A divulgação dos áudios envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro produziu a percepção de que a campanha presidencial do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro entrou em uma nova fase, mais defensiva, mais exposta e menos dependente apenas da força simbólica do sobrenome.
Para analistas políticos ouvidos no programa Mapa de Risco, do InfoMoney, o episódio interrompe a estratégia que vinha permitindo ao senador crescer nas pesquisas mantendo uma postura mais moderada, distante do tom de confronto associado ao bolsonarismo tradicional.
“Até aqui, desde o lançamento da candidatura, é o momento mais gravoso desse desempenho do senador Flávio Bolsonaro”, afirmou a analista de política da XP, Bárbara Baião.
Segundo ela, a campanha acreditava que o senador teria antecipado internamente qualquer informação potencialmente danosa envolvendo sua relação com Vorcaro e o Banco Master. O surgimento dos áudios, porém, alterou esse cenário.
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“O entorno da campanha já admite que essa narrativa do ‘bolsomaster’ deve prevalecer até que venham novos desdobramentos”, disse.
A expressão passou a circular entre integrantes do governo e aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como tentativa de associar o escândalo do Banco Master diretamente ao núcleo bolsonarista.
Campanha perde controle da narrativa
Até o episódio, Flávio vinha conseguindo ocupar um espaço considerado estratégico dentro da direita: o de uma candidatura mais “soft”, menos conflituosa e mais aceitável para setores do empresariado e do eleitorado de centro.
A ideia era preservar o capital político do bolsonarismo sem reproduzir integralmente o estilo de confronto do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na avaliação de Bárbara Baião, essa construção começa a sofrer desgaste justamente porque a campanha agora passa a ser obrigada a discutir temas concretos e responder diretamente às acusações.
“A gente pode estar vendo também o fim dessa primeira fase bem-sucedida dele, de construção de uma candidatura competitiva sem dar muito detalhe”, afirmou.
Segundo ela, o senador precisará acelerar a apresentação de propostas e construir uma narrativa mais propositiva para tirar a campanha do campo da corrupção.
“Ele agora vai ter que mostrar mais detalhes dessa versão light e talvez trazer outros temas de campanha”, disse.
Centro vira foco de preocupação
Para o analista político Leopoldo Vieira, da IdealPolitik, o principal risco político não está no eleitorado bolsonarista mais fiel, mas sim nos setores moderados que vinham começando a aceitar a candidatura do senador.
“Isso como imagem política afina a campanha dele principalmente no eleitorado de centro, classe média e indeciso”, afirmou.
Segundo ele, o problema para Flávio é que a ligação entre financiamento privado e o escândalo do Banco Master dificulta a tentativa de separar a relação pessoal do contexto político.
“No pleno ano eleitoral, a associação é imediata”, disse.
Leopoldo avalia ainda que o episódio toca justamente em uma das bandeiras historicamente mais sensíveis para o bolsonarismo, o discurso anticorrupção.
“Isso aí está no cerne do sentimento antissistema e da disputa pela bandeira da corrupção”, afirmou.
Polarização ainda protege candidatura
Apesar do desgaste, os analistas não enxergam, ao menos neste momento, risco real de colapso da candidatura de Flávio Bolsonaro.
A avaliação predominante é que a polarização consolidada continua funcionando como mecanismo de proteção para o núcleo duro do bolsonarismo.
“Acho que o eleitorado do ex-presidente Bolsonaro é muito fiel”, afirmou Leopoldo Vieira.
Na prática, isso significa que o impacto maior tende a ocorrer entre eleitores pendulares e segmentos que poderiam decidir uma eleição apertada.
“É uma disputa que deve ser definida numa margem muito pequena, de 1% a 3%”, disse o analista.
Nesse contexto, a crise não elimina a competitividade eleitoral de Flávio, mas altera o ambiente político da campanha e reduz a margem de conforto de uma candidatura que, até então, vinha crescendo sem precisar explicar muito sobre si mesma.
O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 5h da manhã, no YouTube e no seu tocador de podcast preferido.
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