
Uma decisão técnica prevista para esta quarta-feira (20) pode afetar diretamente o valor da conta de luz dos brasileiros nos próximos anos. O governo federal discute reduzir o nível de aversão ao risco do setor elétrico brasileiro, conhecido pela sigla CVaR, mecanismo que influencia a operação das hidrelétricas e o acionamento de usinas termelétricas.
O tema será analisado pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), coordenado pelo Ministério de Minas e Energia. O debate ganhou peso após entidades do setor estimarem que uma mudança no parâmetro atual poderia gerar economia de até R$ 5,4 bilhões ao sistema e aliviar tarifas a partir de 2027.
Hoje, o modelo brasileiro opera com o chamado CVaR 15/40. A proposta em discussão é reduzir o índice para 15/35 ou 15/30.
O que significa o CVaR
O CVaR, sigla para Conditional Value at Risk, é um parâmetro usado pelos modelos computacionais do setor elétrico para medir o risco de escassez de energia.
Na prática, ele determina quão conservadora será a operação do sistema elétrico diante dos piores cenários de chuva e armazenamento dos reservatórios hidrelétricos já registrados no país.
O indicador influencia diretamente decisões sobre quanto de água deve ser preservado nos reservatórios e quando usinas termelétricas devem ser acionadas para garantir segurança energética.
Mudança pode poupar R$ 5,4 bi em custo de energia, diz Frente Nacional
Debate no governo opõe consumidores e geradores sobre nível de segurança usado na operação das hidrelétricas
Quanto maior o nível de aversão ao risco, maior a preservação dos reservatórios. Como consequência, o sistema passa a utilizar mais energia térmica de forma preventiva.
O problema é que a geração termelétrica custa mais caro. Essas usinas operam com combustíveis como gás natural, diesel ou carvão mineral, elevando o custo final da energia repassado ao consumidor.
Como isso chega à conta de luz
O CVaR impacta diretamente o chamado Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), referência usada no mercado elétrico brasileiro para calcular o custo da energia.
Quando o sistema adota um modelo mais conservador, aumenta a probabilidade de despacho antecipado de termelétricas. Isso encarece a geração elétrica e pressiona tarifas para consumidores residenciais, comércio e indústria.
Entidades ligadas aos consumidores afirmam que o nível atual de aversão ao risco mantém o sistema excessivamente conservador mesmo em cenários hidrológicos mais favoráveis.
Segundo Luiz Eduardo Barata, presidente da Frente Nacional dos Consumidores de Energia e ex-diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o ganho adicional de segurança do modelo atual seria pequeno diante do custo extra pago pela população.
“O que se ganha de seguridade com o CVaR em 15/40 é pouco. São só 2% de melhoria no nível dos reservatórios das hidrelétricas em relação a um nível 15/30”, afirmou.
O que pode mudar
A reunião desta quarta-feira discutirá justamente a possibilidade de reduzir esse conservadorismo operacional.
Caso o parâmetro seja alterado para 15/30, o sistema poderá operar com menor acionamento preventivo de térmicas, reduzindo custos do setor elétrico.
Segundo estudo da Volt Robotics, contratado por entidades do mercado, o modelo 15/30 manteria segurança administrável para o sistema mesmo em cenários críticos de hidrologia.
A Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia Elétrica (Abraceel) estima que a mudança poderia reduzir tarifas em até 0,98%.
Barata afirma que o impacto econômico vai além da conta de luz doméstica.
“Quando o consumidor paga pelo CVaR alto, ele paga duas vezes. Paga na conta de luz e paga no custo de energia que o produtor de gado teve, que o supermercado teve para manter aquele insumo”, disse.
Por que o tema divide o setor
A discussão opõe grupos com interesses diferentes dentro do setor elétrico.
Entidades ligadas a consumidores, comercializadoras e parte da indústria defendem a redução do CVaR por entenderem que o modelo atual encarece artificialmente a energia.
Já agentes favoráveis à manutenção do parâmetro atual argumentam que diminuir a aversão ao risco pode elevar a chance de problemas futuros de abastecimento, especialmente em períodos de seca mais severa.
O debate ganhou força após a crise hídrica de 2021, quando o país precisou ampliar fortemente o uso de termelétricas para evitar risco de racionamento.
Por isso, o governo decidiu adiar a votação originalmente prevista para 13 de maio e pediu novos estudos ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e à Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), especialmente após os leilões de reserva de capacidade realizados neste ano.
A decisão final poderá definir se o país seguirá operando com um modelo mais conservador ou se aceitará maior exposição ao risco em troca de energia mais barata.
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