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NYT: EUA podem rotular facções do Brasil como terroristas após pressão dos Bolsonaro

por SampaNews 27 de março de 2026
27 de março de 2026
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O governo Trump avalia classificar as duas maiores facções do crime organizado no Brasil como grupos terroristas, após lobby de dois filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro — preso e aliado de Donald Trump —, segundo autoridades brasileiras e norte-americanas.

A segurança pública virou uma das principais preocupações do eleitor brasileiro, e uma eventual classificação poderia ampliar a visibilidade do tema e beneficiar politicamente um dos filhos de Bolsonaro, Flávio Bolsonaro.

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A proposta, discutida nas últimas semanas dentro do Departamento de Estado, acendeu o alerta em Brasília. A avaliação de integrantes do governo é que os EUA podem tentar interferir no processo eleitoral brasileiro para favorecer mais um Bolsonaro.

No ano passado, Trump recorreu a tarifas e sanções na tentativa de evitar que Jair Bolsonaro fosse preso por acusação de comandar uma tentativa de golpe após perder a eleição de 2022 para Lula. O ex-presidente acabou condenado e cumpre pena.

A administração Trump já classificou mais de uma dezena de gangues latino-americanas como organizações terroristas, dentro de uma estratégia para atingir grupos criminosos que, segundo Washington, ameaçam a segurança dos EUA — incluindo grandes cartéis mexicanos de drogas. Na prática, a designação permite impor restrições financeiras às organizações e a pessoas ligadas a elas.

No caso brasileiro, porém, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho não são protagonistas no envio de drogas aos Estados Unidos. O foco é a exportação de cocaína para a Europa e outros mercados.

Mesmo assim, o secretário de Estado, Marco Rubio, decidiu pressionar. Em 8 de março, um dia depois de Trump reunir em Washington líderes conservadores latino-americanos para discutir crime e tráfico, Rubio disse ao chanceler brasileiro que o governo Trump pretendia fazer a designação, segundo fontes a par da conversa.

Rubio também pediu ao ministro Mauro Vieira que o Brasil reconhecesse formalmente as facções como grupos terroristas. Vieira respondeu que o governo Lula não tomaria essa decisão, relataram essas fontes.

As declarações foram dadas sob condição de anonimato, devido ao teor sensível das conversas.

Megaoperação contra o Comando Vermelho no Rio (Foto: Reuters)

Rubio e Vieira devem voltar a se encontrar em uma reunião do G7, na França, nesta sexta-feira. Se tiverem uma conversa reservada, o tema deve retornar à mesa.

O Departamento de Estado ainda não bateu o martelo, e qualquer decisão interna pode ser revertida.

A pasta se recusou a comentar os planos, mas admitiu que as facções brasileiras estão no radar. Em nota, afirmou que os grupos representam “ameaças significativas à segurança regional devido ao envolvimento com tráfico de drogas, violência e crime transnacional”.

O Palácio do Planalto também não quis comentar a possibilidade de designação pelos EUA.

Um integrante do governo Lula disse que Brasil e Estados Unidos vêm negociando, nas últimas semanas, medidas conjuntas contra lavagem de dinheiro e tráfico de armas ligados às facções. Segundo ele, a iniciativa de Trump de rotular os grupos como terroristas pode comprometer esse diálogo.

Em nota, Flávio Bolsonaro declarou não apoiar “interferência estrangeira” para resolver o problema das facções no Brasil, mas defendeu “cooperação internacional” no tema.

Eduardo Bolsonaro não respondeu aos pedidos de comentário antes da publicação. Depois que a reportagem foi divulgada, enviou uma nota afirmando que sua atuação é “diplomacia parlamentar”, e não lobby. Disse ainda que não buscava ajudar o irmão, mas “ajudar brasileiros comuns”.

Nos bastidores, aliados próximos de Jair Bolsonaro atuam há meses para convencer autoridades americanas de que as facções brasileiras representam uma ameaça direta à segurança e aos interesses dos EUA, segundo duas pessoas com conhecimento das tratativas.

Flávio Bolsonaro — além de candidato à Presidência, senador — esteve em Washington na primavera passada, onde se reuniu com integrantes da Casa Branca e do Departamento de Estado. De acordo com essas fontes, ele foi acompanhado por Eduardo Bolsonaro, que tem passado longos períodos nos Estados Unidos tentando aproximar Trump do pai e do movimento conservador da família.

Durante a viagem, Flávio, então presidente de uma comissão de segurança no Senado, entregou a autoridades americanas um relatório sobre a atuação das facções no Brasil e no exterior. Segundo um dos presentes, o dossiê detalhava supostos esquemas de tráfico de armas e lavagem de dinheiro.

Eduardo, Jair e Flávio Bolsonaro (Foto: Reprodução/Twitter)

No governo Lula, há receio de que o rótulo de terrorismo permita aos EUA impor sanções a bancos brasileiros que, sem saber, tenham feito operações com empresas ou pessoas ligadas às facções.

Outra preocupação é que a designação abra brecha para ações militares unilaterais dos EUA em território brasileiro, ainda de acordo com essa fonte.

Trump já usou o enquadramento de grupos criminosos como terroristas para justificar uma série de ações militares na América Latina, incluindo dezenas de ataques letais a embarcações que ele dizia, sem apresentar provas, transportar drogas rumo aos EUA. A inclusão de organizações venezuelanas nessa lista também foi usada na argumentação pública da Casa Branca para a operação militar que visou capturar o presidente Nicolás Maduro, em janeiro.

Neste mês, autoridades americanas afirmaram ter bombardeado um suposto campo de treinamento de traficantes no Equador. Uma investigação do New York Times mostrou, porém, que o alvo era uma fazenda.

O Brasil tem legislação antiterrorismo, mas não enquadra o tráfico de drogas como terrorismo nem mantém uma lista própria de grupos terroristas. O país segue as decisões do Conselho de Segurança da ONU, aplicando sanções a organizações que a entidade inclui oficialmente como terroristas.

Rotular facções do tráfico como grupos terroristas seria, portanto, uma mudança profunda de orientação. E ceder à pressão dos EUA iria contra o discurso de Lula contra a interferência americana em assuntos internos, que ele costuma apontar como ameaça à soberania brasileira.

Pelo lado americano, dois nomes são citados como principais defensores da medida: Darren Beattie, recém-nomeado enviado de Trump para o Brasil, e Ricardo Pita, assessor do Departamento de Estado.

Beattie, que já afirmou que a última eleição brasileira foi “roubada” de Bolsonaro, causou constrangimento diplomático neste mês ao tentar visitar o ex-presidente na prisão — o que levou o Brasil a revogar seu visto.

Até pouco tempo atrás, Beattie era responsável pela área de diplomacia pública do Departamento de Estado e atuava para aproximar o governo Trump de partidos da extrema direita em outros países. No primeiro mandato de Trump, ele foi demitido do cargo de redator de discursos da Casa Branca após participar de um evento com presença de nacionalistas brancos.

Darren Beattie, assessor de política dos EUA para o Brasil, tentou visitar Bolsonaro na prisão. Crédito: Rebecca Noble para The New York Times

Em maio de 2025, durante viagem ao Brasil, Ricardo Pita visitou Bolsonaro enquanto ele aguardava julgamento e posou para fotos com o ex-presidente, segundo publicações de Eduardo Bolsonaro nas redes sociais.

Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão por planejar um golpe de Estado, mas foi transferido para prisão domiciliar, por problemas de saúde.

Apesar de resistir à pressão para aderir ao rótulo de terrorismo, Lula tenta mostrar a Washington que leva o problema do crime organizado a sério.

O Planalto afirmou que o presidente pretende discutir o combate ao tráfico de drogas com Trump em uma próxima visita à Casa Branca.

A ofensiva contra cartéis e facções de drogas se tornou um dos principais temas políticos na América Latina, impulsionando partidos de direita que acusam a esquerda de ser conivente com o crime.

No Brasil, Flávio Bolsonaro e outros parlamentares de direita tentaram avançar projetos para classificar facções como organizações terroristas, mas as propostas não prosperaram até agora.

“Está claro que a direita quer explorar politicamente esse tema”, avalia Fábio Kerche, professor de ciência política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. “Eles tentam vender a ideia de que a esquerda protege os criminosos.”

O PCC e o Comando Vermelho se expandiram pelo país e hoje alcançam até comunidades remotas na Amazônia, por meio de violência e extorsão. Autoridades brasileiras afirmam que os grupos também se infiltraram no sistema financeiro, com participação em distribuidoras de gás, negócios imobiliários e operações em criptomoedas.

Embora o combate direto ao tráfico seja, em grande parte, responsabilidade de estados e municípios, Lula reagiu à pressão política ampliando os poderes da Polícia Federal para enfrentar o crime organizado e confiscar patrimônio.

Na prática, o tema pode ser decisivo nas urnas: uma pesquisa recente mostrou que crime e violência são a principal preocupação de quase metade da população.

“A realidade é que Lula está entre a cruz e a espada”, resume Thomas Traumann, analista político e ex-porta-voz de um ex-presidente de esquerda.

c.2026 The New York Times Company

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