nuclear para meses de março desde 2019, de acordo com a Bloomberg. Até a Alemanha, que desligou em 2023 sua última usina — num acelerado plano de transição, reforçado pelo desastre de Fukushima, no Japão, em 2011 —, parece arrependida.

 — O phase out da energia nuclear foi um erro enorme e sentimos falta dessa energia, também porque ela era produzida por preços economicamente viáveis — disse a ministra de Assuntos Econômicos e de Energia da Alemanha, Katherina Reiche, no fim de março.

A ministra fez a avaliação durante a CERAWeek, encontro promovido pela Standard &Poor’s (S&P) em Houston (EUA), numa sessão, disponível no site do evento, mediada por Daniel Yergin, vice-presidente do conselho da consultoria e agência de risco.

Setor mais resiliente e diversificado

Para Yergin, renomado especialista em energia, uma guerra no Oriente Médio é o “cenário de pesadelo” desde a Revolução Islâmica no Irã, em 1979, mas o atual conflito encontra o setor “mais resiliente e diversificado”.

A resiliência aparece nos estoques de petróleo da China e dos países da AIE e nos oleodutos da Arábia Saudita — alternativa ao Estreito de Ormuz.

E “a maior mudança” na diversificação ocorreu nos EUA, segundo artigo de Yergin publicado no jornal britânico Financial Times, logo após o início da guerra. “Menos de duas décadas atrás”, diz o texto, os EUA eram “o maior importador de petróleo do mundo”. Hoje, são o maior produtor e o maior exportador de GNL, o gás natural liquefeito, após a revolução do xisto.

Segundo Lucas Boacnin, gerente de desenvolvimento de negócios da consultoria Argus no Brasil, os EUA estão numa melhor situação do que nas crises dos anos 1970, e os produtores americanos poderão sair ganhando como fornecedores mais confiáveis do que os países do Oriente Médio ou a Rússia. Mesmo assim, a transição energética seguirá seu rumo, disse o consultor:

— Também temos lá alguns dos maiores investimentos em descarbonização. O que tem de investimento em biorrefinarias nos EUA é muito relevante.

Para Clarissa Lins, do Cebri, a Casa Branca poderá defender as fontes fósseis, mas poderá encontrar pouco eco entre os potenciais clientes de suas exportações, justamente por causa da segurança, pois a “narrativa” de que as fontes fósseis são mais seguras “é confrontada pela realidade”, desde a guerra da Ucrânia:

— É a segunda crise na década.

A diferença da década de 1970 para agora

Se, agora, os EUA não são mais o grande importador dependente dos fornecedores do Oriente Médio, como nas crises da década de 1970, o contexto geopolítico é outro. Segundo o professor Delorme Prado, naquela época, houve outro evento marcante para a economia mundial: o abandono da conversibilidade do dólar com o ouro, em 1971.

 A combinação disso com a reação do Federal Reserve (Fed) à inflação disseminada pelas crises do petróleo — a mais famosa ação de um banco central contra a inflação via juros, levando a taxa básica americana ao recorde de 20% ao ano no fim de 1980 — levou ao fortalecimento do dólar e da hegemonia dos EUA, diante de uma União Soviética “enfraquecida” e de uma Europa “dependente financeira e militarmente” dos americanos.

Hoje, a hegemonia americana está ameaçada pela China. Para Prado, a posição atual dos EUA sob o governo Trump poderá trazer ainda mais riscos do que na década de 1970:

— Os EUA parecem não ter condição de impor sua agenda, mas têm a capacidade de desorganizar as instituições internacionais, afetar o funcionamento do comércio mundial e provocar crises econômicas e políticas.

Brasil está bem posicionado, mas há riscos

O Brasil é considerado bem preparado para as mudanças no setor de energia. Do ponto de vista da diversificação, a matriz energética brasileira já é das mais renováveis e menos dependentes, tanto de fósseis quanto de importações.

Neste ponto, é o contrário: com o pré-sal, o Brasil está entre os dez maiores produtores do mundo, e hoje é exportador líquido. A disparada nas cotações do barril trará mais dólares para o país, mais arrecadação para os governos e mais crescimento econômico. Como resultado, o câmbio não para de cair por aqui, mesmo com o clima de crise.

Além disso, o Brasil está na fronteira dos biocombustíveis: é o segundo maior produtor de etanol do mundo, experimenta um ciclo de investimentos bilionários na produção a partir do milho, que se soma à cana, e tem potencial para substituir boa parte do consumo de gás natural por biometano, substituto idêntico do insumo, fabricado a partir da decomposição de matéria orgânica, como lixo ou esterco.

 Mas nem tudo são flores. Nas palavras de Javier Toro, gerente sênior de pesquisa da consultoria Wood Mackenzie para o Cone Sul, “o Brasil está bem preparado, comparativamente, mas não está imune”, porque a proteção oferecida por essas vantagens comparativas tem limites:

— O Brasil ainda depende da geração termelétrica para cobrir os picos de demanda de eletricidade, importando GNL quando a geração a gás aumenta, criticamente, durante o período de seca, pois a geração das hidrelétricas fica mais fraca.

O consultor lembrou ainda que boa parte das usinas termelétricas tem contratos de fornecimento indexados a cotações de mercado do GNL, que assim como o barril de petróleo estão em disparada. O mesmo vale para o gás natural usado na indústria. O risco é a elevação generalizada de custos industriais e de transportes — por causa do diesel que move os caminhões — espalhar inflação por aqui.

— Estruturalmente, o Brasil segue melhor posicionado do que a maioria dos países para navegar por esta crise, mas os riscos de inflação ligados às cotações de petróleo e gás vão depender, ultimamente, da duração do conflito e do quão estressado será o ciclo hidrológico — resumiu Toro.

Clarissa Lins, do Cebri, alertou também para “oportunidades perdidas”. Uma delas é a redução da dependência do modal rodoviário movido a diesel na matriz logística — isso mesmo após o choque da greve de caminhoneiros de 2018, lembrou a consultora. Para complicar, o setor elétrico está cheio de desequilíbrios, como o excesso de geração eólica e solar que não é plenamente transmitida por todo o país, lembrou Clarissa.

E, do ponto de vista geopolítico, uma ordem mundial menos multilateral — temperada por belicismo e traços expansionistas, que surgem na captura de Nicolás Maduro pelos EUA na Venezuela e na retórica de Trump sobre a anexação da Groenlândia ou do Canadá —, poderá ser mais arriscada para o Brasil, país emergente sem capacidade militar de defesa, lembrou Prado.

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