Maria do Carmo de Sousa, conhecida como Dona Carmem, morreu nesta quinta-feira (27), aos 56 anos, em Campinas. Fundadora da Comunidade Feminista Menino Chorão, ela deixa como legado uma ocupação que começou com cerca de 50 mulheres e cresceu até se tornar o lar de 381 famílias.
Antes de se tornar uma das lideranças comunitárias de Campinas, porém, Carmem sobreviveu ao tráfico humano, viveu nas ruas, enfrentou violência e perdeu um dos filhos. Foi a partir dessas experiências que ela passou a dedicar a vida ao acolhimento de outras mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade.
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Cearense, nascida em 3 de abril de 1970, Dona Carmem contou em entrevista a EPTV, em 2023, que chegou ao interior de São Paulo em 2004 depois de ser vítima de tráfico humano.
Segundo ela, foram 40 dias até conseguir fugir do local onde era mantida com outras quatro amigas. Depois da fuga, o grupo buscou ajuda e foi acolhido pelo Centro de Promoção para um Mundo Melhor e pelo SOS Mulher.
Mesmo tendo a possibilidade de retornar ao Ceará, Carmem escolheu reconstruir a vida em Campinas. Na época, os cinco filhos dela permaneciam em Fortaleza.
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Do salão de beleza às ruas
Em Campinas, Carmem abriu um salão de beleza na Vila Aeroporto e passou a morar com um companheiro. O período de estabilidade, no entanto, terminou depois de uma sequência de perdas.
Ao viajar para Fortaleza para acompanhar o velório de um dos filhos, ela deixou a casa onde vivia em Campinas. Quando retornou, descobriu que o companheiro havia levado seus pertences.
Sem condições financeiras, Carmem foi morar em uma ocupação no Jardim São Domingos, em 2008. Uma reintegração de posse, porém, obrigou os moradores a deixarem o terreno.
Ela passou cerca de uma semana nas ruas ao lado de outras mulheres.
O grupo encontrou abrigo em outra ocupação, desta vez no Jardim Marisa. De acordo com o relato de Carmem, as mulheres passaram a enfrentar extorsões e ameaças de agressão feitas por homens que controlavam o local.
Uma nova desocupação as deixou novamente sem ter para onde ir.
Uma comunidade comandada por mulheres
Foi nesse momento que o grupo encontrou um terreno vazio na região do Campo Belo. Ali começaria a história da Comunidade Feminista Menino Chorão.
A ocupação nasceu com aproximadamente 50 mulheres e uma regra estabelecida desde o início: as decisões e a liderança ficariam nas mãos delas.
Sob a atuação de Dona Carmem, o espaço cresceu. Ao longo dos anos, chegou a 381 famílias e desenvolveu uma rede de iniciativas voltadas aos próprios moradores.
Horta comunitária, oficinas de costura e artesanato e atividades de reforço escolar estiveram entre os projetos desenvolvidos no local.
A comunidade também criou a “Cozinha das Pretas”, iniciativa que ganhou ainda mais importância durante a pandemia de Covid-19.
Em meio à perda de renda de moradores, a mobilização comandada por Carmem chegou a garantir a distribuição de cerca de 160 marmitas por dia e 300 sopas aos fins de semana.

Por que Menino Chorão?
O nome escolhido para a comunidade é uma homenagem a Alexandre Magno Abrão, o Chorão, vocalista do Charlie Brown Jr.
Chorão teria colaborado com alimentos, medicamentos e materiais de construção, além de contribuir para melhorias na infraestrutura da comunidade. O músico morreu em 2013, aos 42 anos.
Diagnóstico de câncer
Em setembro de 2022, Dona Carmem foi diagnosticada com câncer de mama. O tratamento fez com que ela se afastasse temporariamente de parte da rotina da comunidade.
Mesmo durante o período, a líder comunitária continuou ligada à defesa das mulheres e à luta por moradia que havia marcado sua trajetória em Campinas.
Dona Carmem morreu nesta quinta-feira (27), aos 56 anos.
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