
Os economistas e analistas de mercado esperavam um recuo de -0,4% em dezembro no índice que mede a atividade econômica do país, mas ele não veio. Dados do Banco Central apontam que o IBC-Br, termômetro mensal considerado a prévia do Produto Interno Bruto (PIB), teve uma retração de -0,2% em dezembro, e alta acumulada de 2,5% no ano – apesar dos juros em 15%, maior patamar em quase duas décadas.
Com isso, a projeção é de uma economia ainda mais aquecida no início deste ano, considerando que o primeiro semestre tende a acumular maior atividade devido à sazonalidade das safras que movimentam a economia no país e, especialmente neste ano, devido à eleição.
| Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) | ||||
| Nov/Dez 2025 | Dez 2024 / Dez 2025 | Trimestre / Trimestre | Acumulado ano | |
| IBC-Br (total) | -0,2 | 3,1 | 0,4 | 2,5 |
| Agro | 2,3 | 6,4 | 2,8 | 13,1 |
| Indústria | 0,3 | 2,3 | -0,2 | 1,5 |
| Serviços | -0,3 | 3,1 | 0,5 | 2,1 |
| Impostos | -0,2 | 2,6 | 0,3 | 1,2 |
| IBC-Br ex-agro |
-0,3 | 2,9 | 0,3 | 1,8 |
Análise de setores: impacto do agro e serviços
Rodolfo Margato, economista da XP, destaca os sinais “predominantemente positivos” no quarto trimestre. Entre eles, está a agropecuária, que teve “forte recuperação” no período, com alta de 2,3% entre novembro e dezembro, de 6,4% comparado a dezembro de 2024, 2,8% na comparação entre trimestres e um salto de 13,1% no acumulado do ano devido à safra recorde de grãos. Além disso, Serviços também manteve trajetória sólida, embora com “perda de fôlego” ao longo do segundo semestre.
Já no campo negativo, a indústria caiu 0,2% no trimestre, destaca Margato, apontando que este é o terceiro declínio consecutivo na base trimestral.
Leonardo Costa, economista do ASA, avalia que a composição dos dados sugere “perda de tração” nos segmentos mais ligados ao consumo e renda, “em linha com as condições financeiras mais restritivas”.
Para Matheus Pizzani, economista do PicPay, chama a atenção o bom desempenho esperado para o setor agropecuário, a despeito dos riscos que se aventam em função da ocorrência de eventos climáticos adversos, como o El Niño. “Este processo, caso se consolide e seja originado de fato por um aumento de produtividade e não apenas por correções de natureza estatística, pode fornecer contribuição positiva expressiva para o desempenho da inflação do grupo de alimentação no domicílio”, diz.
A BGC Liquidez destaca que o mês de novembro foi excepcionalmente forte devido à Black Friday, e os dados de dezembro corrigiram essa distorção, o que explica parte da retração no setor de serviços e comércio.
Motores de crescimento em 2026
Para o diretor de macroeconomia para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, a atividade econômica deve continuar a se beneficiar das transferências fiscais federais para famílias de baixa renda, já que elas têm alta propensão ao consumo; e da expansão da renda real disponível das famílias, tanto do trabalho quanto de outras fontes.
Ele cita, ainda, o impulso que deve vir do novo programa de empréstimos garantidos por folha de pagamento e do aumento do limite de isenção do Imposto de Renda. Para ele, esses fatores atenuam as condições monetárias e financeiras internas restritivas, os altos níveis de endividamento das famílias e os baixos níveis de folga econômica. “O crescimento da renda disponível real bruta das famílias acelerou para 5,5% a/a em dezembro (4,4% a/a em dezembro), o que, aliado a um cenário de mercado de trabalho robusto, deve sustentar os gastos nos próximos meses”, diz, em seu relatório de análise.
Antonio Ricardi, economista do Daycoval, reforça que os dados implicam um maior dinamismo no quarto trimestre do que aquele projetado, já que era esperada uma desaceleração mais acentuada. Ele avalia que os números apontam para uma resiliência da atividade acima do esperado frente aos juros, que deveriam frear a economia.
Este cenário será “carregado” para o primeiro trimestre de 2026. “Devemos partir de um patamar mais alto da atividade, o que reforça o cenário de cautela na condução da política monetária”, avalia.
Margato segue a mesma linha de análise. Ele destaca que a renda real disponível às famílias deve crescer de forma significativa neste ano, apoiada por um mercado de trabalho apertado, maiores transferências fiscais e pelos efeitos da reforma do IRPF.
“Além disso, esperamos forte expansão dos gastos de governos estaduais, aumento do crédito direcionado às empresas – liderado por bancos públicos – e aceleração do crédito consignado para trabalhadores do setor privado. Em nossa avaliação, esses fatores devem mais do que compensar os efeitos da política monetária contracionista”, diz.
Rafael Perez, economista da Suno Research, também cita o consumo das famílias, o mercado de trabalho, os estímulos fiscais e o setor de serviços como os principais motores da atividade econômica em 2026.
Projeções para o PIB
Na avaliação da XP, a estimativa é que o PIB de 2025 feche com alta de 2,3% e avance 2% em 2026.
A Suno Research também projeta PIB de 2,3% em 2025, mas fica em 1,8% para 2026.
Para o Daycoval, o PIB de 2025 deve fechar de 2,2% a 2,3%. Já o PIB de 2026 foi reajustado de 1,6% para 1,7%. O PicPay segue no mesmo patamar de projeção, de 1,7%.
O que esperar dos juros
Gustavo Gonzaga, economista da Necton Investimentos, avalia que os dados confirmam espaço para o Comitê de Política Monetária (Copom) cortar juro em 0,50 ponto percentual na próxima reunião, marcada para março.
Ele afirma que, embora os percentuais mostrem uma aceleração na leitura dos dados trimestrais, a comparação anual confirma uma desaceleração gradual da atividade.
Já Ricardi afirma que “faz mais sentido cortar 0,25 p.p na próxima reunião”, já que os dados confirmam uma desaceleração menos intensa da atividade econômica.
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