
O governador em exercício do Rio, o presidente do Tribunal de Justiça Ricardo Couto, decidiu trocar o comando do Detran-RJ e nomeou para a presidência do órgão o coronel da reserva da Polícia Militar Carlos Eduardo Sarmento da Costa, ex-comandante do Bope e integrante da cúpula da segurança pública fluminense. A mudança foi publicada no Diário Oficial desta sexta-feira e faz parte da série de alterações promovidas por Couto desde que assumiu o Palácio Guanabara interinamente.
A troca no Detran se soma às mudanças já feitas pelo desembargador na Casa Civil, no Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e nas secretarias de Governo e Saúde. Segundo pessoas próximas ao governador em exercício, o objetivo é imprimir um “viés de moralidade” ao departamento, historicamente alvo de denúncias de corrupção, influência política, loteamento de cargos e esquemas de propina.
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Sarmento substitui Rodrigo Coelho, que havia sido indicado ao cargo pelo ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella, aliado político do ex-governador Cláudio Castro. Couto determinou ainda que o novo presidente priorize servidores de carreira nos cargos de direção e implemente uma gestão de austeridade dentro do órgão.
Com mais de 30 anos de atuação na segurança pública e gestão estratégica, Sarmento acumulou funções de comando operacional, inteligência e administração pública ao longo da carreira. Ingressou na Polícia Militar em 1991 e concluiu o curso de formação de oficiais em 1993. Depois, fez o curso de Operações Especiais, em 1995, o de Aperfeiçoamento de Oficiais, em 2003, e o Curso Superior de Polícia, em 2012. Também possui pós-graduação em administração pública.
Ao longo da trajetória na PM, comandou os batalhões de São Gonçalo, Bangu, Olaria, Magé e Irajá, além do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), do Comando de Operações Especiais (COE) e do Comando de Policiamento Especializado (CPE). Também ocupou cargos como subsecretário de Estado, chefe do Estado-Maior Geral da PM, chefe da Divisão de Operações de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública, assessor especial de Segurança do gabinete do prefeito do Rio e chefe de gabinete da Secretaria estadual de Trabalho e Renda.
Antes de assumir o Detran, Sarmento já havia passado pelo próprio departamento como assessor-chefe de Gestão e Modernização do órgão.
Na corporação, o coronel ficou conhecido por uma atuação rígida no combate à corrupção interna. Em 2015, quando comandava o Bope, desconfiou de vazamentos de operações em comunidades dominadas pelo Comando Vermelho após avaliar que os resultados das ações eram considerados ruins. Diante da suspeita, acionou a Polícia Federal, o Ministério Público do Rio, a Corregedoria da PM e a Secretaria de Segurança para investigar possíveis informantes dentro da própria tropa.
A investigação terminou com a prisão de cinco policiais militares acusados de repassar informações sigilosas para traficantes em troca de propina. À época, integrantes da corporação consideraram que o grupo havia comprometido a imagem do batalhão.
Em 2018, Sarmento recebeu a Medalha Tiradentes, principal honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), por iniciativa do então deputado Jorge Felipe Neto, em reconhecimento aos serviços prestados no Bope, na inteligência da PM e no comando de batalhões.
Furna da onça
O novo presidente assume um dos órgãos mais problemáticos da estrutura estadual. Ao longo dos últimos anos, o Detran-RJ esteve no centro de diversas operações policiais e investigações envolvendo corrupção sistêmica, fraudes em vistorias, venda ilegal de serviços e influência política.
Um dos episódios de maior repercussão ocorreu em 2018, durante a Operação Furna da Onça, desdobramento da Lava-Jato no Rio. A investigação revelou um esquema de loteamento político de postos do Detran em pelo menos 20 municípios fluminenses. Deputados estaduais presos eram suspeitos de cobrar propina em troca da indicação de cargos no órgão. Na ocasião, o então presidente do Detran, Leonardo Jacob, também foi preso, o que provocou suspensão de serviços e transtornos em unidades do departamento.
Histórico de polêmicas
As suspeitas envolvendo corrupção no órgão atravessam diferentes governos. Em 2017, o ex-deputado Coronel Jairo foi acusado de controlar postos de vistoria, incluindo o de Campo Grande, além de atuar em contratos terceirizados irregulares ligados ao departamento.
No mesmo ano, outra operação levou à prisão vistoriadores em Magé suspeitos de inserir informações falsas no sistema do Detran mediante pagamento de propina.
Já em 2013, uma operação conjunta da Polícia Civil com o Jornal da Globo resultou na prisão de 89 pessoas, entre funcionários do Detran, policiais militares e intermediários. O esquema movimentava cerca de R$ 4 milhões por mês e permitia a aprovação de veículos irregulares sem a realização adequada de vistoria.
Em 2012, a Polícia Civil desarticulou em Itaboraí uma quadrilha formada por despachantes conhecidos como “zangões” e funcionários do órgão que utilizavam uma “senha master” para alterar ilegalmente dados de veículos registrados no Renavam.
As investigações também atingiram o setor terceirizado do departamento. Em 2019, relatórios da Polícia Federal apontaram que empresas ligadas ao empresário Arthur Soares, conhecido como “Rei Arthur”, mantinham apadrinhados políticos em postos terceirizados do Detran.
Os casos mais antigos remontam a 2010, quando seis funcionários do departamento e oito despachantes viraram réus por participação em um esquema de alteração de dados de veículos e emissão fraudulenta de documentos em troca de propina.
Segundo denúncia da Coordenadoria de Combate à Sonegação Fiscal do Ministério Público do Rio, o grupo realizava cerca de cem procedimentos ilegais por semana. Havia datas fixas para os pagamentos indevidos, geralmente às sextas-feiras, e valores previamente acertados de acordo com o tipo de serviço. Interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça identificaram pagamentos de até R$ 3 mil em propina.
A quadrilha atuava na Divisão de Atendimento aos Despachantes do Detran e contava com uma “engenhosa estrutura” para praticar fraudes. Entre os crimes investigados estavam emissão de documentos para veículos fantasmas, transferência irregular de propriedade, alterações ilegais de características de automóveis, inclusão de blindagem sem autorização do Exército e emissão de documentação para instalação de gás natural sem exigências legais.
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