
A longa busca para encontrar o sucessor de Bob Iger na Disney acabou (de novo) — e o próximo CEO será um escultor que virou executivo.
A Disney anunciou que Josh D’Amaro — presidente da Disney Experiences, responsável pelos parques temáticos, cruzeiros e produtos de consumo da empresa — assumirá o comando do conglomerado de entretenimento de quase US$ 200 bilhões no mês que vem.
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D’Amaro passou quase três décadas subindo a escada corporativa do Mickey Mouse, mas assumir a Main Street USA nem sempre fez parte do plano. O executivo de 54 anos já disse que a incerteza, e não um plano mestre, guiou grande parte de sua carreira.
Depois de crescer em Massachusetts, D’Amaro ingressou no Skidmore College com a intenção de se tornar escultor. Mas uma noite, no fim do segundo ano, mudou tudo. Às 2h da manhã, D’Amaro se viu soldando uma escultura de 3,6 metros, lidando com uma pergunta bem adulta: como ele sustentaria uma família como artista?
D’Amaro terminou a peça — uma figura humana abstrata que se estendia em direção ao céu —, mas logo tomou a decisão executiva de mudar de rumo. Transferiu-se para a Universidade de Georgetown e passou a cursar administração de empresas.
“Na minha cabeça, eu ia ser artista — pintava, esculpia e estudava arte, com um pouco de negócios ao lado”, disse D’Amaro a estudantes de Georgetown no ano passado. “Eu adorava, mas percebi que não fazia ideia do que diabos faria quando me formasse.”
Esse momento inicial de incerteza acabaria moldando sua filosofia de liderança. D’Amaro já revelou que não acredita em fingir ter todas as respostas: parte de seu crescimento mais importante veio de admitir quando não tinha.
“O momento em que você diz ‘não sei’ é uma das sensações mais leves, revigorantes e libertadoras que existem”, acrescentou D’Amaro. “Mais do que isso, as pessoas respondem a isso. Elas querem falar com você, dar conselhos, te puxar para perto. Você não está apenas se fortalecendo, está fortalecendo as pessoas ao seu redor.”
Tropeço no início da carreira pode moldar forma de encarar cargo de CEO
D’Amaro falou à Fortune em 2024 de seu escritório no estúdio da Disney em Burbank, Califórnia, onde um esboço do castelo da Cinderela pendia de uma parede e cinco fotografias em preto e branco de Walt Disney cobriam outra — um lembrete diário do legado e da oportunidade à sua frente.
“Todos os dias olho além do meu computador para aquelas fotografias”, disse ele, “para lembrar da responsabilidade que tenho.”
Esse senso de tutela provavelmente moldará a forma como D’Amaro encara o novo cargo, enquanto se prepara para assumir oficialmente o lugar de Iger em 18 de março. Mas ele dificilmente fará mudanças drásticas no primeiro dia. Em vez disso, aborda cada novo papel com a mesma mentalidade: começar ouvindo.
“Há um peso em um cartão de visitas com um cargo. Você começa a assumir aquela identidade, mas isso não é quem você é”, disse D’Amaro a estudantes de Georgetown. “Agora, toda vez que entro em um novo trabalho, digo: ‘não sei’. Mas sei que vocês sabem, e sei que posso ajudar.”
Essa lição veio de um erro no início da carreira — quando ele deu orientações de maneira equivocada a funcionários em sua primeira reunião após uma grande promoção.
“Depois, perguntei aos líderes seniores: ‘Por que ninguém disse nada?’ E eles responderam: ‘Você não perguntou’. Eu nem parei para dizer: ‘Gente, sou só o Josh. Não sei muito bem o que diabos estou fazendo’. Se eu tivesse dito isso, a sala teria ganhado vida”, contou D’Amaro. “Eles teriam dito: ‘Temos 10 ideias que ninguém ouviu ainda — vamos nessa.’”
No fim das contas, estar aberto ao desconhecido, disse o CEO da Disney, moldou de forma decisiva sua carreira e sua vida.
“Uma das coisas que digo aos meus filhos é: ‘Digam sim’. Se alguém oferecer algo um pouco fora do familiar, diga sim. Há tantas oportunidades inesperadas na vida — você precisa se abrir e explorar”, afirmou D’Amaro. “Nada nunca está perfeitamente alinhado… Às vezes, você só precisa prender a respiração e ir.”
Substituição de Bob Iger, um ícone
D’Amaro está assumindo um dos maiores cargos da mídia e entrando na sombra de um líder há muito tempo sinônimo da Disney.
O novo CEO e o executivo que sai, Iger, são “estranhamente semelhantes”, informou o New York Times, apontando seu comportamento parecido e a profunda identificação com a marca Disney. Eles até compartilham a mesma data de aniversário: 10 de fevereiro.
A comparação também ressalta o peso do cargo. Iger ocupou o posto de CEO pela primeira vez de 2005 a 2020, mas foi trazido de volta em 2022 após o mandato turbulento do sucessor Bob Chapek.
No topo, Iger ficou conhecido por uma ética de trabalho extenuante, frequentemente começando o dia às 4h da manhã e trabalhando até tarde da noite. Seus vínculos com a empresa remontam a quase cinco décadas, começando como meteorologista de uma afiliada da ABC em Ithaca, Nova York — anos antes de a Disney adquirir a ABC, em 1996.
Embora o cargo venha acompanhado de expectativas enormes, ele também traz grandes recompensas.
O pacote de remuneração total de D’Amaro deve ficar em torno de US$ 38 milhões. Em comparação, Iger recebeu pouco mais de US$ 45 milhões em 2025 — alta de mais de 45% em relação aos US$ 31 milhões de 2023, segundo documentos da Walt Disney Company enviados à SEC (equivalente à CVM nos EUA).
Iger atribuiu sua ascensão a três fatores: trabalho duro, grandes mentores e muita sorte. Ele também deixou claro que liderança é conquistar respeito — não buscar aprovação.
“Se você tenta conduzir um concurso de popularidade, então não toma as decisões difíceis”, disse Iger no Global Business Forum da Bloomberg, em 2019. “Acho que é preciso ser justo, acessível e comunicativo — mas popularidade não é uma das metas.”
Para D’Amaro — que já tem uma base de seguidores entre os fãs mais dedicados da Disney —, a tarefa agora é levar esse legado adiante enquanto define sua própria era, equilibrando continuidade e mudança em um momento decisivo para a empresa.
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