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Recuperação judicial da Estrela ilustra momento de pressão do crédito sobre empresas

por SampaNews 21 de maio de 2026
21 de maio de 2026
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O pedido de recuperação judicial da fabricante de brinquedos Estrela, uma das marcas mais tradicionais da indústria brasileira, reforçou o cenário de pressão financeira enfrentado por empresas em diferentes setores da economia em meio ao crédito caro e ao ambiente macroeconômico desafiador.

Em comunicado ao mercado, a companhia afirmou que a decisão decorre da necessidade de reestruturar seu passivo diante de “pressões econômicas e setoriais relevantes”, citando o aumento do custo de capital, as restrições de crédito e mudanças no comportamento do consumidor infantil, com avanço da concorrência de alternativas digitais.

O caso da Estrela ocorre num momento em que as recuperações judiciais seguem em patamar historicamente elevado no Brasil, como mostra um levantamento feito pela Serasa Experian em 2025, ano em que foi registado um recorde histórico de empresas em recuperação judicial, com 2.466 CNPJs envolvidos, alta de 13% em relação a 2024, o maior volume da série histórica da instituição. Pela ótica processual, foram 977 pedidos de recuperação judicial, avanço de 5,5%, também no maior nível desde 2016.

A nova metodologia da Serasa diferencia o número de processos da quantidade efetiva de empresas impactadas, mostrando que um único pedido pode envolver vários CNPJs de um mesmo grupo econômico, ampliando o alcance real da crise corporativa.

Juros elevados

O pano de fundo dessa deterioração continua sendo o ambiente financeiro restritivo. Embora o Banco Central tenha iniciado cortes na taxa básica de juros neste ano, a Selic segue em 14,5% ao ano, considerado ainda um patamar bem elevado para empresas altamente dependentes de crédito. Após alcançar 15% em junho de 2025, a taxa recuou, mas o mercado já trabalha com a possibilidade de uma flexibilização monetária mais lenta diante das pressões inflacionárias e da instabilidade internacional provocada pelo choque no petróleo.

Segundo analistas, o ambiente de juros elevados por um período prolongado acabou expondo fragilidades operacionais e de gestão em diversas companhias, ao mesmo tempo em que encareceu a rolagem de dívidas e restringiu novas linhas de financiamento.

A própria Serasa vê sinais de alerta para 2026. De acordo com a economista-chefe da datatech, Camila Abdelmalack, o fato de o ritmo de crescimento das recuperações ter desacelerado no ano passado não significa necessariamente melhora neste ano, já que a combinação entre desaceleração econômica, crédito seletivo e inadimplência ainda inspira cautela.

Os números ajudam a dimensionar a pressão: 8,7 milhões de empresas estavam negativadas em janeiro de 2026, com dívida média de R$ 23.138 por CNPJ e cerca de sete restrições por empresa inadimplente, de acordo com a Serasa. Historicamente, a inadimplência costuma anteceder movimentos mais intensos de recuperação judicial.

Os dados da Serasa mostram que a pressão financeira não está concentrada em apenas um segmento. A agropecuária liderou as recuperações judiciais em 2025, respondendo por 30,1% dos CNPJs envolvidos, seguida de perto por serviços (30%), comércio (21,7%) e indústria (18,2%).

Oportunidade de reorganização

Para especialistas, o avanço das recuperações judiciais não deve ser lido apenas como um retrato de colapso empresarial, mas também como uma mudança na forma como o mecanismo passou a ser utilizado no Brasil.

Daniela Lubianca, advogada empresarial e sócia da Tahech Advogados, afirma que a recuperação judicial deixou de ser encarada exclusivamente como etapa terminal antes da falência e passou a funcionar, em muitos casos, como instrumento de reorganização financeira.

“Hoje, a recuperação judicial passou a ser utilizada como uma ferramenta legítima de reestruturação empresarial, permitindo que empresas viáveis reorganizem passivos, mantenham empregos, preservem operações e retomem sua capacidade econômica”, afirma.

Na avaliação de Adilson Bolico, sócio do Mortari Bolico Advogados, o ambiente macroeconômico continua pressionando o caixa das companhias, com impacto de juros elevados, cenário tributário complexo e restrições de crédito. Ele pondera, porém, que o instrumento também exige cautela. “Em alguns casos, a recuperação judicial cumpre a função de preservar a atividade empresarial, empregos e arrecadação. Mas ela precisa passar por um crivo judicial rigoroso e por um plano que demonstre efetiva viabilidade econômica”, diz .

Para empresas que ainda buscam evitar esse caminho, a recomendação é agir antes que a crise se torne incontornável. Bruna Florian, advogada do EFCAN Advogados, compara a recuperação judicial a um tratamento extremo. “A recuperação judicial é como uma quimioterapia: pode salvar a empresa, mas também é um processo bastante penoso. Antes disso, é essencial reestruturar dívidas, renegociar contratos, rever custos e até repensar o próprio modelo de negócio”, afirma .

Na mesma linha, Pedro Cavalcante Amorim Quercia, sócio do Chalfin Goldberg & Vainboim Advogados, defende uma postura preventiva, com fortalecimento da governança corporativa, monitoramento financeiro constante e uso de alternativas menos traumáticas, como renegociações privadas ou recuperações extrajudiciais, antes da judicialização.

“No final, os juros altos são importantes e ajudam a acelerar a crise. Mas seria simplista atribuir o aumento das recuperações apenas a isso. Vemos é uma combinação de fatores como dívida cara, crédito mais seletivo, margens apertadas, inadimplência em cadeia e mudanças relevantes no comportamento de consumo. Em muitos casos, a empresa não busca recuperação porque deixou de ser viável, mas sim porque a estrutura de endividamento ficou incompatível com a sua capacidade de geração de caixa” resume Bruno Gameiro, advogado especialista em reestruturação e recuperação judicial, sócio fundador do Gameiro Advogados

Caso Estrela

No caso da Estrela, isso se confirma, porque além do crédito mais caro, pesam transformações estruturais no próprio mercado de brinquedos. A indústria enfrenta há anos concorrência crescente de produtos importados e, mais recentemente, a disputa pela atenção infantil com plataformas digitais, jogos eletrônicos e novos formatos de entretenimento, que vêm alterando hábitos de consumo e pressionando fabricantes tradicionais.

Fundada em 1937 por Siegfried Adler, a fabricante, que começou com bonecas de pano, conquistou gerações com clássicos como Genius, Susi e Falcon. Ao longo dos anos tornou-se uma das maiores fabricantes de brinquedos do país, mas não é a primeira vez que a empresa enfrenta dificuldades. Nos anos 1990, a Estrela teve problemas com abertura do mercado aos importados. Teve ainda de lidar com o rompimento com a Mattel, colocando fim a uma parceria de 30 anos, que permita a empresa comercializar a boneca Barbie no Brasil. Depois, nos anos 2000, ela teve outra perda importante, com o fim do licenciamento de jogos da americana Hasbro, que marcaram sua linha como o Banco Imobiliário e o Detetive.

Uma figura central aparece na transformação da Estrela. Carlos Tilkian assumiu a vice-presidência da empresa em 1993, após deixar a Gessy Lever (atual Unilever), e três anos depois surpreendeu o mercado ao adquirir a companhia da família fundadora. A decisão foi considerada arriscada, pois a Estrela enfrentava uma crise severa, com estoques encalhados e dívidas volumosas de impostos não pagos com o governo. Muitos previam que seria vendida para gigantes estrangeiras ou até fecharia as portas. Tilkian, porém, apostou no poder da marca e na capacidade de reverter o cenário adverso.

Sob sua gestão, a Estrela iniciou um processo de modernização, relançando clássicos  e investindo no licenciamento de jogos inspirados em programas de TV populares, como Show do Milhão, Big Brother Brasil e No Limite. A China, outrora concorrente, passou a fornecer componentes eletrônicos para os brinquedos da Estrela. Além disso, apostou em influenciadoras digitais e novos formatos tecnológicos para dialogar com o público mais jovem, como a boneca da youtuber Luluca, sucesso entre crianças e adolescentes.

Onda de recuperações

O caso da Estrela se soma a uma lista crescente de empresas que recorreram à recuperação judicial nos últimos meses, incluindo nomes conhecidos do consumidor brasileiro, como Bombril, o Grupo Toky (controlador da Tok&Stok e Mobly, que enfrentam dificuldades financeiras em meio à crise prolongada do varejo de móveis e decoração);  o Grupo CVLB Brasil (dono das varejistas Casa & Video e Le Biscuit), e até no futebol as dificuldades fizeram vitima como a SAF Botafogo, que recorreu à Justiça em meio a disputadas financeiras e reestruturações societárias.

Tudo isso, reflete um ambiente ainda marcado por crédito caro e pressão sobre o caixa corporativo.

Leia também: Estrela não é a única: veja outras recuperações judiciais de empresas no 1º semestre

Assim, se antes a recuperação judicial era vista como um recurso extremo, hoje ela vem sendo cada vez mais utilizada como ferramenta de reorganização financeira para preservar operações, renegociar passivos e evitar a falência. Não por acaso, enquanto as recuperações avançaram, os pedidos de falência caíram 19% em 2025, segundo a Serasa.

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